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O futebol cabe na mala

Paula Lago

Imigrantes e refugiados que moram no Brasil falam sobre o amor ao futebol e contam como vão torcer por suas seleções durante a Copa América

 

Falando assim, de uma forma fria e burocrática, o reconhecimento de um refugiado é balizado por situações de fundado temor, perseguição relacionada à raça, religião, nacionalidade, pertencimento a determinado grupo social ou opinião política.

Este texto reúne algumas histórias desse tipo. Histórias que já não deveriam mais acontecer. Mas teremos também outras, de imigrantes que deixaram seus países em busca de melhores condições de vida. Em comum entre os dois casos, no entanto, a necessidade da urgência, de abandonar suas casas sem muito planejamento, por se sentirem inseguros ou vulneráveis de alguma forma.

Nesta edição de Copa América, de volta ao Brasil após 30 anos, desviamos o nosso olhar a esses moradores da cidade de São Paulo, uma das cinco sedes do torneio e casa de 52% dos refugiados que vivem hoje no país, segundo dados do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados). A capital paulista também é um dos principais destinos dos imigrantes que não contam com o status de refúgio.

Muitos foram obrigados a sair de seus países sob condições adversas, deixando para trás família, amigos, casa, roupas, objetos pessoais… Porém, há um item que fez essa viagem junto com todos os refugiados e imigrantes entrevistados pela reportagem. Sem ocupar espaço na bagagem, eles trouxeram também o amor pelo futebol.

“Aqui no Brasil, nós, bolivianos, não temos muitas opções: é só trabalho e futebol”, diz Paulo Alejandro. Foto: Arquivo pessoal.

 

O esporte como inclusão

No centro de São Paulo, numa sala da Casa do Migrante, abrigo da Missão Paz que permite a permanência de imigrantes e refugiados, o haitiano Ivenson Belval, 24 anos, além de desenvolver uma série de atividades de inclusão e acolhimento, assistia à final da Taça das Favelas. Reservado ao falar da vida pessoal pediu para não ser fotografado pela reportagem contou que está no Brasil desde maio. Por aqui, segundo registros oficiais da Polícia Federal, vivem 70.129 haitianos como ele. Só abriu o sorriso ao falar sobre futebol: “Vou torcer pelo Brasil na Copa América. O futebol brasileiro é o melhor!”

Melhor, mas não tanto. Na hora de escolher o time para torcer, Ivenson diz que os clubes brasileiros perderam a preferência para o futebol inglês, que naquela mesma tarde levantaria a taça de campeão da Champions League com o Liverpool de Salah e Mané. Sobre o futebol em seu país de origem, o haitiano diz que é muito difícil acompanhar os jogos estando distante. Além disso, “não é tão forte como o brasileiro”.

O boliviano Paulo Alejandro Mamani Sanchez, 30 anos, vive um problema parecido. Decidiu se dividir quando o assunto é a paixão por um clube: Corinthians, no Brasil, e Bolívar, no país em que nasceu.

Natural de Cochabamba, veio para São Paulo ainda criança, aos quatro anos, com a mãe e uma irmã. “Minha mãe não tinha trabalho, nossa vida era bem difícil. Quando chegamos aqui, tudo foi se encaixando.”

Assim como a família de Paulo, muitos outros bolivianos vieram para o Brasil em busca de uma vida melhor. São mais de 250 mil, entre os cadastrados oficialmente e imigrantes irregulares, de acordo com a Polícia Federal. A maior concentração está na cidade de São Paulo: são mais de 100 mil, o maior grupo estrangeiro na capital paulista.

No Brasil, o futebol ajudou na integração: “O Corinthians foi o primeiro clube que vi pela televisão e foi paixão à primeira vista. Só aqui fui me interessar mesmo pelo futebol. Nós trabalhamos muito e às vezes jogar bola é nosso único lazer. Acho que é por isso que os bolivianos do Brasil gostam mais de futebol do que os que ficaram por lá. Na Bolívia, ele é secundário, a dança folclórica é forte, temos mais opções”, conta.  

