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O ‘futebol de prosa’ e a vitória sobre a poesia dos pés

Gabriel Canuto Nogueira da Gama

Na noite do dia 27 de abril de 2016, às margens do Rio Manzanares, na cidade de Madri, os 55 mil torcedores colchoneros e bávaros presentes no estádio Vicente Calderón viram 11 jogadores escreverem na história mais um capítulo triunfante do futebol de prosa ante o estilo de jogo poético. Como aconteceu há duas semanas, ao eliminar o poderoso time do Barcelona, o Atlético de Madrid, comandado pelo argentino Diego Simeone, novamente surpreendeu na Liga dos Campeões e abriu vantagem na luta por uma vaga à final, ao vencer o Bayern de Munique, de Josep Guardiola, por 1 a 0.

Se diante dos catalães, na fase anterior do torneio continental, o Atleti garantiu a classificação praticando a sua peculiar estratégia de jogo predominantemente pragmática, estrutural, rígida e obediente em termos táticos, o que se viu na última quarta-feira foi um tanto quanto paradoxal. Foi a vitória do futebol prosaico sobre o poético, não comumente pela prosa, mas agora pela própria poesia. O único gol da partida saiu de um lance plástico do volante “prosador realista”, Saul, ao driblar quatro marcadores e chutar colocado no canto direito da meta defendida pelo goleiro alemão Neuer – este, aliás, considerado o atual melhor goleiro do mundo pela FIFA. Aquele famoso provérbio popular – “o feitiço virou contra o feiticeiro” – recaiu perfeitamente para a ocasião.

Você deve estar achando estranho ou, no mínimo, inusitado a utilização de determinadas expressões nos dois parágrafos acima, tais como “futebol de prosa”, “futebol de poesia”, “prosador realista”, para diferenciar dois estilos antagônicos de jogar futebol. Entretanto, tal distinção terminológica é esclarecedora para entendermos um importante fenômeno que vem acontecendo nas últimas temporadas, principalmente, nos gramados europeus.

Em 1971, o cineasta, poeta e escritor italiano, Pier Paolo Pasolini, escreveu um artigo intitulado, “O gol fatal”, para o jornal de seu país, II Giorno. Fascinado pela cultura popular, como terreno de luta política, e pelos espaços que transgrediam os códigos de uma nova Itália reconstruída no pós-guerra sobre o paradigma do capitalismo, Pasolini via o futebol como um desses elementos capazes de reagir à lógica instrumental do sistema imperante. Em meio a um tempo trágico, o esporte, para o cineasta, era o lugar do escape, da possibilidade catártica, e, portanto, da subversão da linguagem. Não obstante, seu fascínio pela bola vinha desde os tempos de infância, nos jogos de rua com os amigos, e de juventude, quando chegou até a defender as cores do time de Casarsa, cidade-natal de sua mãe.

Neste artigo, Pasolini propõe, sem pretensões teóricas, como um “trato lúdico”, um modelo semiológico do futebol, inspirado na linguística de Ferdinand de Saussure. O pensador italiano vai estabelecer duas categorias – o “futebol de prosa” e o “futebol de poesia” – com o intuito de distinguir os estilos de jogo praticados pelos europeus e latino-americanos, respectivamente. A criação de tal distinção estética foi em referência ao que aconteceu no ano anterior quando a Seleção Brasileira, com seu modo artístico e vistoso de jogar bola, havia sido tricampeã mundial contra a Squadra Azzurra de seu país.

Pasolini, assim como o linguista suíço, parte da premissa de que a Semiologia é uma teoria geral de sistemas de signos, no qual recebe da Linguística as estruturas para a sua elaboração. A partir disso, o cineasta vai enxergar o futebol como um sistema de signos que é passível de ser modelado dentro de uma teoria semiológica. Portanto, ele passa a ver o futebol como uma linguagem de signos não-verbais que possui características semelhantes ao sistema de linguagem verbal da escrita-falada e é composta pela relação intrínseca entre os “cifradores” (os jogadores) e os “decifradores” (os torcedores).

