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O futebol no campo religioso

Amarildo da Silva Araujo

Há um dito popular que afirma: “futebol, política e religião são três coisas que não se discute”. Esta frase dada sobre o olhar do senso comum, nos orienta a afastar de tais discussões, pois são assuntos que geram polêmicas, e isso se põe como motivo de distanciamento de muitas pessoas. Sabendo que cada um tema é altamente complexo, autônomo e de grande incompletude, nos parece ainda que existe uma forte relação intrínseca entre essa tríade e que pode ser ainda subdivida em: futebol e política; política e religião; e por fim futebol e religião.

Ciente das evidências da proximidade do futebol com a política e vice e versa, retiro desse momento as reflexões sobre esse assunto, uma vez que ele requer uma extensa análise que envolve clubes, torcidas, patrocínios, públicos, federações, políticos e governos, além de contextos, interesses, escolhas, “ganhos” e dinheiro. Portanto, nesta breve escrita, pretendo trazer alguns elementos que nos ajudam a pensar sobre a relação entre futebol e religião, ou melhor futebol e religiosidade(s), uma vez que no Brasil há uma efervescência de religiões e um sincretismo religioso.

Esclareço que utilizarei a ideia de religiosidade(s) e não a de região no seu sentido stritus, ou seja, como uma instituição hierarquizada que tem materialidade e possui a orientação de princípios teológicos (dos fins). Dessa forma, a manifestação da religiosidade pode ocorrer de diferentes maneiras como: um amuleto, uma fala, um olhar em “determinada” direção, uma imagem, um gesto ou qualquer ação ou crença que possa ser referente ao mundo transcendental, fortalecendo os vínculos do campo religioso no futebol como veremos em seguida abaixo.

Numa partida de futebol, após a preleção que antecede os jogos em nosso país, é a tradição do grupo formado pela comissão técnica e jogadores se abraçarem em círculo ou dar as mãos e fazer uma oração, para que os planos traçados pelo time possam dar certo e assim o clube buscar a vitória. Nesse caso a religiosidade se manifesta, reproduzindo uma prática que pode ser observada nas igrejas e nos cultos.

nos vestiários antes do jogo Independiente Santa Fe/Colombia x Corinthians/Brasil, realizado esta noite no Estadio El Campin, valido pela 5a. rodada da fase de classificação da Copa Libertadores 2016. Juiz: Nestor Pitana - Bogota/Colombia - 06/04/2016. Foto: © Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians

Tite, é devoto de nossa senhora de Aparecida. Foto: © Daniel Augusto Jr./Ag. Corinthians.

A entrada de muitos jogadores em campo, se benzendo, fazendo em o nome pai do filho e do Espírito Santo, além de entrar no gramado, pisando somente primeiro com o pé direito, assinala a forte presença da religiosidade nos gramados. Não são poucos os goleiros que ao chegar debaixo do travessão ergue os dois braços, em seguida vai até uma trave e reza, repete a mesma ação na outra trave, parecendo estar pedindo proteção da sua meta aos céus.

Uma frase que é de domínio público “gol, o grande momento do futebol” costuma revelar “o instante mágico de uma partida” onde além do diferencial desse acontecimento por si só em uma partida, habitualmente é acompanhado por diferentes formas de religiosidades pelos seus autores. O gol é um momento tão mágico que não é por acaso que se criou a expressão “o gol salvador” que pode mudar a história de um jogador ou de um clube.

Após o gol, não são poucas as manifestações de religiosidades nas comemorações que reverenciam e agradecem a Deus, aos Santos, a Nossa Senhora ou a Jesus Cristo. Ajoelhar, fazer o sinal da cruz, levantar os braços, olhar para o céu e dizer palavras de agradecimento é uma forma comum de comemoração que muitas vezes são vistas, mas nem sempre percebida pela via religiosas.

Do Estado da Bahia, conhecido pela forte presença de religiões de matriz africanas, vem a frase “se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado”. Essa fala demonstra a força que a religiosidade exerce no futebol baiano, e nesse caso ela é tão representativa que indica um equilíbrio de forças sobrenaturais entre os clubes, sugerindo ainda que pelo menos no campo religioso não há vencedor.

Muitos são os fatos existentes que revelam as manifestações das religiosidades no futebol. O misticismo e a superstição estão presentes nos campos de modo intenso, ressignificando esses espaços como lugares sagrados, que consagra e glorifica, mas que também pode demonizar e levar ao fracassar e destruir a trajetória dos seus atores. Portanto, a relação entre futebol e o meio religioso nos leva a pensar que está sempre presente uma disputa traçada entre o Deus e o Diabo.