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O futebol nos Jogos Bolivarianos de 1938 II: a importáncia dos estádios El Campín e Cidade Universitária em Bogotá

Eduardo de Souza Gomes

No  meu último post aqui publicado, abordei a presença do futebol nos Jogos Bolivarianos de 1938, evento poliesportivo ocorrido em Bogotá no âmbito dos festejos do IV centenário da capital colombiana e que contou com a participação de diferentes nações ligadas por questões identitárias com a imagem de Simón Bolívar, que foram Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela.

Tratei, também, sobre como esse evento foi importante para a consolidação dos primórdios da seleção colombiana de futebol, considerando que foi nesse ano de 1938 que se iniciou a formação de um selecionado entendido como nacional no país, dentro dessa modalidade esportiva.

Estádio Alfonso López pumarejo, da Cidade Universitária, na inauguração dos Jogos Bolivarianos de 1938. Foto: Universidad EAFIT.

Ainda nesse último post, destaquei a importância da construção de dois estádios para a efetivação não só da competição de futebol, como de todas as disputas ocorridas na agenda esportiva no âmbito dos Jogos Bolivarianos de 1938. São esses o Estádio Alfonso López Pumarejo (Estádio da Cidade Universitária), localizado na Cidade Universitária da Universidad Nacional de Colômbia – Sede Bogotá; e o Estádio Nemesio Camacho (El Campín), uma das maiores e mais conhecidas sedes esportiva do país até a atualidade.

As motivações para a efetivação da construção daquelas que se tornariam as duas principais praças esportivas da capital deram-se por distintas questões. Dentre os interesses envolvidos e motivações oriundas da construção dos dois estádios, David Quitián Roldán destaca que

En esa ocasión, se decía lo siguiente: Frente al deporte, baste dar algunas indicaciones: […] la construcción del estadio de la Universidad Nacional (parte de um complejo proyecto polideportivo) obedeció a la idea inglesa, perfeccionada por la tradición norteamericana, de un campus donde la energía de la juventud se canalizara en la combinación de estúdio y agonismo sublimado por el deporte, que de hecho es la base em todos los campus en esos países […]. Por el contrario nada menos que Jorge Eliécer Gaitán, con su visión populista y como alcalde de Bogotá, decidió la controversia por el rumbo del deporte al insistir, contra la idea del gobierno, en poner un polo popular alternativo al deporte de la capital, con la creación del estadio Nemesio Camacho, más conocido como El Campín. Fue una decisión de encrucijada. (QUITIÁN ROLDÁN, 2009, p. 3)

O governo do presidente Alfonso López Pumarejo (1934-1938), marcado por “La Revolución en Marcha”, construiu caminhos que relacionavam o esporte com o desenvolvimento político e econômico do país. Foi em seu âmbito que se consolidaram, também, os projetos de construção dos dois estádios aqui referendados.

Tentando vincular Bogotá aos ideais inerentes à modernidade, que passavam por um determinado aparato acadêmico e científico, buscou-se assim estabelecer um parâmetro diplomático onde a capital do país fosse vista como um modelo em distintos quesitos:  “López creía que Bogotá debía vincularse estrechamente a la vida de la universidad y opinaba que mantener el estadio dentro de esta última era un buen pretexto para lograrlo” (ACOSTA, 2013, p. 56). Não à toa, foi nesse cenário que o governo comprou os prédios e espaços necessários, então pertencentes a José Joaquim Vargas, para a construção da Cidade Universitária da Universidad Nacional em Bogotá, local onde também seria construído o estádio universitário, que posteriormente foi nomeado com o nome do presidente.

Em 1936, deu-se início às obras de urbanização em Bogotá que visavam adequar os espaços universitários na cidade, tendo o Instituto Nacional de Educação Física iniciado no ano seguinte. A planta integrava dois estádios: um para o futebol e outro para o atletismo que, com o tempo, acabaram sendo fundidos em um único projeto, até pela questão da viabilidade econômica. Inclusive, um espaço para a construção de um campo de beisebol, esporte que se consolidou com mais força no caribe do país, havia sido pensado a priori. As obras do Estádio Alfonso López Pumarejo iniciaram-se em setembro de 1937, tendo sido finalizadas e liberado o estádio para as competições em junho de 1938.

Estádio Alfonso López Pumarejo na atualidade, localizado na Cidade Universitária da Universidad Nacional de Colombia em Bogotá. Foto: El Tiempo.

No caso de El Campín, é importante destacar que o projeto para a construção de um “Estádio Nacional” é anterior ao de consolidação dos Jogos Bolivarianos enquanto evento festivo no país. Já era previsto na Ley 12 de 1934, que tinha como objetivo a reorganização do Ministério de Educação da Colômbia, dialogando com a Ley 80 que versava sobre a institucionalização da Educação Física e dos esportes no país, que se construísse um estádio de grande porte na Colômbia.

No mesmo ano, em 17 de novembro, um comunicado foi enviado ao então prefeito de Bogotá, Junior Pardo Dávila, no qual foi solicitado pela CNEF que “a la Junta Pro Centenario de la ciudad que incluya en los proyectos de obras urbanas el de un Estadiúm (sic) o plaza de deportes, con un presupuesto mínimo de $400.000 (cuatrocientos mil pesos)” (ACOSTA, 2013, p. 53).

Em 1935, foi criada uma junta destinada a desenvolver o projeto de construção do estádio. De início e com o aval presidencial, pensou-se em construir um estádio que se vinculasse à Universidad Nacional (que depois, seria o Estádio da Cidade Universitária, já aqui citado). Porém, a proposta de construir um estádio universitário não foi bem aceita por todos. Por exemplo, Jorge Gaitán, membro do Partido Liberal e um dos maiores nomes desse campo político, se opôs à parte desse olhar então definido por López Pumarejo. Entendia que o estádio deveria ir “além do mundo acadêmico”, sendo assim também “destinado ao povo”.

