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O futebol foi um rio que passou em nossas vidas

Marcos Alvito

O muro interno do estádio municipal era lindo. Todo pintado com os escudos dos clubes da cidade: União Recreativa Popular, Pedra Rica FC, Atalanta Esporte Clube, Grêmio FC, Estrela Esporte Clube, Moedor Esporte Clube, Sucatão FC, Andorinha Esporte Clube e por fim o que leva o nome da cidade, o Grão-Mogol FC. Fui despertado da minha alegria por um dos rapazes que batiam bola no gramado castigado pela seca de agosto do sertão mineiro. Percebendo a minha admiração, inegável pelo fato de estar tirando fotos, ele disse em tom jocoso:

— É, moço, mas desses aí só sobraram uns quatro…

Faço as contas: de nove, sobraram quatro, ou seja: o número de clubes da cidade ficou reduzido a menos da metade. Como não lembrar dos versos de Drummond falando de sua cidade natal: “Itabira é apenas uma fotografia na parede / Mas como dói!”. Eu estava fazendo uma viagem pelo que chamo “sertão de Rosa”, pelas cidades e regiões mais mencionadas em Grande sertão: veredas. Afora o fato de acompanhar religiosamente os resultados do meu Flamengo, não estava pensando em futebol.

Mas naquele momento eu me dei conta que estava viajando há mais de dez dias, tinha rasgado mais de mil e quinhentos quilômetros de estrada e não havia visto sequer um jogo de futebol em campo de terra, gramado ou mesmo em uma quadra de futebol de salão. Tinha visto três garotos bem pequenos brincando com uma bola em Urucuia e agora aqueles rapazes chutando para gol no estádio de Grão Mogol.

Uma coisa recorrente na viagem foi testemunhar a morte dos rios, córregos, riachos e fontes de água em geral. Em todas as cidades, vilas e povoados que passei as pessoas se queixavam da falta crescente de água. E todos sabiam apontar os culpados: o desmatamento com o objetivo de fazer pasto para os bois e as plantações de eucalipto, que esgota o solo e suga o máximo possível de água. Hoje o rio São Francisco, o grande rio, está tão assoreado que é impossível haver navegação fluvial de passageiros. Em outros lugares, os pequenos agricultores sofrem tanto com a falta d’água que já falam até em destruir os mecanismos de irrigação dos grandes plantadores, que instalam máquinas para tirar água dos rios dia e noite. Pode faltar água para os homens, mas para os bois e para café jamais.

Este processo de morte de um rio vem ocorrendo há muito tempo. Agora é que a situação chegou a seu limite, agora é que ele é percebido com clareza. O grande rio morre quando morrem seus pequenos afluentes, suas fontes alimentadoras. É o que está acontecendo com o futebol. Quando Pelé nasceu, em 1940, a taxa de natalidade era de mais de seis filhos por mulher. Hoje ela está abaixo de dois, o que nem mesmo permite repor a população brasileira. A população está envelhecendo, a pirâmide populacional, antes com uma enorme base de jovens, está se invertendo. Teremos cada vez mais gente vendo e cada vez menos jogando.

Este é apenas um fator. O futebol sempre esteve ligado à industrialização, com a enorme concentração urbana que ela demandava e à existência de uma classe operária volumosa e bem definida. O jogo de futebol tradicional sempre foi no dia e horário da folga: no caso inglês, no sábado à tarde, no caso brasileiro, onde as conquistas trabalhistas demoraram bem mais a acontecer, as partidas eram jogadas nos domingos à tarde. Hoje temos um processo de precarização do trabalho, que se seguiu à desindustrialização, sem falar no fim de postos de trabalho devido aos processos de automação.

Muro interno do estádio municipal de Grão Mogol, Minas Gerais. Foto: Marcos Alvito, agosto de 2019.

