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O futebol: reflexão a partir de Eduardo Galeano

Daniela Ribeiro

O futebol

A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. Ao mesmo tempo em que o esporte se tornou indústria, foi desterrando a beleza que nasce da alegria de jogar só pelo prazer de jogar. Neste mundo do fim de século, o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável. Ninguém ganha nada com essa loucura que faz com que o homem seja menino por um momento, jogando como o menino que brinca com o balão de gás e como o gato brinca com o novelo de lã: bailarino que dança com uma bola leve como o balão que sobe ao ar e o novelo que roda, jogando sem saber que joga, sem motivo, sem relógio e sem juiz.

O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue. A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia.

Por sorte ainda aparece nos campos, embora muito de vez em quando, algum atrevido que sai do roteiro e comete o disparate de driblar o adversário do time inteirinho, além do juiz e do público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança na proibida aventura da liberdade.

O texto acima foi escrito por Eduardo Galeano e publicado no livro “Futebol ao sol e à sombra”, em 1995. As considerações feitas por ele são muito atuais e boas para serem debatidas.

Meninos jogando bola em Makuyu, Quênia. Foto: Belle Maluf/Unsplash.

Ao falar do futebol, o autor já inicia nos mostrando o contraste entre o prazer e o dever, e segue sua reflexão com uma crítica a respeito da profissionalização, que hoje consideramos como efeito do “futebol moderno”, ligado aos grandes empreendimentos e empresas que tornaram a prática associada à rentabilidade.

Mediante isso, ele desenha em nosso imaginário a imagem do jogador que por um momento vira menino que brinca e dança com a bola, se perdendo no tempo e colocando em suspensão as regras. Mas logo após, nos lembra que o futebol se tornou um espetáculo lucrativo, o qual é feito para “impedir que se jogue”, é portanto em relação ao jogo livre e divertido colocada uma barreira que limita as possibilidades criativas.

Pensando sobre a regra e o desvio, podemos observar a interpretação feita por Howard S. Becker, em Outsiders. Para ele, o desvio é “produto de uma transação que tem lugar em algum grupo social e alguém que é visto por esse grupo como infrator da regra”, sendo assim, “não é uma qualidade que reside no próprio comportamento, mas na interação entre a pessoa que comete um ato e aquelas que reagem a ele”. Existe o desviante e os que são considerados desviantes. Para o autor, as pessoas sempre impõem regras umas para outras, essas regras variam e isso caracteriza o desvio como desvio. Desta forma, o desvio é criado pelas reações a um comportamento, as regras criadas e mantidas por esse rótulo tornam-se objeto de conflito.

Quem estabelece o que é aceito ou não dentro do futebol ? Quem cria as regras do esporte? Como o jogador deve ou não jogar? A avaliação dos atletas, o rendimento esperado, a dinâmica em campo, o tempo de trabalho de cada treinador, as contratações.Tudo se relaciona aos números, inclusive o retorno financeiro. Tais mudanças, ocorridas não só no modo de jogar mas também de torcer, trazem consigo um processo de transformação histórico, político, econômico e social. Se quem comanda o futebol é o dinheiro, as grandes empresas decidem como será praticado esse esporte, e o clube tem que fazer valer o investimento.

Futebol negócio. Foto: Reprodução/ANS.

Portanto, o futebol vira um negócio que tem como agentes técnicos, imprensa, jogadores, diretoria, presidentes, políticos e principalmente os investidores, e se o jogador ou o técnico não renderem o esperado, eles certamente serão dispensados. O modelo de jogo por vezes acaba sendo mecânico e repetitivo, mas o que importa são os pontos na tabela. A liberdade do jogador em campo é cercada pelas cobranças e pela busca de resultados.

Como resultado desse cenário de profundas mudanças estruturais, podemos ver também a pressão política das torcidas, política no sentido de exercerem seu poder de colocar em questão as imposições destinadas a todos nós que vivemos o futebol, nas suas alegrias e tensões, e é esse poder coletivo que nos faz sermos críticos e refletir sobre esse esporte.

Ao final de seu texto, Galeano evidencia que ainda aparece, às vezes, algum jogador que desafia essa barreira posta pela tecnocracia. Assim como o jogador citado, que configura um efeito dialético sobre a prática do esporte mediante a profissionalização, eu incluo a torcida organizada dos diferentes clubes, e os coletivos formados diante desse cenário de intensificação do neoliberalismo, como participantes nesta análise não só da referência a Eduardo Galeano, mas também da nossa realidade. Afinal, são esses desviantes que enfrentam as regras colocadas e confrontam o futebol moderno.

 

Referências

BECKER,Howard S. Outsiders. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2008.

GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Editora L&PM, Porto Alegre, 2014.