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O gol sofrido, o gol chorado

Leandro Marçal

Ela bateu na trave antes de entrar. Na parte de dentro da trave. Foi para o gol bem devagar. O mundo não girava mais. Acho que os deuses pausaram o dia com o controle remoto do videocassete. Depois, apertaram o play e a vida seguiu em câmera lenta. Porque eles sabem que não inventaram nada melhor que o bom e velho videocassete.

Deve ser por lá que eles assistem o bate-rebate dentro da área. O goleiro pega uma, duas vezes. Ela não desiste e entra sem tocar a rede. É um gol protocolar. Sofrido, chorado. Como a conta dos trocados para o aluguel, água, luz, comida. Sem direito a plano de saúde, lanche, viagem e outros luxos.

O gol chorado é o pagamento sofrido ao fim do mês. As contas que não fecham, os pedidos de salvação, as somas com outros orçamentos para seguir vivos na competição.

O gol sofrido é a conquista demorada, depois de tantos sacrifícios. Não tem hora para chegar, mas preferia que tivesse batido à porta bem antes. Não é tarde, não. Nem acreditava mais. Não ia ter gol, ar, milagre.

O gol chorado é a ligação da empresa, avisando que fui contratado, depois de meses de desemprego. Saía com dez envelopes pardos e um currículo dentro deles. Distribuía e ainda enviava por e-mail. Ninguém retornava.

golchorado

O gol sofrido, o gol chorado. Foto: Freepik.

O gol sofrido é a gravidez eterna. E quando chega a hora, as dores tomam conta da mãe. E quando a torcida prepara o grito entalado, a ansiedade arrepia os fios do pai. E quando a bola chega à linha tênue entre a comemoração e o lamento, o medo se esconde atrás de uma árvore. Os familiares acompanharam exames, chás e a escolha do nome. Relembram a campanha vitoriosa para chegar até ali.

O gol chorado prova que preciso treinar mais. Chegaria mais preparado para superar os zagueiros, chutaria mais forte que o voo do goleiro, estaria à frente dos adversários em toda corrida até a bola.

Mas é o trabalho, a família, o cansaço, o descanso, a vida sentimental. A correria fora do campo, a ligação, a mensagem, os compromissos. Meu máximo nunca é o suficiente. Quero ver cada gomo da bola se arrastando um pouco mais rápido, passando a risca, sendo buscada por alguém de luvas. Falta pouco.

Ninguém se sente preparado para superar um monte de pernas. Tentam derrubar dentro da área, o juiz finge que não vê. Buscam desestabilizar, mas não posso ficar fora desse jogo. E no final de tudo, ainda tem um goleiro para atrapalhar, um zagueiro para afastar e uma trave, como o destino, para desanimar. Não vão conseguir.

Mesmo um gol sofrido, mesmo um gol chorado, para mim é golaço. Não vou parar de correr.