Apesar deste quadro, se compararmos o Brasil de hoje ao país da época em que nasceu o pequeno Edson Arantes do Nascimento, houve melhora em todos os índices: escolaridade, expectativa de vida, renda etc. Hoje um celular permite estar em conexão com todo o mundo. As formas de lazer se diversificaram. O número de cinemas diminui há décadas. Algumas lojas de eletrodomésticos viraram mostruários, as pessoas compram pela internet. O mesmo motivo tem levado ao desaparecimento de livrarias presenciais. O ensino à distância prospera, no bom e mau sentido. Até mesmo relacionamentos amorosos hoje ocorrem mais na tela do que na cama (espero estar exagerando).

Ora, achar que o futebol estaria a abrigo de todas estas transformações é uma ilusão. Já ao final da minha viagem, fiquei um dia em Juiz de Fora, cidade com mais de meio milhão de habitantes e um comércio frenético, nos bons tempos das fábricas de tecidos chamada de “Manchester Mineira”. A cidade tem três clubes de futebol. Sport Club Juiz de Fora, o Periquito da Avenida, com seu uniforme verde-e-branco, foi fundado em 1916, quando a cidade era uma potência industrial. Depois de um longo tempo, retornou ao futebol profissional em 2009, mas hoje não participa mais do Campeonato Mineiro em nenhuma das suas três divisões. Já o Tupynambás Futebol Clube, fundado cinco anos antes, em 1911, o Baeta ou Leão do Poço Rico, com seu uniforme vermelho-e-branco, conseguiu um pouco mais de sucesso no futebol profissional. Teve participações isoladas nas décadas de 30, 60 e 80, bem como um fracassado retorno em 2007. Mas desde 2016 retornou firmemente e em 2019 disputou a primeira divisão do mineiro, sem ser rebaixado e inclusive conseguindo a classificação para a Série D pela primeira vez na sua história. Seu maior rival, o Tupi  Football Club, foi fundado um ano depois, em 1912, também no período do apogeu industrial da cidade. O Tupi é chamado de Carijó, é chamado por causa do seu uniforme em preto e branco. O clube, talvez o mais conhecido dos três, atravessa uma grave crise: sofreu três rebaixamentos sucessivos no campeonato nacional e só poderá voltar (caso tudo dê certo) à série D em 2021. No Campeonato Mineiro, caiu para a segundona.

Passei metade do meu dia em Juiz de Fora procurando uma camisa de um dos três times da cidade. Fui a mais de dez lojas, perguntei a motoristas de táxi, ao porteiro do hotel, aos funcionários do estádio municipal. Nem preciso dizer que não vi ninguém usando uma camisa dessas. Seria mais fácil achar um unicórnio. A mesma coisa me aconteceu quando fui a Manaus e não encontrei uma só camisa do Fast ou do Rio Negro nas ruas ou nas lojas.

Ao chegar ao Rio, me inteirei de que o Bury, clube histórico que fazia parte da Football League há 125 anos, acaba de ser fechado por conta de uma situação de insolvência. Este é um processo que está prestes a ocorrer no Bolton e já ocorreu com muitos outros clubes na Inglaterra e no mundo.

A riqueza, o brilho, a glória dos grandes clubes, a excelência do futebol das grandes ligas é que nem o grande rio, depende de seus pequenos afluentes. Para dar um exemplo: o lateral-direito Danilo, que foi jogar no Real Madri em 2015 e hoje está na Juventus. Danilo foi titular no primeiro jogo da seleção brasileira na Copa de 2018. Sabem quais foram as primeiras cores que ele vestiu? O vermelho-e-branco do Tupynambás de Juiz de Fora.

Não se percebe a olho nu, mas a fonte está secando.

A vida social é feita de mudanças, de transformações. Nada continua igual. É como em outro poema de Drummond, em que José “quer ir para Minas,” mas, “Minas não há mais.”

Se nada for feito, se as grandes ligas não despertarem para a necessidade de distribuírem riqueza para preservar a própria existência, logo o futebol será um rio que passou em nossas vidas.

Como citar

ALVITO, Marcos. O futebol foi um rio que passou em nossas vidas. Ludopédio, São Paulo, v. 123, n. 11, 2019.