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O futebol baiano e o racismo comum do Brasil

Ricardo Pinto dos Santos

Começamos este texto com uma constatação importante: Os negros e as suas práticas, mesmo o futebol, por longo período na história, não se encaixavam na imagem que se esperava ou se construía de uma cidade que buscava se reinventar. A imagem que eles, os negros, refletiam não cabia nas cidades que se modernizavam e, sobretudo, desejavam exibir para o Brasil e para o mundo. Esse pressuposto, grosso modo, motivava o discurso e as ações de grande parte das elites brasileiras no início do século XX. Será que a Bahia, terra de todos os santos e marcada por sua negritude, apresentou algo de diferente nessa história?

Inicialmente, devemos entender que não tivemos uma escravidão benévola, como afirma Antonio Sérgio Alfredo Guimarães, sociólogo da USP, em prefácio do livro A integração do negro na sociedade de classes (FERNANDES, 2008). Assim, quando tratarmos da história do negro, e em especial do futebol praticado por ele, nada se torna mais acintoso do que insistir no mito da democracia racial e associá-lo à “invenção” de que o futebol é um jogo essencialmente democrático. Nesse caso, levando-se em conta apenas o fato desse esporte poder ser praticado na sua forma mais simples pelas camadas mais pobres da população.

O futebol, assim como várias outras modalidades esportivas, apresenta “versões” simples, assim como aquelas mais arrojadas em que o investimento financeiro cria um espetáculo que, de modo algum, está disponível para todos. Ou seja, o futebol não traz e não carrega nenhum valor em si, mas é, sobretudo, um esporte que possibilita um grande contingente de variações que acomodam os interesses e possibilidades dos mais diversos grupos sociais. Ainda hoje, temos o futebol da várzea e o futebol dos grandes clubes. Continuamos com o futebol amador, agora com outras representações, bem como com o futebol profissional, este experimentado nas suas mais diversas escalas financeiras. Temos, enfim, desde o início do século XX, vários “futebóis” possíveis.

A Bahia, Estado marcado pela sua negritude, como já foi dito, não foi exceção. Foi na imprensa, por exemplo, que os comerciantes da cidade difundiram as regras do jogo e, sobretudo, se definiu o material esportivo que deveria ser usado para uma partida de futebol “adequada”. O interesse era tanto que, desde o ano de 1903, os jornais publicavam em detalhes suas regras, enquanto o material esportivo vendido para a prática do jogo se esgotava rapidamente nas lojas, conforme afirma o memorialista Aroldo Maia (1944, p. 8). Ou seja, o estabelecimento de regras e, sobretudo, de um “modo adequado” de jogar deixa claro que, em contrapartida, o que não se encaixasse no modelo deveria ser combatido.

Um fato chama a atenção sobre aquele momento. Na Bahia, até o ano de 1905, não encontramos nenhuma referência à presença das camadas populares, especialmente os negros, nas partidas “adequadas” de futebol. Em geral, eles apareciam na descrição de várias reclamações, no caso de Salvador, feitas por conta das partidas disputadas fora dos locais “adequados” à prática. Então, nos perguntamos: por que os negros não participaram do futebol adequado daquele estado? Será que eles não queriam participar daquele tipo de futebol, ou haveria algo por trás daquela situação?

Time do Vitória campeão baiano de 1908. Foto: Wikipedia.

Vale, nesse sentido, uma vista rápida pelo estatuto de alguns clubes da capital baiana. Com isso, acho que conseguiremos revelar o cenário no qual estavam presos os negros de lá e de tantos outros Estados. Vejamos o que traz o Estatuto do Esporte Clube Vitória sobre os membros do seu clube:

São membros do Club todos os cidadãos maiores de 18 anos, de qualquer estado e nacionalidade, de bom comportamento, que não pertençam a outro Club Sportivo desta Capital e que sendo proposto por um ou mais sócios forem aceitos pela diretoria. (SANTOS, 2012, p. 55) [grifos nossos].

