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O Futebol e o Armário

José Aelson da Silva Júnior

“Por que o futebol brasileiro ainda está trancado no armário?” Com esta chamada, a Revista VICE¹, na seção VICE Sports, trouxe a questão para reflexão e rapidamente ocupou grande destaque nas redes sociais, principalmente, de grupos de torcedores envolvidos na luta contra a homofobia no futebol.

O texto da revista faz, na fluidez de sua narrativa, a descrição de uma série de episódios de preconceito e coerção a torcedores e jogadores que de maneira dissidente subverteram com comportamentos e atos enviadados o espaço do futebol, convencionalmente, heterossexual e de elenco másculo, forte e viril.

Para esse momento o episódio que municia essa reflexão se refere à expulsão do membro de uma grande torcida organizada e ligado a diretoria da mesma, ao ser exposto pela ex-namorada por estar em um relacionamento com outro homem, e a possibilidade do armário como mimetismo providencial para sua permanência despercebida em meio aos demais torcedores. A analogia feita ao armário como possibilidade de refúgio da identidade gay, ocultada pelo laminar das portas desse mobiliário, nos ajuda a entender o acesso e a exceção, num trânsito que regula e é regulado por representações, a espaços de concessão e de negação.

Haja vista que a discussão sobre gênero e esporte tem sido objeto de investigação de vários pesquisadores nas mais diversas áreas do conhecimento, é possível ver revelado nos estudos sobre futebol, o pioneirismo de trabalhos sobre a participação das mulheres neste esporte, como jogadoras ou torcedoras. Tais pesquisas revelam o preconceito sofrido por mulheres em típicos retratos de sexismo presentes nas quadras, campos, arquibancadas e outros espaços de assistência ao jogo, ainda nos dias de hoje.

Nesta mesma lógica que regula o transitar de torcedores e jogadores, bem como o seu pertencimento no campo do futebol, outras formas de masculinidade são indigestas, repreendidas e reguladas pelos “verdadeiros” torcedores. Aqueles que têm na relação com o futebol o espaço necessário, apropriado e miticamente referendado como produtor de homens com H, num governamento que deve excluir por essência aqueles que destoam e corrompem a ordem “natural” nesse esporte.

Durante a manhã de hoje (28), dezenas de manifestantes percorreram toda a orla da praia de Copacabana em protesto contra a Copa do Mundo e a favor dos direitos da comunidade gay (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Em 2014, dezenas de manifestantes percorreram toda a orla da praia de Copacabana em protesto contra a Copa do Mundo e a favor dos direitos da comunidade gay. Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil.

Para Eve Sedgwick², o armário é uma estratégia importante e embora não represente uma proteção muito segura, assegura uma relação confortável aos sujeitos que dentro dele estão, pois lhes permite uma consonância com o outro, assumindo a representação que estes desejam ou esperam ver. É exatamente o que ocorre no episódio apresentado acima. Quando identificado  sexualmente  como os demais membros da torcida, o torcedor gay se apropria, mesmo que clandestinamente, dos espaços e práticas de confluência da torcida organizada.

Nesse caso a dúvida quanto à sexualidade do outro também representa uma condição favorável, desde que assim seja preservada.  O que nos permite mensurar o distanciamento e os desdobramentos, mesmo que inicialmente inexpressivos, entre a evidência e o fato em si – o que  toma materialidade, o que se vê.

Como atenta Berenice Bento³, ao referir-se ao lugar do homossexual na cena social, “[…] as subjetividades são organizadas a partir de um Heteroterrorismo reiterado. E assim, o desejo de amor, pertencimento e acolhimento faz com que, na perspectiva da inclusão via assimilação, o silêncio e a invisibilidade sejam as respostas possíveis ao heteroterrorismo.”

O silenciamento é por vezes o armário de muitos homens gays no campo do futebol… a blindagem possível no tolhimento de suas vozes, gestualidades, vestuários e identidades inadequadas para as arquibancadas e para o campo. O desconforto e a polêmica, inerente ao assunto futebol e homossexualidade, busca na omissão e no não reconhecimento de uma associação possível entre essa prática esportiva e outra orientação sexual, destoante da heterossexualidade, blindar o imaculado jogo com os pés, uma vez que esse esporte é reconhecidamente o espaço de reificação, afirmação e resistência de uma masculinidade hegemônica e singular.

Em 2010, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo, quando jogador do Santos, Paulo Henrique Ganso fez a seguinte declaração: “Graças a Deus não tem gay no Santos. Em alguns clubes por aí têm, sim.” Interpelado pela colunista do jornal sobre a veracidade de sua afirmação, declarou o jogador: “Ué, porque eu trabalho lá e a gente sabe de tudo”.

Há muito tempo, boatos sobre homossexualidade no futebol vem à tona e, como fogo em palha, queima ligeiramente, produz fumaça, mas não chega a aquecer o assunto sobre a ocorrência de gays em clubes do futebol brasileiro, ou ainda, promover o espaço para o debate sobre o preconceito entre torcedores, jogadores e dirigentes.

