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O futebol e as cinzas da memória

Thiago José Silva Santana

Inicialmente, é de bom grado informar ao leitor(a) que esse texto foi escrito no início do mês de novembro quando se completou dois meses do incêndio que causou a destruição do Museu Nacional no Rio de Janeiro. Esse fato foi motivador da escrita desse texto, pois penso que todas as pessoas que minimamente se preocupam com a preservação da história do país e com a ciência foram afetadas de alguma forma. No meu entender, é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa, menos desigual economicamente e mais democrática a preservação dos locais que guardam a história nacional por meio de suas diferentes instituições. E o futebol, devido à sua importância na sociedade brasileira, pode contribuir para a valorização dos espaços dedicados à preservação da memória.

As causas do desprestígio da ciência e da memória do país são várias e identifica-las e analisa-las demandaria um estudo aprofundado. No entanto, podemos apontar a falta de recursos e de políticas públicas como algumas das principais causas de muitas instituições dedicadas à ciência e à memória passarem por dificuldades de toda ordem. E, no momento, a perspectiva não é de um futuro melhor para essas instituições.

No início do processo eleitoral o então candidato Jair Messias Bolsonaro, que se elegeu presidente, ao ser indagado sobre o incêndio no Museu Nacional disse em tom de ironia: ‘já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê? O meu nome é Messias, mas eu não tenho como fazer milagre”[1]. Apenas alguém que demonstra tamanho desapreço pelas instituições científicas que preservam a história do país poderia tentar amenizar a memória sobre a ditadura militar no Brasil, como ele o faz[2].

Museu Nacional e o carro do corpo de bombeiros logo após o incêndio. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

Tal declaração sobre o Museu Nacional, que guardava parte significativa da história do Brasil e da humanidade, não teve grande repercussão nem causou o repúdio da maior parcela da população. Mas, e o que esse assunto tem a ver com o futebol?

O futebol é mais um espaço onde a história do país se desenvolve, ele está presente de forma significativa na vida de uma parte numerosa da população. Devido a sua importância enquanto fenômeno cultural ele pode ser um espaço onde a luta pela valorização da memória pode ser implementada e, a partir daí, ter repercussão em várias outras áreas da sociedade.

Infelizmente, essa capacidade ainda não tem sido explorada em toda a sua potencialidade e o esporte ainda é mais um campo onde podemos identificar um desapreço pela memória. Instituições centenárias e com grandes torcidas não se preocupam em preservar a própria história.

O desapreço manifestado ao longo dos anos pelos dirigentes do campo esportivo no que se refere à preservação da memória dos próprios dos clubes ficou evidente quando verificamos quantas associações se preocuparam em construir espaços para tal. Ao fazer uma breve pesquisa na internet encontramos que seis dos vinte clubes que disputam a série A do Campeonato Brasileiro de 2018 possuem um museu ou um lugar dedicado à preservação da memória. Dessas seis equipes, quatro apresentam informações mais detalhadas desses museus ou memoriais no próprio site dos clubes.

O Corinthians parece ser o clube brasileiro que mais se preocupa em preservar e contar a própria história e, além de manter viva a memória do time, também consegue arrecadar dinheiro com ela. O clube possui dois espaços dedicados para isso: o Memorial do Corinthians[3], situado na sede administrativa no Parque São Jorge, e o Museu do Povo[4], que fica na Arena Corinthians. Em ambos são vendidos ingressos a quem se interessar em conhecer a história da agremiação.

Outros clubes também apresentam espaços semelhantes. É o caso do Santos, que tem um site que apresenta o seu Memorial das Conquistas[5], e da dupla do Rio Grande do Sul: Internacional, com o Museu do Inter[6] e Grêmio, com o Museu Hermínio Bittencourt[7]. Estes também apresentam nos próprios sites seus locais dedicados à preservação das memórias dos times.

Outras associações apresentam de forma tímida possuir seus espaços dedicados à memória. No site do São Paulo há menção a seu Memorial de Conquistas ao apresentar o serviço de visita guiada pelo Morumbi[8], o Morumbi Tour, porém, sem maiores detalhes. O site do Flamengo afirma que o museu do clube não está concluído, mas já apresenta exposições para visitação[9]. Embora as informações a respeito do construção do museu no site sejam escassas o clube tem um projeto se encontra na fase de captação de recursos[10].

O Centro Atleticano de Memória é uma associação sem fins lucrativos que busca trabalhar ao lado do Clube Atlético Mineiro para levantar e preservar diversas fontes que contam a história do time. O objetivo do projeto é construir o Museu Atleticano[11]. Já a diretoria do Sport mostrou interesse em construir o museu do clube, que deveria, inicialmente, ser inaugurado em dezembro desse ano[12]. O América Futebol Clube também tem um projeto em curso para construir o seu memorial –museu. O clube teve seu projeto aprovado no Ministério da Cultura para captação de recursos por meio de incentivos fiscais através da Lei Rouanet[13].

Os demais clubes da série A não apresentam iniciativas nesse sentido. O interessante é que muitas vezes os departamentos de marketing dos clubes buscam criar campanhas que apelam para a “tradição” do clube ou outros aspectos ligados à identidade das instituições, mesmo que eles não possuam centros de memória. Mas essa discrepância exige outra discussão que demandaria mais espaço.

No momento, retomamos a ideia inicial de mostrar o futebol como campo onde a memória precisa ser mais valorizada em nosso país. Demonstrar que as iniciativas de preservação da história dos clubes brasileiros são muito recentes e, principalmente, ressaltar que, devido a importância que o futebol tem em nossa sociedade, a ampliação e criação dos museus dos diversos clubes podem contribuir para a valorização das instituições de memória de forma mais geral. O futebol e o torcer são práticas coletivas que mantém relações estreitas com os laços de identidade e afetividade construídas pelas pessoas ao longo de suas experiências de vida familiares ou individuais. O que, por sua vez, relaciona-se com a história e a memória. Por isso, o interesse pela história do time do coração pode ser um pontapé inicial para a valorização das diversas outras instituições de história e memória e a construção de uma sociedade que aprende com seu passado. E o futebol pode ser um espaço para a valorização da memória, pois como bem destaca a frase no Estádio Nacional do Chile “un pueblo sin memória, es um pueblo sin futuro”.


[1] https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/09/04/ja-esta-feito-ja-pegou-fogo-quer-que-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-incendio-no-museu-nacional.ghtml

[2] https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,nao-houve-golpe-militar-em-64-afirma-bolsonaro-no-roda-viva,70002423000

[3] https://www.corinthians.com.br/clube/memorial

[4] http://arenacorinthians.com.br/museu-do-povo/

[5] http://www.memorialdasconquistas.com.br/

[6] http://www.internacional.com.br/conteudo?modulo=24&setor=170&secao=155

[7] https://gremio.net/conteudo/index/46

[8] http://www.saopaulofc.net/estrutura/morumbi/morumbi-tour

[9] http://www.flamengo.com.br/noticias/flamengo/museu-flamengo-convida-torcedores-para-exposicao

[10] https://www.youtube.com/watch?v=VmGBbcjTm6E&feature=youtu.be

[11] http://www.galodigital.com.br/enciclopedia/Categoria:Centro_Atleticano_de_Mem%C3%B3ria

[12] https://www.pe.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/sport/2017/01/15/noticia_sport,46029/sport-planeja-criacao-de-museu-interativo-na-ilha-do-retiro.shtml

[13] https://americamineiro.com.br/club/news/2018/10/22/america-lanca-projeto-de-museu-do-clube-que-conta-com-beneficios-da-lei-rouanet/