Em geral, a exclusão ocorria de forma sorrateira, negociada, definida na sala de reuniões, onde a aprovação dos candidatos a sócios eram postas. Devemos lembrar, sobre o método utilizado, que para os grupos dirigentes o conceito de “bom comportamento” era, e continua sendo, bem restrito àquilo que eles consideravam aceitável para o seu grupo social. No entanto, algumas vezes, o disfarce da reunião e de uma possível análise justa das propostas era apressado por uma exclusão declaradamente explícita.

O estatuto do Sport Club Bahia, fundado em 1906, mostra bem o que eles desejavam dentro do seu clube e como eles resolveram a questão do negro. Há no documento um parágrafo único que, categoricamente, define que “em hipótese alguma poderá fazer parte do Club pessoas de cor[1] (Ibidem). Mais do que isso, o estatuto determina que, para a admissão ao clube, a proposta deveria ser aceita por uma comissão de sindicância e que, na proposta, deverá constar, além do nome e endereço, a profissão honrosa do proposto.

Estatutos do Sport Club Bahia. Foto: Arquivo pessoal.

Ou seja, assim como no Rio de Janeiro e em São Paulo, a entrada de novos sócios era determinada por uma comissão de sindicância, formada também por sócios, notadamente brancos. E que, em casos que não houvesse a categoria da raça como determinante à entrada, o “problema” do negro seria resolvido através da sua ocupação ou pela comissão de sócios. Não havia brechas.

Salvador, nesse aspecto, não se difere das outras capitais. Importante, nesse caso, é a manutenção dos poderes absolutos à comissão de sindicância. Em Salvador, possivelmente também em Porto Alegre, mesmo no Rio de Janeiro e em São Paulo, a comissão decidia quem entrava e quem saía dos clubes. Haveria para isso uma série de requisitos que deveriam ser cumpridos pelo solicitante que almejava fazer parte dos quadros da agremiação; dentre elas, a que mais servia como fonte de exclusão, quando a raça não estivesse definida, era a necessidade de indicar a profissão que o postulante exercia. Nesse caso, somente as profissões reconhecidas como “honrosas” eram aceitas pela comissão. Esse item visava atingir os trabalhadores braçais, em especial os negros, que, em geral, trabalhavam em atividades que não eram reconhecidas como honrosas ou não o suficiente para ocuparem a posição de sócios nesses “distintos clubes”.

Tricolor de Aço ou Esquadrão de Aço, até hoje o mascote branco do Bahia. Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia/Divulgação.

Henrique Sena, sobre a Bahia, diz que “ainda que houvesse uma proliferação de clubes, era bem claro para os sócios do Vitória, Internacional, São Salvador e outros clubes posteriores, o ideal de distinção sociorracial nas suas agremiações, uma tentativa de se manterem longe dos populares e setores médios” (SANTOS, 2012, p. 53).

Enfim, a Bahia de todos os santos não fugiu à regra. O processo de inserção do futebol na Bahia seguiu a regra os outros estados. Ou seja, o futebol foi gestado de forma excludente e racista. Na verdade, para além do esporte, o racismo é uma marca social brasileira, que ainda deixa marcas em nossas relações sociais. Porém, algo bem peculiar aconteceu durante o processo de estruturação do futebol na Bahia, especificamente em Salvador. Por motivos que veremos noutra ocasião, os negros e pobres “venceram” e dominaram o futebol. Doravante, veremos como isso aconteceu. Por enquanto, ficamos por aqui.

 

Bibliografia

FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes: volume 1 e 2. São Paulo: Globo, 2008.

MAIA, Aroldo. Almanaque Esportivo da Bahia. Salvador: Helenicus. 1944.

SANTOS, Henrique Sena dos. Pugnas Renhidas: futebol, cultura e sociedade em Salvador, 1901–1924. Dissertação de Mestrado. Feira de Santana. UEFS – 2012.

[1] Uma cópia digital do Estatuto foi cedida pelo pesquisador Henrique Sena e agora faz parte do meu acervo pessoal.