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O futebol vai voltar: notas sobre o VAR e Black Mirror

Carlos Augusto Magalhães Júnior

Finalmente, uma das grandes ligas europeias de futebol anunciou seu retorno. A Bundesliga, liga alemã, depois de algumas discussões resolveu retomar suas atividades no último sábado dia 16 de maio de 2020. O jogo de reinício foi um prato cheio para o fã de futebol. O clássico do oeste Schalke 04 X Borussia Dortmund, com uma rivalidade entre clubes que representam não só as cidades vizinhas de Gelsenkirchen e Dortmund, mas uma carga histórica de rivalidade entre cristãos e protestantes e até apoiadores do Nazismo x contrários ao regime ditatorial.

A ansiedade pela volta de bons jogos de futebol vem acompanhada de uma série de questionamentos e incertezas sobre sua segurança. Algumas grandes ligas, como a francesa e a holandesa preferiram encerrar suas temporadas, já a alemã, optou por, diante de alguns protocolos de segurança retomar as partidas. Acompanhando o processo de volta dos jogos, a FIFA, através de seu órgão, International Board, permitiu algumas mudanças na estrutura do jogo. A mudança que ganhou mais destaque na Imprensa foi o aumento de 3 para 5 substituições, desde que respeitadas apenas três paralisações para fazê-las. Uma outra mudança, anunciada pela FIFA, e que teve menos repercussão foi a desobrigação do uso do Árbitro de Vídeo (VAR) nos campeonatos que forem se encerrar ainda este ano. Implementação recente no futebol, na contramão na maioria dos esportes, o VAR não se tornou, de modo algum, unanimidade. Torcedores, jogadores e até mesmo comentaristas esportivos têm questionado como o VAR estaria “deixando o futebol sem graça”. Em que pese o despreparo de alguns campeonatos em lidar eficientemente com essa nova tecnologia, é inegável que o uso do mesmo traga um maior senso de justiça para o jogo. Curiosamente, o momento de adaptações para a volta do futebol parece ser também um momento tranquilo para retirar o uso do VAR sem muita resistência dos fãs do futebol.

O argumento utilizado para justificar a dispensabilidade do VAR seria a impossibilidade de utilização dos protocolos de segurança, devido ao fato de os árbitros ficarem em cabines fechadas, o que demandaria novos protocolos de segurança. O argumento, embora tenha pontos verdadeiros, não se sustenta na medida em que poderíamos pensar que uma testagem em massa entre os árbitros poderia solucionar o problema, assim como será realizado com os demais envolvidos nas partidas. O que o episódio aparenta sinalizar, é uma negação da importância do VAR para a lógica do futebol. Essa opinião, aparentemente predominante entre aqueles que fazem o futebol (comentaristas, torcedores e demais envolvidos), parece ter encontrado a brecha para se consolidar.

Curiosamente, pensando a utilização de novas tecnologias pelo esporte, o momento de volta de campeonatos pelo mundo também pareceu fértil para inovações. Na Dinamarca, com a volta do campeonato, mas diante da impossibilidade de torcida durante os jogos, como nos demais países, o AGF parece ter encontrado a solução. O clube venderá, para o clássico contra o Randers, lugares virtuais na arquibancada. Os torcedores interessados baixarão um ingresso virtual e assistirão ao jogo conectados à plataforma “Zoom”. No estádio, um grande telão projetará todos os torcedores, na tentativa de que os jogadores possam “ver e sentir o apoio”.

Captura de tela do episódio “Fifteen Million Merits”, da série ”Black Mirror”. Foto: Wikipedia.

Ao projetar o estádio no clássico dinamarquês, só consigo me lembrar da imagem do episódio “15 milhões de méritos” da série britânica “Black Mirror”. Nesse episódio, que é o segundo da primeira temporada, embora não haja explicitamente o anúncio de uma pandemia, os personagens vivem em minúsculos cubículos, que, através de projeções virtuais, substituem o contato dos mesmos com as outras pessoas e com demais espaços externos. Curiosamente, o único momento que as pessoas se encontram efetivamente é numa espécie de ambiente de trabalho, onde a grande maioria pedala em bicicletas ergométricas para produzir energia. O desenrolar da trama leva-nos a uma situação de apresentação de um programa de auditório ao estilo “Talent show”, onde várias pessoas tentam demonstrar suas habilidades para um trio de jurados. O curioso da situação é que a plateia é justamente uma projeção holográfica das pessoas assistindo ao programa em suas casas. Essa analogia entre a série e a volta do futebol permite-nos questionar: com quais objetivos e interesses as tecnologias têm sido utilizadas? Adorno e Horkeheimer (1985), ainda no início do século, podem nos ajudar a responder: A ideia de ‘esgotar’ as  possibilidades técnicas dadas, a ideia da plena utilização de capacidades em vista do consumo estético massificado, é própria do sistema econômico que recusa a utilização de capacidades quando se trata da eliminação da fome”.

Referências

ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Trad.: Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.