Estádio El Campín sendo construído na década de 1930. Foto: Infodeportes.

Gaitán esforçou-se para conseguir 350 mil pesos em agosto de 1936, visando a construção do estádio. A partir do Decreto de número 268, ficou destinada tal verba para a construção do “estádio nacional”, tendo os atrasos em sua obra gerado manifestações nas ruas de Bogotá. O estádio acabou sendo inaugurado, tal como o da Cidade Universitária, no âmbito dos Jogos Bolivarianos de 1938.

Tais jogos foram, então, centrais na celebração organizada para se festejar o aniversário da capital do país. Foi, no caso do desenvolvimento das práticas esportivas, a “cereja do bolo” de um processo que vinha se desenhando já nas décadas anteriores, a partir da reconfiguração da cidade. E com a nova concepção política a partir da entrada do governo liberal, o esporte incorporava as características centrais do “homem moderno”: “fomentaba la higiene, la salud, la educación, el entretenimiento ‘sano’, la mejor forma de combatir una vida sedentária y el mejoramiento de la ‘raza’ y su beleza.”(ACOSTA, 2013, p. 58).

Já na inauguração dos jogos, o Estádio da Cidade Universitária recebeu um grande público, digno de grandes eventos mundiais, não só no esporte, mas também como em festas cívicas ou diplomáticas. Importante como marco e pontapé inicial dos jogos, o estádio se caracterizou como um dos pontos altos do evento organizado na Colômbia, tendo logo em sua primeira aparição alcançado um público de mais de vinte mil pessoas. Como é destacado no calor do momento pelo periódico bogotano El Siglo,

Mas de 20.000 personas asistieron al Estadio de la Ciudad Universitaria para presenciar la inauguración de los Juegos. […] En forma solemne se inauguraron en la tarde de ayer los Juegos Deportivos Bolivarianos en el espacioso estadio universitario. Más de seiscientos deportistas que intervendrán en las competências bolivarianas, desfilaron frente a la tribuna presidencial – El Doctor Alfonso López declaró solemnemente inaugurados los juegos – La presentación en el estádio de las delegaciones  deportivas – El emocionante acto de suelta de las palomas que salieron em dirección a los países bolivarianos, anunciando la apertura de los juegos – Las ceremonias protocolarias efectuadas – El despliegue de las banderas, a los acordes de los himnos de los países particulares. (El Siglo, 06 de agosto de 1938, p. 9).

As partidas eram sempre muito exaltadas pela imprensa, que também destacava a beleza dos estádios e a importância desses para a efetivação dos jogos. Um exemplo foi a partida de futebol da seleção do Peru, que seria a campeã dessa modalidade, com a Colômbia. Tendo inaugurado o certame para os colombianos, alguns periódicos aproveitaram-se do fato de ser esse um dos jogos mais esperados até então para exaltar parte da organização e estrutura construída pelo país para o evento, como o próprio estádio El Campín.(El Espectador, 08 de agosto de 1938, p. 3). Como vemos nas páginas de El Espectador:

No menos de 50.000 personas concurreran esta mañana a la inauguración del grande estádio municipal <El Campín>, una de las hermosas realizaciones inauguradas em el centenário. […] Después de que las bandas ejecutaron el himno bolivariano, letra de Alfredo Gómez Jaime, se tocó el himno nacional, en el momento de entrada del presidente con su comitiva. Luégo se inició el desfile de Educación Física y la guardia olímpica […]. Fue digna de admiración la organización del tránsito y la que se desplegó para que el público pudiera entrar y salir com comodidad (El Espectador, 15 de agosto de 1938, p. 3).

Assim, fica notório o quanto o público foi importante para se consolidar os interesses, não só diplomáticos, mas também econômicos dos agentes fomentadores do evento. Se na inauguração do Estádio da Cidade Universitária estiveram presentes um número próximo dos 20.000 espectadores, em El Campín, esse número mais do que dobrou, deixando explícito a formação de um “mercado ao redor” do evento esportivo que se desenvolvia, característica essa importante para a consolidação do campo esportivo colombiano.

Estádio El Campín, em Bogotá, na atualidade. Foto: Reprodução/Twitter/IDRD.

Estadio El Campin. Foto Reprodução Twitter IDRD

Portanto, torna-se possível perceber, com os exemplos aqui explicitados na cidade de Bogotá, que são os estádios El Campín e Cidade Univeristária, o quanto a efetivação de espaços apropriados se faz importante para a construção de um público no futebol (e, de forma mais ampla, no esporte), contribuindo assim para a expansão e difusão de tais práticas no âmbito simbólico, cultural e identitário de uma determinada sociedade.

Referências bibliográficas

ACOSTA, Andrés. Elementos sociohistóricos intervinientes en la construcción de los estadios Alfonso López e El Campín para los primeros Juegos Bolivarianos: Bogotá, 1938. Revista Colombiana de Sociologia, Bogotá, v. 36, n. 01, p. 43-62, jan-jun 2013.

QUITIÁN ROLDÁN, David. Gaitán, el fútbol y la Universidad Nacional. En Asciende, Memorias Cátedra Jorge Eliécer Gaitán. Sociología 50 años. Clase 9. Universidad Nacional, Bogotá, 2009, p. 2-15.


eduardogomes.historia@gmail.com

Como citar

GOMES, Eduardo de Souza. O futebol nos Jogos Bolivarianos de 1938 II: a importáncia dos estádios El Campín e Cidade Universitária em Bogotá. Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 1, 2020.