02.10

O futebol e a sentença

Marco Antunes de Lima

O sociólogo Roberto DaMatta diz em famoso estudo sobre o futebol brasileiro que o esporte faz parte da sociedade tão quanto a sociedade faz parte do esporte. No caso da sociedade brasileira, o futebol, esporte mais praticado e adorado pelos cidadão brasileiros, e essa mesma sociedade são, segundo o sociólogo são duas faces da mesma moeda.

O presente texto pretende apresentar alguns pontos de discussão a partir de um fato ocorrido no futebol brasileiro no último mês. Pretendemos através de uma análise documental tentar questionar algumas coisas que concernem o futebol brasileiro e conseqüentemente a nossa sociedade.

O mais interessante é que o fato não ocorreu no campo de jogo em si; não foi nenhuma partida disputada pela seleção nacional ou por algum clube. O fato ocorreu, aliás, totalmente fora do mundo do futebol, ocorreu sim no mundo da justiça brasileira. O que pretendemos discutir aqui nesse pequeno artigo é a sentença dada no último dia 5 de agosto por um juiz da nona vara criminal de São Paulo sobre o pedido para abertura de processo por parte do atleta Richarlyson contra o dirigente José Cyrillo Jr., que supostamente havia chamado o atleta de homossexual em rede nacional de televisão. A sentença dada pelo juiz de direito foi de não aceitar a abertura de processo por motivos vários e que aqui pretendemos analisar e questionar essas razões e as suas relações com o futebol e a sociedade brasileira.

A sentença inicia-se da seguinte forma: o juiz alega que o querelado, no caso Cyrillo não chamou em nenhum momento o querelante (Richarlyson) de homossexual, e alega que se assim tivesse feito não deveria ser através da justiça e sim através de um “tete à tete” que a situação deveria ser resolvida, pois os dois são “boleiros” (o dirigente também faz parte do mundo dos boleiros) e, segundo o juiz, que foi boleiro sabe que as coisas se resolvem nada hora.

Quem já foi a uma partida de futebol, quem já jogou uma partida de futebol, sabe que muitas vezes ouvimos nas arquibancas ou no próprio jogo que os problemas devem ser resolvidos ali mesmo. Infelizmente o juiz acha o mesmo afirmando assim que a justiça nada tem a ver com os problemas do futebol, como se o futebol estivesse dissociado dos problemas da sociedade. Logo depois, inclusive, escreve que é um exagero trazer esse assunto à justiça, mas aí entra em certa contradição quando apresenta que é um exagero devido a grandeza do futebol brasileiro e não porque esse tipo de coisa deveria ser resolvido em um “téte à téte”.

Notamos uma grande contradição do magistrado se olharmos a sentença de uma maneira geral. Ele diz que tal assunto, que seria um problema a ser resolvido no mundo do futebol, e não no mundo da justiça, supostamente sério, é insignificante e exagerado. Mas ao mesmo tempo em toda a sua sentença exalta a importância do futebol para a sociedade e nação brasileira. Se olharmos mais a fundo notamos como o futebol é visto na sociedade brasileira de um modo geral, principalmente por boa parte das suas elites intelectuais, como “a coisa mais importante das coisas não sérias”. Mas ao mesmo tempo notamos que há um grande interesse nesse mundo, muitas vezes ocultado em um discurso do algo insignificante. A sentença proferida pelo magistrado aponta certo deslize.

O Juiz de direito entra então na questão do futebol como jogo que necessita virilidade. O magistrado diz que “futebol é jogo viril, varonil, não homossexual”. Muito já se discutiu na literatura sobre a questão do futebol ser um jogo que expressa certa virilidade e até mesmo violência que é contida pela ordem da sociedade através de suas regras. Ao assistir uma partida de futebol em um estádio já nos deparamos com os torcedores fazendo observações pejorativas quanto à virilidade dos jogadores, dos árbitros, da torcida adversária. Tal fato é muito comum no mundo do futebol. Luiz Henrique de Toledo diz que uma das maiores ofensas entre as torcidas é o questionamento da virilidade de seus adversários. O magistrado em questão demonstrou em um documento oficial aquilo que vemos corriqueiramente dentro das canchas, mas que é mascarado por ser praticado dentro do mundo de um jogo. Mas o jogo é um reflexo da sociedade,e na sociedade em que vivemos uma forma de insultar alguém ainda é questionar sua virilidade. Infelizmente vossa excelência apresentou sua sentença como se estivesse sentado na arquibancada de futebol, esquecendo, que esse não é o papel teórico da justiça.

No 9º item de sua explanação o magistrado nos diz que “não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas, forme o seu time e inicie uma federação. Agende jogos com quem prefira pelejar contra si”. Por trás de um discurso de cunho altamente preconceituoso e até mesmo criminoso segundo as leis as quais o juiz deveria segui-las notamos algo sobre o que significa e o que realmente pode se dizer que é a democracia no Brasil. Uma democracia onde existe uma falsa possibilidade de que todos podem, tem os seus direitos, mas que cada um tenha os seus direitos, possa apenas entre os seus iguais , mas que não se juntem com os que não pertençam à mesma opção sexual, classe, credo e opção política. Essas poucas palavras além de opinarem como deve ser a organização do esporte refletem o sistema democrata existente neste país onde, como o próprio magistrado diz ao final de sua explanação “cada um em sua área, cada macaco em seu galho, cada galo em seu terreiro, cada rei em seu baralho”.

Ora, o juiz vai além e aponta que se não houver cuidados logo haverá um suposto sistema de cotas nas equipes para jogadores homossexuais. E ainda mais diz que “não que se diga que essa abertura será de idêntica proporção ao que se deu quando os negros passaram a compor as equipes”. Em nossa opinião a palavra chave deste trecho é abertura. O Juiz ali coloca que supostamente os negros só passaram a integrar às equipes de futebol pois houve uma abertura do grupo dirigente do jogo; esquece que houve uma apropriação do esporte por parte dos negros e que este conquistaram seu espaço através de lutas por oportunidades. A opinião do magistrado reflete muito da visão de nossa sociedade que as oportunidades só aparecem pois um grupo dirigente, mais poderoso abre essa possibilidade.

O que pretendemos com esse artigo e expor algumas questões que podemos encontrar em um documento que está intimamente ligado ao mundo do futebol, apesar de não pertencer a ele. Muitas outras questões podem ser feitas a partir desta sentença. Mas é necessário refletir como o futebol pode ser tratado como um reflexo da sociedade e como a sociedade também pode ser um reflexo do futebol.

Um fac-simile de tal sentença pode ser encontrado no seguinte endereço eletrônico:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/20070803-caso_richarlysson.pdf

 

Como citar

LIMA, Marco Antunes de. O futebol e a sentença. Ludopédio, São Paulo, v. 02, n. 10, 2009.