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O futebol e os protestos no Chile

Roberto Jardim

Com o começo da Taça Libertadores para os times brasileiros, com o Inter jogando contra a Universidad de Chile, em Santiago, na terça-feira (4/2/2020), o Chile voltou a ser pauta nos meios de comunicação brasileiros. Esquecidas há algumas semanas, as manifestações da população contra o governo do presidente Sebastián Piñera, a política econômica e a total desassistência, quase viram um problema de torcidas de futebol violentas, as barras-bravas, segundo algumas matérias dos últimos dias.

Por isso é importante tentar um outra leitura sobre o que vem ocorrendo por lá. Tenho acompanhado a situação por meio de relatos nas redes sociais e de alguns contatos de amigos virtuais (como o Hector Aguilera, os companheiros da Editorial Mestiza e outros).

O povo nas ruas

Desde outubro, muitas notícias divulgadas na mídia tradicional tratam os atos apenas pelo lado da violência dos manifestantes, sem entrar em detalhes do que gera essa violência. Vale lembrar, antes, que esses protestos não são liderados por nenhum partido político ou por nenhuma organização.

Os atos surgiram espontaneamente, com convocações via redes sociais, e assim seguem, por conta do aumento das tarifas do transporte público. A partir daí, as reclamações passaram a ser o sistema previdenciário, a política econômica, o governo e as ações dos carabineros. Os relatos mais imparciais também surgem dessa forma, por meio de pessoas que participam, apoiam ou apenas assistem ao que está acontecendo. Segundo Aguilera, os policiais responsáveis pela repressão aos atos estão totalmente descontrolados.

Dessa forma, vídeos de câmaras de segurança e de celulares de quem acompanha as ações mostram, claramente, que a violência é iniciada pelos carabineros, a polícia militar chilena.

O que tem sido mostrado fora da grande mídia:

– policiais infiltrados flagrados incitando saques e iniciando tumultos;

– policiais uniformizados flagrados quebrando vitrines e lojas para simular saques;

– policiais flagrados agredindo pessoas de diversas formas e indiscriminadamente;

– e, ora vejam, policiais consumindo drogas antes, durante e depois das operações.

Talvez venha das drogas a agressividade dos soldados. Uma agressividade desproporcional às passeatas. Uma agressividade até agora sem nenhuma punição por parte das autoridades.

Os relatos apontam mais de 350 pessoas que ficaram cegas por conta dos tiros com balas de borracha (algumas de materiais mais duros). Os policiais miram no rosto dos manifestantes com o objetivo de acertar os olhos.

Também são relatados problemas de pele devido ao uso de produtos químicos usados nos caminhões-tanques que jogam água para dispersar as manifestações. Há ainda o abuso de mulheres, bem como o desaparecimento de pessoas. Além das mais de 20 mortes registradas.

Manifestantes recebem jatos d’água. Foto: Colectivo 2+/Carlos Vera M.

Para quem não lembra, os atos começaram em outubro, e até novembro, mais ou menos, eram diários. Ganharam rapidamente apoio das torcidas dos times de futebol, que exigiram o fim das competições nacionais e se uniram, deixando de lado as rivalidades clubísticas.

Ainda tiveram ao seu lado jogadores de diversos times locais, bem como dos astros de La Roja, a seleção chilena, como o goleiro Claudio Bravo, atualmente no Manchester City-ING, e do volante Charles Aránguiz, do Bayer Leverkusen-ALE. O boleiros da seleção se recusaram a jogar o último amistoso do ano, em apoio à população.

Apesar de promessas de mudanças na política econômica  –  é bom lembrar que essa é vista como exemplo para o Brasil -, principal alvo dos protestos, a população tem saído à rua com frequência. A impressa local, porém, tenta mostrar alguma normalidade, com matérias sobre férias e outras amenidades. O mesmo a tão “normalidade” tem sido relatada por alguns jornalistas brasileiros que estão em Santiago para cobrir o jogo do Inter com La U.

Conflitos no Chile. Foto: Colectivo 2+/Carlos Vera M.

Os atos, no entanto, não cessaram. Ultimamente passaram a ocorrer uma ou das vezes por semana, a partir de convocações via redes sociais. Em Santiago, eles têm ocorrido às sextas-feiras, na Plaza Itália, rebatizada Plaza de la Dignidad pela população em luta. Protestos são realizados também no Norte do País. Antofagasta é uma das mais mobilizadas, mas manifestações também ocorrem em Valparaíso e Viña del Mar.

O aumento da tensão

Com a retomada das atividades do futebol, no final de janeiro, as torcidas se mobilizaram dentro dos estádios. Cânticos contra Piñera e os carabineros começaram a ser entoados em partidas amistosas na pré-temporada. A situação seguiu na primeira rodada do Campeonato Chileno, quando a tensão aumentou.

Isso porque, na terça-feira (28/01/2020), um torcedor do Colo Colo foi atropelado e morto por um caminhão da polícia após a partida contra o Palestino. O fato aconteceu na saída do jogo, disputado no Estádio Monumental. Trinta mil pessoas assistiram ao confronto. Depois da partida, reuniram-se na rua.

Para dispersar a aglomeração, os carabineros foram mais uma vez abusivos. Violentos, como sempre, usaram um veículo militar para desmobilizar os grupos presentes. Vídeos mostram o caminhão acelerando e atingindo Jorge Luís Mora, 22 anos, que acabou morrendo.

Até o momento, não há notícias de punição ao motorista do veículo envolvido na morte de Mora, o que levou as torcidas a iniciaram atos para impedir a retomada da competição, alguns deles com invasão de gramados e interrupção de partidas. Outros dois jovens acabaram mortos.

Como é possível ver em relatos nas redes sociais e em matérias de alguns veículos mais comprometidos com o jornalismo, a situação do Chile está longe da normalidade. Assim como os protestos nos estádios e seus entornos estão muito distantes de serem apenas uma questão da violência das torcidas organizadas.