O encapsulamento de jogadores, dirigentes e técnicos, cada um no seu armário, se sustenta na eminente possibilidade de terem suas carreiras interrompidas precocemente, pela via do preconceito e da falta de oportunidades. Foi exatamente o que ocorreu com o estadunidense Robbie Rogers: jogador do Leeds United, clube do futebol inglês, que anunciou o encerramento da sua carreira aos 25 anos, em fevereiro de 2013, ao revelar-se homossexual. Ainda em março daquele ano Rogers acertou sua volta para o futebol, defendendo o Los Angeles Galaxy.

Cópia de Robbie_Rogers

Robbie Rogers atuando pelo Los Angeles Galaxy, em 2013. Foto: Noah Salzman. CC BY-SA 3.0.

Durante 25 anos tive medo de que os julgamentos e a rejeição me afastassem dos meus sonhos e ambições. Medo que as pessoas amadas se afastassem se soubessem o meu segredo. A vida só é completa quando as pessoas amadas nos conhecem, quando sabem os teus verdadeiros sentimentos, quando te conhecem e amam. A vida é simples quando o segredo desaparece. (…) Foi-se a dor no estômago, a dor que evitava questões, de esconder um segredo tão profundo. Os segredos podem causar muitos danos internos. Tentem explicar às pessoas amadas, depois de 25 anos, que são homossexuais. Eu nunca esquecerei dos amigos que fiz e daqueles que me apoiaram. Agora é tempo de me afastar. Está na hora de eu me descobrir longe do futebol . Meu segredo acabou, sou um homem livre”. Robbie Rogers

Robbie Rogers é conhecido como o primeiro jogador profissional de futebol a se assumir gay. Embora a história de Rogers seja marcada pelo apoio de torcedores, colegas de equipe e do clube que atualmente defende, sair do armário representa para muitos jogadores a exposição de sua intimidade e, mais que isso, uma declarada indisposição com os torcedores de seu clube, pois afeta negativamente a imagem dos mesmos, numa disparada constante de xingamentos depreciativos por torcedores rivais e/ou por seu próprio grupo, cujo foco está na diferença sexual como defeito do qual devam se envergonhar. É uma tentativa coletiva de ferir o orgulho e o simbolismo do clube.

Na entrevista com Ganso, o jogador revelou gostar de se vestir bem e estar namorando. A repulsa pela presença de colegas gays em seu time bastou para que sua vaidade não colocasse em xeque sua sexualidade, assim como a identidade de seu affaire é rapidamente associado à presença feminina.

A virilidade associada ao jogador de futebol é um marcador cultural irrefutável. Um exemplo disso foi a exposição do corpo nu de jogadores em revistas para o publico gay masculino, como Vampeta (ex-Corinthians), Roger (ex-São Paulo) e Dinei (ex-Corinthians). O sexo dos jogadores, muito aparente no ensaio fotográfico, representa toda potência, robustez e virilidade que se reconhece na figura normativa do homem. No entanto, dos três jogadores, apenas  Vampeta parece não ter manchado a sua carreira em decorrência das fotos. Segundo o que relata em seu livro um dos motivos para que o assunto não se prolongasse foi a campanha vitoriosa do Corinthians naquele ano.

Um exemplo da construção de papéis sociais e o engessamento que estes apresentam na figuração de masculinidades e feminilidades se reproduzem no futebol, assim como em outras cenas do cotidiano. O armário abriga não só os gays, mas todos aqueles que precisam se misturar, passar despercebidos ou mesmo atuar em certos contextos.

Uma campanha publicitária da linha Boticário Men, recentemente divulgada como propaganda comercial, produz explicitamente a figura do homem como aquele que não se atem às coisas sensíveis, “típicas das mulheres”. A propaganda traz homens brutalizados, de voz grossa e em atividades característica de sua natureza provedora de macho e, por fim, aconselha que eles se cuidem, mas que não deixem que outras pessoas saibam.

A representação sobre o jogador/torcedor de futebol, assim como a do homem da propaganda de cosméticos, não pode ser violada por atitudes que o “feminizem” e corrompam a sua “natureza”. No primeiro caso pela evidencia da homossexualidade e, no segundo, pelos cuidados com o corpo que não se aplicam ao “jeito certo” de ser homem.

Embora uma alternativa útil, o armário representa também a estrutura definidora da opressão gay onde são trancadas as subjetividades e as diferentes formas de ser masculino no mundo. Por isso é providencial falar sobre homofobia no futebol, bem como dar visibilidade a outras formas de preconceito no esporte, para que comportamentos naturalizados sobre os papéis sociais e os estigmas que daí foram alicerçados sejam solapados pelo discurso da diversidade sexual e de gênero.

¹ NAISA, Leticia; ARAÚJO, Peu. Por que o futebol brasileiro ainda está trancado no armário?2016.  Revista VICE. Acessado em 9 de maio de 2016.

² SEDGWICK, Eve Kosofsky.  A Epistemologia do Armário. Cadernos Pagu (28), janeiro-junho de 2007:19-54.

³ BENTO, Berenice. Queer o quê? Ativismo e estudos transviados. Revista Cult. 2016. Acessado em 13 de maio de 2106.