Paulo, que visitou a Bolívia duas vezes após vir morar no Brasil, sentiu a diferença na forma como os amigos de lá enxergam o futebol. “Fui ao estádio pela primeira vez na vida na Bolívia. É muito legal, todo mundo grita ao mesmo tempo, encanta. Aqui no Brasil, nós, bolivianos, não temos muitas opções: é só trabalho e futebol. Desde que entrei em um grupo de dança folclórica boliviana, percebi isso e fiquei menos fanático. Agora faço até apresentações de dança como na Festa do Imigrante, que é tradicional em São Paulo. Também estudo sobre a cultura do meu povo.”

Como vai ser logo mais, quando o árbitro apitar o início de Brasil x Bolívia, jogo de abertura da Copa América? “Sou 100% Bolívia! Temos potencial para ir longe e surpreender. E temos o Chumacero!”

E como todo mundo gosta de bater uma bolinha de vez em quando, o pivô de futsal das quadras no bairro do Pari, na região central da capital, faz até uma crítica aos brasileiros: “Quando vamos jogar entre amigos, sempre fico no time dos bolivianos. Brasileiro geralmente prefere jogar sozinho, é mais fominha. A gente prefere jogo de equipe”.

Seleção venezuelana na Copa dos Refugiados de 2018. Foto: Paula Lago.

 

Ameaças

O venezuelano Alejandro David Gerardo Monterola, 34 anos, não teve alternativa senão mudar para o Brasil em outubro de 2017. Coordenador de uma ONG em Caracas que oferecia o futebol como alternativa a crianças e adolescentes envolvidas com o tráfico de drogas, ele e os familiares foram ameaçados de morte por uma facção criminosa local.

“Deram vários tiros no meu carro, incendiaram a casa que era a sede da ONG. Tive de fugir para o Equador e pouco depois voltei à Venezuela. Novamente fui obrigado a sair do meu país, precisei parar de fazer o que eu gostava, que era ajudar aqueles jovens, e vir para o Brasil começar a vida do zero. Quando você tira um adolescente das drogas no meu país, você arranja problemas”, relata.

O poder de transformação social do futebol é o pilar de sustentação dessa convicção de Alejandro. Além de fazer do esporte uma oportunidade para vários jovens, é ao futebol que ele recorre quando quer se lembrar dos bons momentos vividos na Venezuela.

“O futebol é a minha vida, minha paixão. Em uma escala de um a cem, é mil! Quem não cresceu jogando futebol na rua, com uma bola velha, com um troféu como uma Coca-Cola após o jogo, com o tênis rasgado, não pode ser chamado de venezuelano. Graças a ele, ajudei a salvar muitas vidas.”

Alejandro: “Graças ao futebol, ajudei a salvar vidas”. Foto: Paula Lago.

Se o basebol é mais popular na Venezuela, o futebol tem crescido bastante: “Em 2014 e 2015, por conta da Copa no Brasil, o futebol estourou no meu país. Nós torcemos muito por vocês, e o interesse pelo esporte só aumenta. Agora estou muito animado com a Copa América aqui pertinho. A Venezuela está com uma equipe muito ‘da hora’, se Deus quiser, vamos chegar até a final”, diz, empolgado.

Antes de chegar a São Paulo, Alejandro morou em Roraima, porta de entrada de boa parte dos 168 mil venezuelanos que chegaram ao Brasil em busca de acolhimento, segundo dados da Acnur (Agência das Nações Unidas para os Refugiados).

Chegou a dormir na rua, outras noites em albergues municipais e hoje está melhor instalado, até “ganhando algum dinheiro” trabalhando novamente com crianças e jovens vulneráveis. Apesar dos desafios, diz que se apaixonou pelo Brasil e sonha em poder trazer alguns dos jovens jogadores que ajudou a formar na Venezuela.

Alejandro se envolveu com outra ONG em São Paulo: a África do Coração, responsável por organizar a Copa dos Refugiados que está em sua sexta edição. Ele é o capitão/técnico da seleção venezuelana e, apesar de não poder mais jogar por conta de um acidente sofrido ainda na infância, é o responsável por organizar o time.

