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O futebol e as falácias argumentativas – parte 3: segue o jogo

Ewerton Martins Ribeiro

No fim do ano passado, comecei a publicar aqui no Ludopédio textos em que apresento uma série de falácias argumentativas, valendo-me para isso exemplos tirados do universo do futebol. Este é o terceiro texto da série, que retomo neste ano — ainda não sei quantos serão, já que as falácias abundam (assim como aqueles que a praticam, muitos sem perceber).

Aconselho ler a definição que estabeleço para falácia argumentativa antes de vir a este terceiro texto. Para lê-la, vá ao primeiro, publicado em outubro de 2015. Leia também as três primeiras falácias que listei no segundo texto, de novembro, quais denominei Silogismo interessado, Ad hominem e Futurologia.

Aqui, nesta terceira publicação, sigo estabelecendo definições para outras estratégias falaciosas de argumentação muito utilizadas por quem quer a qualquer custo provar que seu time é o melhor. Para ilustrá-las, valho-me de diálogos travados entre torcedores do Mambueira, do Juvenília, do Coxeia e do Braguilha, os quatro principais times do meu campeonato imaginado.

  1. A FALÁCIA DA FALÁCIA

Nesta falácia argumentativa, a sacada é pegar algum equívoco que o interlocutor tenha cometido na defesa do seu argumento para, a partir dele, considerar que todos os demais aspectos da sua colocação estão necessariamente equivocados. Como exemplo, este momento em que o torcedor do Juvenília explica uma obviedade: o fato de que seu time é o melhor do campeonato.

Mas é claro que o meu Juvenília é o melhor time do campeonato! Se temos mais pontos, se ganhamos mais jogos, se o nosso saldo é melhor…

— Rá! Olha aí como você não saca mesmo nada sobre futebol! O seu Juvenília tem uma vitória a menos que o Mambueira, seu burro! Ridículo! Ah! Mas o seu Juvenília é uma água, mesmo. Viva o Manta, o melhor time da temporada!

O fato de alguém ter se equivocado em um aspecto da defesa do seu argumento não significa que todo o seu argumento esteja, necessariamente, errado. Em se tratando de futebol, no entanto, na maioria das vezes os debates são vencidos não por quem apresenta, no geral, os melhores argumentos, mas sim pelos melhores debatedores. Ou seja, são vencidos por quem, entre outras estratégias falaciosas, consegue pescar mais equívocos nos argumentos dos outros para, a partir deles, “virar o jogo” da discussão. Vence quem é mais safo, não quem tem o conjunto de argumentos mais lógico e consistente.

Nesse sentido, o segredo para se vencer um daqueles clássicos debates sobre futebol dos churrascos de domingo é estar de posse de dados: tudo quanto é dado possível sobre o seu time e os times adversários. A posição que era ocupada por aquele jogador de segunda linha há muito já aposentado; os times do Peru pelos quais aquele meia passou antes de vir para o Brasil; a média de gols do atual zagueiro na temporada de três anos atrás — no México; a especificidade da lesão daquele atacante que, mesmo quando não lesionado, nunca teve competência para ser titular. E mais: escalações e placares de partidas imemoriais; os períodos em que foram feitas substituições “que mudaram o jogo”; o elenco das temporadas anteriores — inclusive os bancos. De posse desse tipo de dado, a vitória argumentativa está garantida. É só esperar o primeiro tropeção do adversário, em que ele confundir uma informação, e então roubar a bola e meter direto pra gol, sem chance para a defesa.

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JUNE 5: General view of the Sony Dream Goal 2014 event at Museu da Republica on June 5, in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Francisco de Souza/Getty Images)

Foto: Francisco de Souza / Getty Images.

  1. ALEGAÇÃO ESPECIAL

Esta é uma falácia muito usada naqueles momentos em que a sua afirmação é exposta como falsa. Em vez de aceitar que está errado e aprender com o novo entendimento, o argumentador muda as regras da discussão de forma a poder continuar no jogo. Como faz recorrentemente o torcedor do Mambueira no diálogo abaixo.

— O Mambueira é o melhor time porque tem a defesa menos vazada.

— A defesa menos vazada do campeonato é a do Barguilha.

— Que seja, não importa. Temos o melhor ataque. Como não ser o melhor time tendo o melhor ataque?

— Bem, tecnicamente, o Coxeia tem o melhor ataque do campeonato, não vocês. Eles marcaram mais. Apenas sofreram muitos gols.

— E que importa o fraquíssimo Coxeia ter o melhor ataque se eles têm aquele meio de campo horrível! Você já viu o meio de campo do Coxeia? É uma avenida! Ora, meio de campo é tudo. E meio de campo nós temos. Você já viu a nossa média de posse de bola? É a melhor média do campeonato. Time bom é time que fica com a bola no pé.

***

O cenário que tenho delineado nestes textos diz do fato de que, infelizmente, ainda seguimos debatendo para ganhar, e não para aprender — colocação da qual se pode depreender os sentidos da relação entre esse pernicioso engendramento das coisas e a radicalização do buraco comunicacional em que nos metemos em aspectos como política e religião nestas primeiras décadas do século 21. Digo isso porque, vale lembrar, estes textos são ilustrativos, não denotativos.

Se aqui falo de futebol, faço-o apenas em caráter exemplar. Afinal, no futebol talvez não seja exatamente um problema essa tendência de se usar recursos hipócritas para “derrotar” argumentativamente o adversário. No contexto do esporte, o debate também é lúdico, diria hipster, para usar um conceito plenamente contemporâneo, e ora se dá como parte mesma do jogo.

No futebol, critica-se o outro como se o que se diz fosse atravessado por ironia, uma ideia de “não é sério, tô zoando”, aspecto do hipsterismo contemporâneo que Christy Wampole tão bem delineou no artigo Como viver sem ironia, de 2012, publicado no Brasil, traduzido, pela revista Serrote.

É como se, no contexto lúdico do esporte, houvesse mesmo uma licença para a subversão da honra (argumentativa), assim como, dentro das quatro linhas, há certa licença para um uso moderado de violência, contextualizada ludicamente. O problema aqui ilustrado, contudo, é outro; é o uso desses mesmos recursos hipócritas-escusos fora do universo do futebol, em áreas como a política, a religião, as relações sociais, em geral. Nessas áreas, a mobilização da falácia argumentativa faz-se um ato claro de má-fé, que destrói as nossas possibilidades humanas de evolução coletiva racional por meio da comunicação — e nos sedimenta no presente, inviabilizando o futuro cantado pelo modernismo e sua proposta de progresso contínuo.

Sigo em próximos textos listando falácias argumentativas, valendo-me para isso de exemplos extraídos do meu campeonato imaginado.

Como citar

RIBEIRO, Ewerton Martins. O futebol e as falácias argumentativas – parte 3: segue o jogo. Ludopédio, São Paulo, v. 81, n. 7, 2016.