26.9

O Futebol-Poema sempre em construção

Marcos Marques dos Santos Júnior

Em Merleau-Ponty, o corpo é obra de arte e sua linguagem é poética. Merleau-Ponty define um olhar expressivo sobre o corpo, configurando uma linguagem sensível que é expressa nos movimentos.
Terezinha Petrúcia da Nóbrega

Ao ver o mundo o poeta Manoel de Barros traz consigo uma infinitude de relações que não estamos acostumados a ver por aí. Ele lança um olhar bem diferente às coisas, artista plural, parece que ao escrever “grita suavemente ao mundo convidando-o a vestir os óculos”, não àqueles que curam dos distúrbios da visão, convida-nos a vestir, por exemplo, os óculos de uma cobra ela que pouco vê, mas “fareja” muito. Esse olhar de Barros não é seletivo nem preconceituoso, mas sim agregador, um olhar consequente, um “olhar cheiroso” que busca algo com fungadas como os gatos que ao farejar até vemos suas narinas se dilatarem. Essas relações de Barros trazem também a humildade, pois ficamos em equivalência com a natureza, sem hierarquias inúteis.

Tostão no Museu do Futebol. Foto: Sérgio Settani Giglio.

“Opero por semelhanças
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.”
MANOEL DE BARROS
(Desejar ser VIII)

Neste ensaio tentaremos ficar em conectividade com a poesia de Manoel de Barros, na linguagem dele poético-escrita vemos uma busca de contato com as essências da natureza, encontros poéticos entre o homem e ela, com a primeiridade, ali, onde está a qualidade em todas as linguagens.

O filósofo francês Merleau-Ponty via o corpo como uma obra de arte, opondo-se à visão dos tempos da mecânica clássica onde o corpo era percebido como um maquinário dividido em partes; com uma visão também de totalidade o poeta João Cabral de Melo Neto cria em um de seus poemas de título ESCRITOS COM O CORPO uma situação de encontro entre um “corpo completo” (no sentido de corpo total, ou seja, corpo é mais que partes) e a frase “ela”, também em um sentido de completude na construção da sintaxe. Escutemos, pois Melo Neto:

ESCRITOS COM O CORPO

Ela tem tal composição
e bem entramada sintaxe
que só se pode apreendê-la
em conjunto: nunca em detalhe.

Não se vê nenhum termo, nela,
em que a atenção mais se retarde,
e que, por mais significante,
possua, exclusivo, sua chave.

Nem é possível dividi-la,
como a uma sentença, em partes;
menos do que nela é sentido,
se conseguir uma paráfrase.

E assim como, apenas completa,
ela é capaz de revelar-se,
apenas um corpo completo
tem, de apreendê-la, faculdade.

Apenas um corpo completo
e sem dividir-se em análise
será capaz do corpo a corpo
necessário a quem, sem desfalque,

queira prender todos os temas
que pode haver no corpo frase:
que ela, ainda sem se decompor,
revela então, em intensidade.
Melo Neto (1920)

Rivaldo no Museu do Futebol. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Em outra parte do mesmo poema Melo Neto aprofunda cada vez mais a relação entre a “frase-ela” e o “corpo-ele”, também se refere à frase como uma seda que cobre o corpo, vejamos:

Quando vestido unicamente
com a macieza nua dela,
não apenas sente despido:
sim, de uma forma mais completa.

Então, de fato, está despido,
senão dessa roupa que é ela.
mas essa roupa nunca veste:
despe de uma outra mais interna.

é que o corpo quando se veste
de ela roupa, da seda ela,
nunca se sente mais definido
como com as roupas de regra.

Sente ainda mais que despido:
pois a pele dele, secreta,
logo se esgarça, e eis que ele assume
a pele dela, que ela empresta.

Mas também a pele emprestada
dura bem pouco enquanto véstia:
com pouco, ela toda também,
já se esgarça, se desespessa,

Até acabar por nada ter
nem de epiderme nem de seda:
e tudo acabe confundido,
nudez comum sem mais fronteira
Melo Neto (1920)

Acima vimos uma situação onde se emaranharam corpo-frase e frase-corpo. No próximo texto tentarei fazer as seguintes relações: os movimentos individuais dos jogadores de futebol e movimentações coletivas (FC Barcelona) também dos jogadores serão vistos respectivamente como versos compostos individualmente e como estruturas poéticas (poesia concreta) compostas coletivamente, dentro de um grande poema sempre em construção que é o Futebol.

Referências
Melo Neto, João Cabral de, 1920- Antologia poética 7. Ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1989.

Nóbrega, Terezinha Petrúcia da. Merleau-Ponty: O corpo como obra de arte. Disponível em: www.principios.cchla.ufrn.br/08P-95-108.pdf

Como citar

SANTOS JúNIOR, Marcos Marques dos. O Futebol-Poema sempre em construção.