 

Novas gerações

O encanto do futebol também pegou Samir Zapata Belandria, 10 anos, que veio com a família de Caracas para o Brasil há seis meses. Passou por Pacaraima (RR), ficou por uma semana em Boa Vista (RR), de onde veio em um avião militar para São Paulo.

Samir Zapata, 10 anos, veio com a família de Caracas para o Brasil há seis meses. Foto: Paula Lago.

Os amigos, as avós, a bisavó, os tios ficaram em Caracas. “Mas lá não tinha comida, brincadeiras, e eu tinha um pouco de medo. Agora tenho comida, as coisas não são tão caras. Aqui vou ter tudo o que quero. Estou feliz.”

O garoto tem como ídolos os óbvios Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, e o não tão óbvio assim  atualmente  Ronaldinho Gaúcho. Sobre o time, primeiro fica em dúvida, mas, depois de pensar um pouco, afirma que é o Real Madrid. Ao ouvir comentários sobre o futebol não ser preferência nacional na Venezuela, Samir concorda… discordando: “Não é tão famoso, mas, se passa na TV, as pessoas olham, param, gostam e gritam. Eu sempre joguei com os meus amigos”.

Infelizmente não será desta vez que Samir fará sua estreia num estádio. Os ingressos para a Copa América têm custos elevados e a família ainda está se estabilizando em São Paulo, com outras prioridades no momento. Mas a simples chance de poder assistir aos jogos da seleção Venezuela em tempo real, transmitidos pela televisão, já garante o sorriso do garoto. “Vou torcer pela Venezuela, já avisei meus amigos [brasileiros]! Aqui, eu vejo pela internet os jogos que já aconteceram. Então, agora, vou poder ver as partidas ao vivo. Vai ser legal”.

A colombiana Cielo aprendeu a jogar futebol com o pai, Edward, e sonha em conhecer Marta. Foto: Paula Lago.

Outra que está empolgada com a competição internacional é a jovem Cielo Daiana Tabima Andica, 9 anos, colombiana que está desde os 3 anos em São Paulo e tem como ídolo no futebol uma brasileira.

“Meu maior sonho é conhecer a Marta, dar um abraço. E o outro sonho é ser jogadora de futebol”.

A garota diz que gosta tanto de torcer quanto de jogar, e que tem dois times: o Corinthians e o Deportivo Cali. “Na escola tem meninos e meninas, é tudo misturado. Se algum deles disser que menina não pode jogar, eu vou dizer que é injusto! Se tem até Copa Feminina, né?”

Com os olhos brilhando, revelou a grande notícia em toda sua quase primeira década de vida: “Vou começar na escolinha [de futebol] amanhã [10/6]!”

Ela revela que aprendeu a jogar futebol com o pai, Edward Andrés Tabima González, 41 anos, mais conhecido como o Bola Ocho, dono da lanchonete Bola Ocho y La Negra, que reúne os torcedores colombianos na região do Glicério, centro de São Paulo, durante as partidas da seleção Cafetera. Na Copa do Mundo da Rússia, Bola Ocho chegou a juntar “umas 500 pessoas” no local. Quer repetir a dose agora, com a Copa América.

“Quando cheguei ao Brasil, há oito anos, não tinha smartphone, eu não conseguia acompanhar nem o Deportivo Cali e nem a seleção colombiana direito. Ficava me informando por SMS com os meus amigos na Colômbia. Agora não, está bem melhor. Com a internet, dá para assistir mais fácil. E a gente põe no telão. Todo mundo já está esperando para ver os jogos aqui”, conta o fã de Valderrama, Asprilla e Rincón.

Jean Katumba e Abdo JA Rour, organizadores da Copa dos Refugiados, com Berenice Maria Giannella, secretária municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, no estádio do Pacaembu, em 2018. Foto: Divulgação.

 

“Na vida, você quer ser torcedor ou jogador?”

Desde 2014 um engenheiro civil e faixa preta em judô que não dava muita bola para o futebol é o coordenador da Copa dos Refugiados, organizada pela ONG África do Coração.

