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O futebol e o profissionalismo marrom em Belo Horizonte: os casos Armando e Odorino

Georgino Jorge de Souza Neto

A década de 1920 representa um período estruturador na constituição mais orgânica do futebol e do torcer na capital mineira. Uma série de indícios apontam para uma intensa movimentação neste cenário: construção de estádios, ligas representativas, mercado consumidor, educação para o torcer, imprensa especializada, clubes com grande apelo identitário e popular. Todo este contexto ilustra como o futebol penetrara no cotidiano de Belo Horizonte com força suficiente para ser considerado um importante fenômeno social, vinculado ao incremento de uma cultura esportiva em curso.

Um dos elementos recorrentes neste conjunto diz respeito ao crescente debate entre amadorismo/profissionalismo (que seria oficializado no início da década de 1930, mais especificamente no ano de 1933). Neste particular panorama, em fins da década de 20, a fuga de jogadores mineiros para clubes do Rio de Janeiro e São Paulo (a troco de empregos ou outra estratégia que legitimasse suas saídas) era alvo constante da imprensa esportiva da cidade, bem como de dirigentes e torcedores. No entanto, um outro aspecto também poderia ser apontado como característica do assim denominado “profissionalismo marrom”: a troca de jogadores entre os próprios clubes da capital. Os casos Armando e Odorino ilustram o presente texto, com base nos periódicos publicados na época.

Os embates entre os clubes de desdobravam em demonstrações explícitas de enfrentamento, e nem sempre entre as quatro linhas demarcatórias do campo de futebol. Um episódio que exprimiu a condição de pertencimento entre time, jogador e torcida foi a passagem do goal-keeper palestrino Armando para os quadros do Athletico. Tal atitude causou uma enorme celeuma entre as diretorias das equipes, e se estendeu para os domínios das torcidas de ambos. Considerado como uma ofensa e uma traição, o comportamento do goleiro não era algo tão incomum naquele período, e tomou tamanha proporção por ter ocorrido entre dois clubes notadamente rivais e pela condição de ídolo que o goleiro atingira no Palestra. A briga pelo “passe” de Armando foi a síntese da disputa e da rivalidade que Palestra e Atlético forjavam, e representava a condição de paixão, status e pertencimento que o futebol alcançara em Belo Horizonte. Os periódicos permitiam a compreensão do acontecimento, noticiando em destaque os meandros do ocorrido.

O fato desencadeador do imbróglio ocorreu na partida entre o Athletico e o Tupinambás, de Juiz de Fora. Neste jogo, Armando, já vestindo as camisas do alvi-negro, é hostilizado pelos palestrinos presentes ao estádio. A nota desportiva do jornal apontava que “[…] Armando, o nosso keeper do preto e branco, recebendo a saudação da numerosa torcida athleticana. A torcida do Palestra vaiando o maior keeper da cidade. Insultos dos dois lados e uma porção de guardas-civis no meio” (MINAS Geraes, Belo Horizonte, 17-18 fev. 1930. Seção Desportos, p. 12). A necessidade de intervenção dos guardas-civis mostrava bem a proporção que a situação tomara.

Em outro momento, o conflito mereceu uma descrição esmiuçada na seção desportiva do Minas Geraes, que apontava os motivos e as causas do tamanho mal-estar que a atitude do arqueiro do time palestrino provocara:

