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O futebol pode nos unir, mas cisgeneridade e gênero continuam a nos separar

Bernardo Gonzales

Lembro-me como se fosse hoje meu imenso amor por calçados que me permitiam chutar bolas ou quaisquer coisas que se parecessem com elas: pitchulas ou bolas feitas de papel isoladas com durex ou fita preta sempre nos serviam e cumpriam papel fundamental nos recreios da escola. Minha avó e minha mãe, abismadas com a duração dos meus calçados, sabiam do amor que dedicava à prática futebolística, mas não que a passionalidade desse amor me levava diariamente a correr e chutar coisas em todas as oportunidades que apareciam ou que eu, insistentemente, as criava tamanho meu prazer e contentamento. Foi assim até meus 11 anos de idade: disputei dezenas de campeonatos pela escola, nunca cheguei a entrar numa escolinha ou participar de algo mais sério porque o contra turno escolar servia para lições da escola e trabalhar na perua escolar que nos sustentava e comprava meus calçados, naquela idade achava coerente, embora hoje eu tenha absoluta certeza que esse é um fardo – o trabalho infantil – que nenhuma criança deva carregar.

Com 12 anos descobri, mesmo que inconsciente, que continuar a jogar futebol seria um exercício de resistência e muito amor. Numa dessas oportunidades diárias de correr e chutar bolas ou coisas na escola, umas das minhas colegas de classe e suas amigas produziram em mim o primeiro das dezenas de milhares de constrangimentos enquanto jogador – na época jogadora – e pessoa. Disse-me com uma falsa preocupação e intencional sarcasmo “está na hora de você usar sutiã!”. Todas elas riram e eu, bom, não preciso dizer o indizível. Depois dessa situação, eu descobri o que essa “colega” realmente queria ter dito: meu lugar de menina não era entre os meninos jogando futebol, meu lugar de mulher era usando sutiã e praticando uma modalidade, se assim desejasse, mais “feminina” e, veja, entre meninas.

Se me permitem a ironia, até agora não consegui responder essa questão sobre modalidades mais femininas ou masculinas; a ministra Damares, no seu infinito delírio, talvez acredite ter essa resposta. No momento entre a alegria de ser o que se é e o limbo que é saber que estão te constrangendo gratuitamente sem que eu pudesse esboçar qualquer reação, eu tive a mais inquestionável certeza que jogar futebol nunca mais seria a mesma coisa. E não foi. Dos anos 2000 a 2006 vivendo na periferia de São Paulo confirmei a intuição – verdadeira até os dias de hoje – de que mulheres no mundo do futebol precisam ser 10, 20, 50, 1000 vezes melhores que homens. Prestígio profissional/social, respeito e distribuição orçamentária são critérios relevantes e assimétricos no futebol brasileiro se comparado por gênero.

Festival Ocupa Pacaembu realizado em 2017. Foto: Bernardo Gonzales.

Eu não fui as 1000 vezes melhores que o machismo, a misoginia e a gordofobia exigiram de mim, ao contrário, sucumbi às tratativas degradantes que recebi na maioria dos jogos que disputei e então, com pouco incentivo dentro de casa mais as humilhações dentro das quadras e finalmente a necessidade de trabalhar, resultei na fórmula mágica do abandono do futebol como profissão. É bem verdade que aqui muitos meninos também abandonam o futebol como carreira, mas tão verdade quanto que para as pessoas designadas meninas ao nascer há um acréscimo significativo e doloroso que torna esse abandono infinitamente desproporcional.

Este não é um texto sobre como todas as experiências ruins arrancaram meu amor por jogar futebol, mas sobre como elas surtiram um efeito duradouro e revolucionário na minha existência e como, também, o futebol que ficou em mim urra por transição, tanto quanto a menina que morou em mim até meus 26 anos rompeu e transgrediu a lógica dando espaço para quem hoje escreve este relato: Bernardo, homem transexual, jogador de futebol amador e ativista para que a política, a sexualidade e as identidades de gênero continuem a entrar no jogo marcando a história do futebol e do mundo. Se me permitem o devaneio e o direito ao delírio é dessa perspectiva que este texto inaugural trata e que norteará todos os outros: andanças, transformações, reflexões coletivas e colaborativas, e uma profunda vontade que o esporte seja, efetivamente, espaço que acolhe as diferenças e faz delas belezuras radiantes, coloridas e que nos encham os olhos e a mente da mais inenarrável certeza: podemos estar, sem exceção, onde quisermos estar, sobretudo, jogando nossos futebóis.