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O futebol como vitrine para as ditaduras do Oriente Médio

Copa Além da Copa

Em março, o presidente do Uruguai, Luis Alberto Lacalle Pou, compareceu à inauguração de um belo complexo esportivo construído pelo Montevideo City Torque, jovem clube da capital do país.

A presença de um chefe de Estado ali não era mero reconhecimento da importância esportiva do projeto. O Torque é um dos clubes do City Football Group, empresa que administra times de futebol ao redor do mundo com grande aporte financeiro de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Hoje, manter relações com um clube de lá é uma questão diplomática.

Mas como e por que cada vez mais o futebol é a diplomacia do Golfo Pérsico? É o que vamos discutir neste texto, que mais uma vez não é complemento de um episódio do podcast Copa Além da Copa. Em breve, voltaremos com os textos associados aos episódios.

Apropriação de reputação

Os Estados modernos do Golfo Pérsico são relativamente novos, em comparação à maior parte dos países. De modo geral, eles não são democracias e sim monarquias absolutistas, com fichas de direitos humanos nada animadoras, alvos de várias denúncias de ONGs como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch.

Mas, embora sejam Estados nacionais pequenos e recentes, países como Catar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein têm ambições globais, turbinadas por reservas de petróleo e gás natural que dão a eles condições econômicas de buscá-las. O Catar, por exemplo, tem o maior PIB per capita do mundo: 129 mil dólares.

Com dinheiro em caixa e uma imagem própria a construir, essas monarquias viram no futebol, esporte mais popular do mundo, uma chance de criar marcas positivas e modernas sobre seus países no cenário internacional. E mais, de fazer isso sem precisar de fato modernizarem seus sistemas de governo e suas sociedades, sem mexer nas suas questões internas.

Para isso, clubes de futebol centenários, que já contam com uma reputação esportiva, são ótimos veículos. O esporte se torna um serviço de relações públicas, que projeta a imagem que esses países querem.

É uma questão de “sportswashing”, termo cunhado pela Anistia Internacional em 2018. Ele descreve a maneira pela qual o prestígio do esporte ajuda a maquiar problemas como abusos de direitos humanos, como se fosse um pouco de água e sabão lavando uma incômoda mancha de sangue.

Dinheiro infiltrado

Com o capitalismo desenfreado no qual o futebol, em especial o europeu, mergulhou dos anos 90 para cá, não há como recusar as grandes somas de dinheiro oferecidas por esses países. E a prática se popularizou no Golfo Pérsico.

Os casos mais conhecidos são o do PSG da França, ligado ao Catar, e o do Manchester City, ligado a Abu Dhabi, um dos emirados que compõem os Emirados Árabes Unidos. Mas olhar para esses dois clubes é pouco. É preciso enxergar que esse dinheiro está infiltrado no futebol europeu por diversas outras frentes.

Na camisa do Real Madrid, por exemplo, está estampado o nome da Emirates, linha aérea de Dubai, outro dos Emirados Árabes. A empresa também dá nome ao estádio do Arsenal. Outra companhia aérea é a Etihad, de Abu Dhabi, uma concorrente da Emirates que tem sua marca na camisa do City e também dá nome ao estádio do clube.

Já o Catar tem sua própria companhia aérea, que já passou pela camisa do Barcelona e hoje se encontra na Roma e até no Boca Juniors, aqui na América do Sul, além de manter parceria com o Bayern de Munique.

E não é só nos clubes. Os países do Golfo Pérsico compraram também influência sobre os órgãos reguladores do esporte, como FIFA e UEFA. O caso da FIFA com os cataris já foi abordado em nosso último texto, sobre a Copa de 2022 e os direitos humanos. Mas vale dizer que Nasser Al-Khelaifi, presidente do PSG, também preside a Associação de Clubes Europeus e é representante do órgão na UEFA.

Aliás, isso gerou até uma situação ridícula, na qual a UEFA investiga o PSG por quebrar as regras de fair play financeiro, ao mesmo tempo em que emprega o presidente do clube.

Al-Khelaifi ainda é presidente da beIN, grupo de mídia que paga a UEFA pelos direitos de transmissão da Champions League – mais uma porta de entrada para os milhões de euros vindos do golfo.

