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O futebol contra a tortura e a ditadura de Pinochet

Revista Líbero

Dois jogadores da Universidad de Chile depositaram, na temporada 2017, um ramo de flores em homenagem às vítimas da ditadura. Esse gesto, ainda hoje, é visto como excepcional no mundo do esporte.

 

Que o esporte, e mais especificamente o futebol, não pode escapar da política é um fato.  Queira ou não, durante a história se viu como, para bem ou para o mal, os eventos esportivos serviram como um reflexo fiel da sociedade. Não precisa ir muito longe, no dia 11 de setembro no Chile é um claro exemplo de que o povo chileno vive desde então.

A ditadura de Pinochet provocou um acontecimento como o boicote da União Soviética, que se recusou a jogar em solo chileno. Tratava-se do jogo de volta da repescagem para o Mundial de 1974, na Alemanha. A URSS não chegou a viajar para a América do Sul, alegando problemas de segurança quando, na verdade, o que estava claro era o conflito da Guerra Fria que marcava todo o contexto da situação. Poucos meses antes, havia sido dado o golpe de Estado (em 11 de setembro de 1973) que havia convertido o Chile em um país inimigo do bloco comunista.

Em 2017, durante a prévia do confronto entre a Universidad de Chile e Deportes O´Higgins houve um feito que surpreendeu grande parte do público presente. Os jogadores Isaac Díaz e David Pizarro chegaram perto do memorial dentro do recinto de Ñuñoa, em memória aos falecidos e torturados pela ditadura militar nesse lugar. Ambos os jogadores de La U. de Chile levaram flores em memória às vítimas do Golpe de Estado.

“O futebol ainda deve uma reparação às vítimas da ditadura e àqueles que foram obrigados a morar no principal reduto esportivo do país, há 44 anos.”

Confessou, então, o jornalista Vladimiro Mimica à Radio Cooperativa de Chile. “São sentimentos muito confusos, porque antes e depois, vivi profundas emoções e alegrias no Estadio Nacional, mas também vivi um dos momentos mais tristes e dolorosos que a história do Chile me permitiu, em nosso estádio nacional”. Afirmou o jornalista quando questionado sobre os atos de repressão vividos no Estadio Nacional. Vladimiro Mimica é jornalista esportivo daqueles anos, que foi preso e detido no estádio por 20 dias em 1973, acusado de ser um simpatizante do “golpeado” governo de Allende.

Eduardo Galeano, um incansável lutador contra a ditadura chilena, resumiu, assim, todos os acontecimentos daquela anos tão obscuros:

“Nestes tempos difíceis, os trabalhadores estão descobrindo os segredos da economia. Estão aprendendo que não é impossível produzir sem patrões, nem estocar sem comerciantes. Mas a multidão operária marcha sem armas, de mãos vazias, por este caminho de sua liberdade. Do horizonte se vê os navios de guerra dos Estados Unidos que se exibem na costa chilena. E o golpe, tão anunciado, ocorre.”

Eduardo Galeano sobre o golpe de Estado no Chile, em 1973.

 

Tradução: Victor de Leonardo Figols