“Outro sistema de signo não-verbal é o da pintura; ou o do cinema; ou o da moda (objeto de estudo de um mestre nesse campo, Roland Barthes) etc. O jogo de futebol também é um sistema de signos, ou seja, uma língua, ainda que não-verbal (…) Ele tem todas as características fundamentais da linguagem por excelência, aquela que imediatamente tomamos como termo de comparação, isto é, a linguagem escrita-falada” [1].

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Guardiola saiu derrotado pelo Atlético de Madrid, de Simeone. Foto: Ryu Voelkel.

Mas, como se daria este código linguístico do futebol? É aí que o artigo de Pasolini se torna fascinante e, por conseguinte, vai levar às distintas formas de fazer sintaxe com a bola. O escritor italiano vai dizer que as “palavras” do futebol vão se formar da mesma maneira que as palavras da linguagem escrita-falada. Se na segunda, a articulação acontece por meio de infinitas combinações entre os fonemas (as 21 letras do alfabeto italiano), o mesmo vai se manifestar na linguagem não-verbal futebolística. Segundo ele, a unidade mínima do futebol seria, neste caso, o “podema”, isto é, “um homem que usa os pés para chutar a bola” [2]. Os 22 jogadores em campo seriam os podemas, que, juntos, formariam as palavras futebolísticas por meio de dribles e jogadas individuais, e, a partir da combinação destas, surgiria o discurso futebolístico, ou seja, o conjunto de todas as jogadas que representaria a sintaxe (a partida de futebol).

Pasolini, portanto, concluirá que o futebol é regulado por um código instrumental que só é reconhecível por sujeitos que se familiarizam pela língua ali inscrita, neste caso, pelos jogadores e torcedores. É como o filósofo da linguagem, Mikhail Bakhtin, postulou em seu texto, “Os gêneros do discurso”, contido no livro “Estética da criação verbal”: o gênero discursivo é uma forma heterogênea, relativamente estável e que decorre das interações entre interlocutores dentro de esferas sociais da atividade humana. Portanto, utilizando-se de termos saussurianos, tanto os “emissores” – os jogadores – e os “receptores” – os torcedores – se interagem dialogicamente por meio de um processo de interação verbal responsivo. Ou seja, só quem estiver dentro deste “jogo linguístico-futebolístico” e familiarizado com os jargões especializados do código será capaz de manipular a sublíngua do próprio futebol.

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Pasolini. Foto: Divulgação / Cosac Naify.

A partir desta concepção do esporte como um fenômeno cultural regido por um código instrumental, Pasolini vai dividir a linguagem futebolística em duas: o poético e o prosaico. Ele vai entender o futebol de poesia como um subcódigo que se diferencia da linguagem cotidiana, ao transgredir o sentido formal das palavras. Seria, então, aquele estilo de jogo ofensivo, ousado, vistoso, de refinamento técnico e talento com muitos dribles e gols que subvertem as normas. Ou seja, o que foi praticado por Pelé e companhia na Copa do Mundo de 1970 e que vem sendo feito, atualmente, por equipes como o Barcelona e o Bayern de Munique. Já o futebol prosaico seria o modo de jogo do Atlético de Madrid, de uma obediência tática rígida, mais formal, defensivo, pragmático e sem brilhantismos, como também era característico daquele time italiano que perdeu a final para os brasileiros.

Para Pasolini, quem praticava um futebol menos vistoso, criativo, hábil, era considerado um jogador prosaico, enquanto aquele que possuía um talento inquestionável, um dom imanente para jogar bola, era um jogador que fazia poesia com os pés. Ou seja, este atleta talentoso era capaz de transgredir ao discurso linguístico do cotidiano.

Partindo dessa reflexão do artigo de Pasolini, no qual foi muito bem aprofundado pelo professor da Faculdade de Letras da UFMG e também colunista do Ludopédio, Élcio Loureiro Cornelsen, em seu artigo intitulado “A ‘linguagem do futebol’ segundo Pasolini: ‘futebol de prosa’ e ‘futebol de poesia’”, é possível fazer uma relação com o futebol poético praticado pelo Barcelona e Bayern de Munique nos últimos anos, liderados por Guardiola/Luis Enrique, com o estilo prosaico, pragmático e coletivo de Simeone no Atlético de Madrid e Ranieri no Leicester City.