Nasser Al-Khelaifi Neymar Paris Saint-Germain

Nasser Al-Khelaifi durante a apresentação oficial de Neymar no Paris Saint-Germain. Foto: C.Gavelle /PSG/Fotos Públicas

A Champions League como prova de sucesso

O modelo de negócio das ditaduras pérsicas tem tido grande sucesso. O confronto nas semifinais da Champions League entre Paris Saint-Germain e Manchester City demonstra o auge do poder de bilionários que transformaram clubes até então sem grande tradição internacional em potências do futebol e, sobretudo, grandes vitrines para seus países.

Vale mencionar que do outro lado da chave está o Chelsea de Roman Abramovich, bilionário russo que também tem um currículo cheio de negócios escusos, primeiro grande caso de sucesso no futebol europeu recente de injeção de dinheiro de fonte duvidosa que altera o patamar de um clube. Mas isso é um assunto para outro dia.

Para cada caso de sucesso, porém, há relatos de desastre. Sheikh Saeed, príncipe de Abu Dhabi e primo do dono do Manchester City, chegou a alinhar tudo para comprar o tradicional Charlton Athletic, então na Championship, no início de 2020. A EFL, responsável pelos clubes da divisão, bloqueou o negócio ao ver vários indícios de irregularidades.

O Charlton sofreu um embargo de transferências enquanto a situação não se resolvia e acabou rebaixado para a League One. A passagem relâmpago do Oriente Médio pelo clube não deixou absolutamente nenhuma saudade.

Newcastle: Nas garras da ditadura saudita

Citamos várias ditaduras do Oriente Médio no texto até agora, mas falta a principal: a Arábia Saudita.

Com atraso, a monarquia saudita decidiu entrar no jogo: em abril de 2020, o príncipe Mohammad bin Salman fez uma oferta de 381 milhões de dólares para comprar o Newcastle, tradicional clube ligado à classe operária.

O histórico de Mohammad bin Salman e da coroa saudita é escabroso. Além de ser um dos piores lugares do mundo para mulheres (que recém ganharam direitos básicos como dirigir e ir ao cinema), há casos recentes que não parecem caber no mundo de 2021, como o esquartejamento de um jornalista.

A ideia da compra do Newcastle por uma fonte inesgotável de dinheiro, porém, agradou a uma parte da torcida. Cansados da administração de Mike Ashley, fãs do clube declararam apoio à transferência.

Uma pesquisa do Independent ainda em 2020 ouviu 3 mil torcedores do Newcastle e apurou que 97% são a favor da aquisição do clube por Bin Salman.

Tudo se encaminhava para uma solução positiva para Bin Salman até que a justiça inglesa bloqueou a transferência. Se você pensa que o motivo foi relacionado com as violações de direitos humanos da ditadura saudita, está… errado. Na verdade, o problema tem a ver com a empresa usada pelo príncipe para a aquisição ter ligações com um site de apostas ilegal.

De acordo com recentes notícias veiculadas pela imprensa britânica, Bin Salman tem pressionado Boris Johnson, primeiro-ministro britânico, para a conclusão do negócio. Inclusive, um dos sócios do príncipe saudita na aquisição é Jamie Reuben, um dos maiores doadores do Partido Conservador, o mesmo do primeiro-ministro.

Europa Superliga

Premier League: Um torneio de ditaduras

A polêmica em torno da criação da Superliga, um torneio que reuniria apenas os “grandes” europeus em formato similar ao das ligas norte-americanas (sem rebaixamento, com participantes fixos), foi enorme e fez com que houvesse grande discussão sobre os rumos que o futebol toma. Torcedores de clubes como Liverpool e Chelsea se mostraram indignados com os apoios das respectivas diretorias à ideia e comemoraram quando a ideia implodiu.

Porém, é notável a ingenuidade de achar que apenas a Superliga é um torneio comandado pelo dinheiro. Cada vez mais, nota-se a transformação da Premier League inglesa em uma competição entre ditaduras e bilionários de reputação duvidosa.

Entre donos como os de Manchester City, Chelsea, Sheffield United e futuramente Newcastle e patrocinadores como os do Arsenal, clubes vendem sua história fora de campo por um futuro promissor dentro. Se o que existe é apenas a vontade de vencer, o futebol perde a sua essência mais básica.

O fim da Superliga foi comemorado como uma rara vitória do futebol sobre o dinheiro, mas essa é apenas uma batalha ganha em uma guerra que parece completamente perdida.

Como citar

COPA, Copa Além da. O futebol como vitrine para as ditaduras do Oriente Médio. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 5, 2021.