ARMANDO PERTENCERÁ SEMPRE AO PALESTRA – Armando é o maior keeper de Bello Horizonte. O mais corajoso. O mais moço e o mais perfeito jogador da sua posição. Em 1929, Armando conquistou muitas glorias para o Palestra Italia. A maior foi o campeonato, que elle garantiu heroicamente, numa serie de defesas impressionantes. Armando, justamente por isto, era um nome querido nos meios palestrinos. Aconteceu, porém, esta coisa imprevista: Armando deixou aquelle club e entrou para o Athletico, declarando seu antigo desejo de inscrever-se pelo preto e branco. E a sua transferencia para o Athletico parecia definitiva desde domingo, quando toda a torcida do Palestra vaiou o esplendido goal-keeper, publicamente insultado pelos antigos admiradores. Hostilizado pelos socios do Palestra, Armando acceitou deliberadamente a amizade e a admiração dos athleticanos. E para regulamentar o seu acto, Armando passou a preferir o café Iris ao Bar Excelsior, de accordo com os estatutos da Liga. Vaiado pelos palestrinos e vestindo a camisa do Athletico, parecia que o maior pegador de bolas da cidade havia realizado o seu proposito. No entanto, a directoria do Palestra não pretende dar a Armando o passe, considerando que a vaia de domingo não exprime o seu pensamento. A directoria, reconhecendo os serviços prestados por Armando, não quer que elle vá para o Athletico. Hontem constava até que o magnifico goal-keeper, antes de poder alistar-se legalmente ao seu novo club, terá um anno inteiro de ferias, concedido pela directoria do Palestra. Isto prova que Armando continúa prestigiado e que a sua demissão não será concedida. As accusações feitas ao campeão de 1929 são, portanto, injustas, não havendo má vontade dos directores daquelle club em relação ao Athletico. O Palestra nega o passe a Armando, apenas para conservar no seu team o brilhante jogador, ao qual quer reaffirmar a sua estima. É um assumpto que o nosso publico sportivo ainda não comprehendeu. Em qualquer occasião, no entanto, o Palestra daria o passe aos seus jogadores. Para-raio e Polenta, si estes tambem pretendessem passar para o Athletico. Como se vê, embora os associados do Palestra sejam inimigos de Armando, a directoria reconhece o valor do grande keeper mineiro, insistindo em conserval-o no seu primeiro quadro (MINAS Geraes. Belo Horizonte, 20 dez. 1930. Seção Desportos, p. 11).

Time do Palestra em 1923

Time do Palestra em 1923. Foto: Autor desconhecido/Wikipédia.

O “caso Armando” revelava uma condição muito comum na época. Os jogadores dos times eram, invariavelmente, também simpatizantes e torcedores dos mesmos. Embora o profissionalismo, em 1933, venha alterar mais radicalmente tal postura, a mudança de um clube para o outro já não era algo tão incomum, e não deixava de prenunciar uma forma de “profissionalismo marrom”. Os motivos que promoviam a transferência para um outro time estavam, via de regra, ligados à possibilidade de melhoria financeira, já que os principais clubes, veladamente, remuneravam os seus principais jogadores. Esse movimento, chamado pelo periódico Folha Esportiva de “bonds esportivos”, nem sempre agradava àqueles que ainda acreditavam no valor do amadorismo no futebol. A crítica era contundente, e afirmava:

Os clubs bellorizontinos têm sido, de tempos para cá, victimas do profissionalismo. Ora paulistas, ora cariocas, o certo é que, precedidos de bella fama, para aqui têm vindo alguns footballers, a chamado de clubs nossos, afim de “ganharem a vida” e em pouco tempo, depois de cheios, lá se vão outra vez, deixando a ver navios. […] Até o Armando deu para sabido e passou o seu bleufezinho no Palestra (OS BONDS ESPORTIVOS. Folha Esportiva. Belo Horizonte, p. 7, 21 abr. 1930).

No entanto, não era somente o vil metal que despertava o desejo de mudança nos footballers belo-horizontinos. Muitos deles se apaixonavam pelos doces encantos das torcedoras mineiras, e não pensavam muito para satisfazer o desejo das suas “gentis senhorinhas”, que usavam do seu poder de persuasão para convencer os amados players a trocarem de time. Foi o que aconteceu com Odorino, conhecido atacante atleticano, e “querido nas rodas sportivas da Capital”, que trocara o alvi-negro pelo aristocrático América, motivado pelo amor à sua “pequena”, fervorosa torcedora americana.

A reportagem do periódico apresentava uma entrevista com o jogador, e estampava uma foto para ilustrar a situação (Fig. 01). Na nota de rodapé da fotografia, podia-se ler:

Odorino estava verdadeiramente indeciso. Entre o Athletico e o America o seu coração balançava. Nisso, entra a mulher em scena. Foi um baile. A orchestra tocava “Nelly”, e Odorino, enlaçando uma aristocrática cintura, deslisava pelo salão. “Ella” convencia o Odorino a passar para o America, e elle, heróico, resistia. Então a sereia parou de dançar, e falou em voz triste: – É melhor acabarmos tudo, desde agora. Você vae para um lado, e eu para o outro. Quem é que resistiria a isso! Eu não. Nem o leitor camarada. E o Odorino também não resistiu: passou-se com armas e bagagens (ESTADO de Minas. Belo Horizonte, p. 5, 18 jan. 1930).

Como pode se perceber, entre o profissionalismo marrom, o amadorismo blasé, o pertencimento clubístico e o amor, as diferenças não são tão grandes assim. De fato, o futebol nunca é só futebol!!


Como citar

SOUZA NETO, Georgino Jorge de. O futebol e o profissionalismo marrom em Belo Horizonte: os casos Armando e Odorino. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 53, 2021.