O mais interessante dessa analogia é que, diferentemente do domínio poético ante o prosaico nas décadas de 1960 e 1970 pelo Brasil, o que vemos hoje, a exemplo do jogo de quarta-feira, é o fenômeno do “proseamento” do futebol. Na atual temporada, o esquema de jogo prosaico inverteu a situação e tem predominado como vitorioso. Além do exemplo de Simeone e seus comandados, está a campanha absolutamente surpreendente e histórica do iminente novo campeão inglês, Leicester City, sob a batuta do treinador italiano Claudio Ranieri. O outrora modesto time das Raposas chegou a ser o último colocado da Premier League há um ano e quase foi rebaixado na edição anterior do campeonato. Com centenas de milhões de euros a menos nos cofres comparado com os grandes ingleses, como os clubes de Manchester, Arsenal e Chelsea, e praticando um futebol simples e compacto, o Leicester está a uma rodada do título inédito. Será, sem dúvidas, um dos maiores feitos da história deste esporte.

O tradicional 4-4-2 de Simeone contra o 4-1-4-1 de Guardiola. Na segunda etapa, o espanhol mudou para um 4-2-4, mas nem assim conseguiu furar a defesa colchonera (Crédito pessoal)

O tradicional 4-4-2 de Simeone contra o 4-1-4-1 de Guardiola. Na segunda etapa, o espanhol mudou para um 4-2-4, mas nem assim conseguiu furar a defesa colchonera (Crédito pessoal)

Segundo Pasolini, o esquema de jogo prosaico é geométrico, conciso e concatenado, já o modelo poético é flexível e concêntrico. Podemos ver a distinção ao comparar as filosofias de jogo de Guardiola/Luis Enrique e Simeone/Ranieri. A primeira dupla mira o futebol arte, o predomínio da posse de bola e de passes precisos que quebram o código. Jogadores como Messi, Neymar e Iniesta, pelo lado do Barcelona, e Robben, Douglas Costa e Ribéry, no time bávaro, poetizam o futebol por meio de lances individuais com dribles plásticos ou passes desconcertantes capazes de romperem com a ordem da linguagem cotidiana. Guardiola, por exemplo, flexibiliza a todo o tempo a formação tática e troca constantemente de titulares. Muitas vezes, inspirado no Carrossel Holandês da década de 1970, prefere nem jogar com zagueiros de ofício, além de que seus atletas terem características polivalentes (não guardam posições fixas).

Já nos casos de Atlético de Madrid e Leicester City, o futebol se baseia no contra-ataque, na retranca e nas triangulações. São dois esquemas clássicos de 4-4-2 com duas linhas de marcação intensas. O objetivo não é ter o domínio de jogo e estar com a bola o tempo todo, mas, sim, se ater a uma marcação forte e compacta para sair rapidamente pelas laterais e buscar o adversário desprevenido. Não obstante, jogadores como Albrighton e Mahrez, do Leicester, e Koke e Saul, do Atlético de Madrid, são tão fundamentais no esquema tático destes dois times.

O 4-4-2 estruturado do Leicester, por Ranieri, mas mortal. Perdeu apenas três jogos de 35 disputados até agora. Podem ser os campeões neste final de semana com três rodadas de antecedência (Crédito pessoal)

O 4-4-2 estruturado do Leicester, por Ranieri, mas mortal. Perdeu apenas três jogos de 35 disputados até agora. Podem ser os campeões neste final de semana com três rodadas de antecedência (Crédito pessoal)

Pasolini dizia que o gol é o momento poético mais sublime do futebol, porque é marcante, irreversível e subverte a linguagem. “Cada gol é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada gol é fulguração, espanto, irreversibilidade” [3]. Para ele, o futebol que exprimia mais gols era o mais poético e o artilheiro era sempre o “poeta do ano”. Certamente, se o italiano estivesse vivo nos dias atuais, reconheceria craques como Suárez e Lewandowski, centroavantes do Barcelona e do Bayern, respectivamente, como os tais fazedores de poesia com os pés.

É importante destacar que o cineasta deixa claro que a distinção feita é puramente técnica e não de valor. Ou seja, não significa que uma filosofia de jogo seja melhor do que a outra. São apenas formas diferentes de se familiarizar com o gênero – ou pela via da afirmação ou pela via da transgressão. Entretanto, Élcio atenta em seu artigo que, ainda assim, há uma certa preferência de Pasolini pelo futebol poético.

