78.3

O futebol e as falácias argumentativas – parte 2: uma lista

Ewerton Martins Ribeiro

No mês passado (como você pode ler aqui), apresentei a introdução a este texto, que se propõe a ilustrar o funcionamento das falácias argumentativas — mas usando, para isso, o futebol como mote. Abaixo, sem mais demora, começo a apresentar a lista de falácias que afirmei ter colecionado, explicando-as.

Rapidamente, uma definição do que sejam falácias argumentativas: elas são recursos retóricos hipócritas que – hoje, talvez mais do que nunca – usamos com o intuito de vencer debates, quando na verdade deveríamos estar buscando nos aprimorar por meio deles e do contato que eles nos propiciam com a alteridade.

Bem, todas as falácias aqui reunidas são ilustradas por meio de diálogos entre torcedores do Mambueira, do Juvenília, do Coxeia e do Braguilha, quatro dos tantos times que participam do mais interessante campeonato jamais disputado em toda a história (ou seja, o meu campeonato imaginado). Às falácias, portanto.

  1. O SILOGISMO INTERESSADO

 Nesta falácia argumentativa, a estratégia é escolher arbitrariamente duas premissas, supor que existe uma relação entre elas, tomar essa relação como absoluta e, a partir daí, chegar a uma inferência que “prova” o próprio ponto.

 — Meu Mambueira é de longe o melhor time da nossa liga.

— Qual o quê! Se o meu Juvenília é o líder do campeonato!

— E isso importa? Importa é que sapecamos quatro a zero no Braguilha. Qua-tro. E o Braguilha, vamos lá, o Braguilha meteu o quê? O Braguilha meteu nada menos que cinco no seu Juvenília. Cin-co! Quem é que perde de cinco para o Braguilha?! Quem, meu Deus?! Então assim: é óbvio que o Mambueira é mais time que o Juvenília…

Naturalmente, o segredo para o funcionamento dessa falácia é a escolha que se faz das premissas que se vai usar. Por exemplo: considere que o Mambueira tenha tomado um vareio do Coxeia nessa mesma temporada (o mesmo Coxeia que, uma semana antes, perdeu de três para o Juve). Nesse sentido, o segredo para o hipócrita torcedor do Mambueira vencer o debate em sua falaciosa postura intelectual é, absolutamente, nunca tocar no nome do Coxeia na hora de fazer os seus estratégicos silogismos.

  1. AD HOMINEM

Esta modalidade argumentativa está inclusive dicionarizada. O Houaiss a explica assim: “Argumento em que se usam as próprias palavras do adversário para contestá-lo”[1]. Contudo, no uso do AD HOMINEM como falácia, é feito um deslocamento: em vez de se atacar o argumento do adversário, ataca-se o próprio adversário, de forma a gerar dúvida sobre o seu caráter e desconfiança sobre o seu lugar de fala. O objetivo é claro: colocar em dúvida, por consequência, os seus argumentos, mas sem que para isso seja necessário combater tais argumentos diretamente, ou mesmo apresentar um argumento próprio convincente.

MUNICH, GERMANY - AUGUST 05: Match ball during the Audi Cup match between Tottenham Hotspur and AC Milan at Allianz Arena on August 5, 2015 in Munich, Germany. (Photo by Lennart Preiss/Getty Images for Audi)

Jogadores disputam a bola. Foto: Lennart Preiss/Getty Images for Audi.

 É o que se pode ver no que diz o torcedor do meu querido Mambueira, em resposta ao torcedor do líder Juvenília:

 — E quem é você para me dizer qual é e qual não é o melhor time do campeonato? Se você nem gosta de ir ao campo! Ou então me diz: a quantos jogos do Juvenília você foi neste ano? Três? Quatro? Afe! Se eu fui a todos os jogos do meu Mambueira! To-dos. Ah, cala a boca. Você nem gosta de futebol.

Na estratégia desta falácia argumentativa, trabalha-se na expectativa de, desmoralizando o lugar de fala do adversário, desmobilizar, por consequência, o seu argumento.

— Porque vocês, torcedores do Juvenília, são absolutamente ridículos. Se perigar, é capaz de eu ter assistido a mais jogos do seu time que você. E ainda querem opinar sobre qual elenco é melhor…

  1. A FUTUROLOGIA

Aqui, a falácia argumentativa se dá em dois lances. No primeiro, refuta-se a realidade: o macete é sugerir o presente como um acaso excêntrico, um ponto fora da curva, uma discrepância em relação ao bom senso e a uma arrojada lógica (ai…) atemporal. E aí vem o segundo lance, uma jogada de mestre: colocado o presente em seu lugar de desimportância, faz-se o prognóstico de como, no longo prazo, a “verdadeira realidade” se revelará.

 — Olha, não tem discussão: meu Mambueira é claramente o melhor time da nossa liga.

— Cara, eu nem sei mais como te dizer. Sério mesmo, velho. Se o meu Juve é o líder; se temos mais pontos; se ganhamos mais jogos; se nosso saldo é melhor! Pois como, então?! Não sei mais o que te dizer, cara.

— Cara, eu não vou discutir com você. Você precisa estudar mais futebol. Vai estudar, cara. Vai estudar. Ou melhor, deixa o campeonato acabar e a gente conversa. Porque é o seguinte: esse seu Juve? Ridículo. É só isso, entende? É ridículo. Simples assim. Olha… Cê já ouviu a história do elefante em cima da árvore? Então: essa é a história do seu Juve. Na história, a gente olha o elefante em cima da árvore e não sabe dizer como ele foi parar lá, não é mesmo? Então. Esse o seu Juvenília. Ninguém sabe como ele foi parar lá, mas de uma coisa todo mundo sabe: não demora para ele cair. Porque é um elefante em cima de uma árvore, né. Então assim. Não demora. É só esperar… Olha, quando chegar o fim do campeonato a gente conversa. Afe, ridículo.

O curioso desta falácia é que, por mais ridícula que seja a construção do argumento, o sujeito o profere e segue realmente convencido de que provou um ponto. No que chega o final da temporada e o Juvenília acaba levando o título, como seria de se esperar, o mambueirense ainda assim resiste inabalável, e não tarda mesmo em dizer:

 — Gente, mas vocês são sortudos demais! Porque… você viu os resultados? Só vitória apertada!, placar de meio a zero… Ai, Ai. Time horrível esse seu, viu. Olha, pode cravar: na temporada que vem esse seu Juvenília cai. Não tem outra: cai. Cai mas que cai e é sem jeito. Ai, ai. Time ridículo.

***

A lista de falácias continua no mês que vem.

[1] HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 3.0. Objetiva, 2009.