Sua chegada ao Brasil não foi planejada. Tudo ia bem na vida do congolês Jean Katumba Mulondayi, 40 anos, que atuava em uma ONG de capacitação para jovens, até que uma eleição presidencial mudou tudo. O candidato que venceu o pleito em 2011, o oposicionista Étienne Tshisekedi, não foi proclamado eleito, e Joseph Kabila, que há 10 anos ocupava o cargo, se manteve na presidência.

O resultado foi questionado, e Jean era um dos ativistas que foram às ruas contestar Kabila. Ele e os amigos foram perseguidos, alguns deles assassinados, e Jean precisou abandonar a cidade. Tinha se tornado um rosto conhecido do regime ditatorial. Acabou sendo preso, torturado e, quando deixou a prisão, decidiu abandonar a República Democrática do Congo para sobreviver. A guerra civil continuava…

Mulondayi veio parar no Brasil, sozinho, em 2013. Somente depois de dois anos vivendo aqui, conseguiu trazer também a mulher e os filhos.

Seu primeiro endereço em São Paulo foi a Casa do Migrante, da Missão Paz. E foi lá que surgiu a Copa dos Refugiados. O padre Paolo Parisi, diretor da Missão Paz, se lembra das primeiras reuniões para a criação do evento: “Tudo começou aqui, na escadaria. Na escadaria! Não foi nem em uma sala”, brinca Jean. E agora, na sexta edição do evento que começou nos degraus de uma igreja, a final acontecerá no Maracanã.

“Não sei jogar, mas sei organizar”, afirma o congolês para explicar como se tornou o responsável pelo evento que, além dos jogos, também conta com palestras e atividades para que todos imigrantes (homens, mulheres e crianças) se sintam inseridos.

Equipe Malaika, time misto formado por jogadores refugiados sub-20 de oito países, com a taça de campeões da edição de 2018 da Copa dos Refugiados. Foto: África do Coração.

Em 2014, na primeira edição, foram 16 seleções e 160 atletas jogando apenas em São Paulo. Quatro anos depois foram 46 seleções, 920 atletas, distribuídos em três estados. “Neste ano vamos dobrar”, aposta Jean.

As partidas vão acontecer em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Pernambuco e também no Distrito Federal. Serão 56 seleções e 1.120 atletas. A competição começará após a Copa América e se dividirá em etapas estaduais até a final nacional.

O “cartola” não se diz impressionado com o crescimento do campeonato e já vislumbra novos horizontes: “Eu sabia que ia crescer. Não tanto, mas sabia que ia crescer. Começamos num campinho do Glicério, mas já tivemos jogos na Arena do Grêmio, no Beira-Rio, no Pacaembu e também no Maracanã, no lançamento do torneio no ano passado. Ano que vem, eu quero levar a Copa dos Refugiados para a França”.

Jean é dos que encaram um objetivo sem medo. “A gente tem de pensar grande para alcançar grandes realizações”, ensina. Além de levar a Copa para outro país, o outro sonho é criar uma torcida pela causa dos refugiados. Um núcleo de pessoas que compareça aos jogos, mas também se movimente e participe das ações de combate ao preconceito e apoio à inclusão: “O nosso maior desafio não é jogar no Maracanã. É encher o Maracanã. Encher o Maracanã com duas torcidas que defendam os refugiados, gente que ame a causa e que possa lutar contra o preconceito, a xenofobia. Queremos criar uma torcida pelos refugiados, não só juntar pessoas que deem roupa e comida”.

Aliás, este é o maior objetivo de todos por ali: ter no futebol uma ferramenta para tornar os refugiados protagonistas de suas próprias histórias e não mais reféns delas.

“Refugiados têm de ser jogadores, não meros torcedores passivos. Na vida, você quer ser torcedor ou jogador?” conclui o sobrevivente congolês.

 

Primeira da série de reportagens sobre a Copa América, viabilizadas pela chamada pública em parceria entre Ludopédio e Puntero Izquierdo.