“(…) ao tomar o gol como momento máximo de poesia no futebol, Pasolini centra toda a sua atenção no meio-campo e no ataque. Isto reflete no modo como ele postula sua tipologia de gênero, exemplificada sempre por jogadores meio-campistas ou atacantes, de modo que o setor defensivo acaba sendo relegado a terceiro plano. Retranca, portanto, não teria nada a ver com poesia” [4].

O futebol, pois, além de ser um espaço catártico, fascinante como entretenimento e representante do caráter identitário de um povo, é surpreendente pela sua capacidade de chocar. O que vimos na quarta-feira, por exemplo, foi a vitória do futebol de prosa sobre o poético ironicamente com um golaço subversivo de um jogador prosaico. Uma pena que, em um cenário contemporâneo cada vez mais dominado pela globalização e pelo espetáculo midiático, este apaixonante esporte tem se tornado refém da máquina capitalista.

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Koke em ação pelo Atlético de Madrid. Foto: Carlos Delgado.

Diante da persistente hegemonia do discurso produtivista e científico no mundo, o futebol virou mais um retrato de um espaço constantemente reprimido pelo sistema rígido. Um espaço cada vez mais raro para transgressões e subversões. Por isso, vivemos este fenômeno de “proseamento” do futebol, no qual os brasileiros são as maiores vítimas. O jogo pragmático dos atletas europeus suprimiu a ousadia nata com a bola nos pés dos latino-americanos. Desde cedo, vemos os talentos de nosso país sendo exportados para o Velho Continente, como mercadoria, e “domesticados” de acordo com as filosofias de jogo praticadas no exterior.

“Na era do futebol como espetáculo globalizado, midiático e transformado em mercadoria, parece não haver mais espaço para o ‘futebol de poesia’ categorizado por Pasolini. Talvez ainda o encontremos no continente africano que, por questões econômicas, ainda encerra em si um ‘romantismo’ que lembra aquele dos tempos em que o futebol, quando muito, tinha por ‘patrocinador’ o torcedor que ia ao estádio. Os ‘poetas realistas’ ainda podem ser encontrados nos gramados do mundo inteiro, mas agora não apenas jogam, como também se tornaram outdoors ambulantes. Um símbolo que exprime bem a figura caricata e até ridícula em que os jogadores se transformaram nos últimos tempos de marketing pessoal são as preocupações não com a parte técnica, mas sim de imagem, que vai desde o tipo de penteado até a cor da chuteira (…)” [5].

Se não há mais Garrinchas e Pelés, ao menos ver novos estilos de jogo poéticos surgirem como foi o vitorioso tik-taka espanhol de Aragonés-Guardiola-Luis Enrique, em meio à esta inevitável instrumentalização do futebol, me faz seguir acreditando na poesia futebolística e na mágica do homem com a bola nos pés.

Referências:

BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

CORNELSEN, Élcio Loureiro. A “linguagem do futebol” segundo Pasolini: “futebol de prosa” e “futebol de poesia”. Caligrama: Revista de Estudos Românicos, [S.l.], v. 11, p. 175-203, out. 2011. ISSN 2238-3824. Disponível em: <http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/caligrama/article/view/202>. Acesso em: 29 abr. 2016. doi:http://dx.doi.org/10.17851/2238-3824.11.0.175-203.

PASOLINI, Pier Paolo. “O gol fatal”. Folha de São Paulo, Caderno “Mais!”, de 6 de março de 2005, p-4-5, [trad. de Maurício Santana Dias; título original: “II cálcio ‘è’ um linguaggio con i suoi poeti e prosatori”]

[1] Pasolini, Pier Paolo. O gol fatal, p. 2-3, 2005.

[2] Pasolini, Pier Paolo. O gol fatal, p. 4, 2005.

[3] Pasolini, Pier Paolo. O gol fatal, p. 5, 2005.

[4] Cornelsen, Élcio Loureiro. A “linguagem do futebol” segundo Pasolini: “futebol de prosa” e “futebol de poesia”, p. 193.

[5] Cornelsen, Élcio Loureiro. A “linguagem do futebol” segundo Pasolini: “futebol de prosa” e “futebol de poesia”, p. 194.