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O goleador do punho cerrado

Roberto Jardim

O contato com a bola foi coisa de família. O irmão mais velho, Mário Lúcio, jogava no Botafogo do Rio e lhe presenteou com uma quando era pequeno. Dela não se desligava nem quando dormia. Já o contato com a realidade do Brasil e o embasamento político vieram, certamente, dos vizinhos.

Primeiro, aos sete anos, com a movimentação militar nos primeiros dias do golpe de 1964. Seguido pela prisão de um morador da mesma rua em que vivia a família Lima, na interiorana Ponte Nova (MG). Além disso, já na entrada da vida adulta, ter como vizinha uma família ligada à oposição à ditadura e ao movimento da Teologia da Libertação trouxe subsídios para a sua conscientização política.

O certo é que dormir com a bola fez daquele garoto, tido como um fenômeno na sua cidade natal, um dos principais jogadores da sua geração, capaz de fazer a torcida apelidá-lo de Rei. Já o choque de realidade e as conversas com os vizinhos transformaram-no em um dos principais atletas de futebol brasileiro a se engajar na luta pela volta da democracia.

Assim, nascido José Reinaldo de Lima, em 11 de janeiro de 1957, o pequeno Zé, que jogava futebol pelas ruas e campos de Ponte Nova e era reconhecido pelo seu talento com a bola nos pés, virou Reinaldo, promessa de craque. Ao mesmo tempo, garoto ainda, era apresentado ao regime militar, e já quase adulto ao socialismo e outras teorias políticas.

Então, de promessa à craque, virou Rei, até ter seu talento ceifado pelos zagueiros toscos. Artilheiro nato, fez história no Atlético-MG apesar das inúmeras lesões. Mas não só dentro de campo. Inteligente, aproveitou a fama repentina para dar seu recado. Aos 20 anos, passaria a comemorar seus gols, que não eram poucos, com um gesto de protesto. Virou marca registrada. A cada bola na rede lá vinham o punho direito cerrado erguido e o braço esquerdo esticado junto ao corpo.

– Era um gesto de protesto, de resistência em meio àqueles dias que vivíamos – resume, por telefone, com a timidez típica do interior mineiro.

Foi aconselhado, diversas vezes, a não misturar futebol e política. Jamais deu ouvidos. Por conta disso, perdeu a titularidade na Seleção Brasileira que disputava a Copa do Mundo de 1978, na Argentina, em meio a ditaduras, lá e cá.

Mesmo assim, não deixou de erguer o punho fechado. Pelo menos quando os marcadores não o paravam com faltas violentas antes de colocar a bola na rede. Também não deixou de falar abertamente da necessidade de democracia e liberdade. Pelo menos sempre que foi instigado a fazer. Por isso, faz parte do nosso escrete, deslocado da posição de centroavante para a de meia-atacante, com o mítico número 10 às costas.

A bola ao lado da cama

Como a maioria dos jogadores de futebol, Reinaldo, que quando criança era conhecido como Zé, veio de família modesta. Seu pai, Mário Lima, trabalhava na chefia da estação ferroviária de Ponte Nova. Sua mãe, Maria Coeli, era escriturária na Companhia Industrial Ouro-Pretana de Luz e Energia.

Ele era o sexto dos oito filhos do casal: Regina, Lauro César, Mário Lúcio (aquele que lhe deu uma bola de presente), Rosane Maria, Maria Carmem, ele, Antônio Márcio e a caçula Nélia Lúcia. Apesar da quantidade de filhos e dos empregos simples, os Lima não passavam necessidades.

Ainda na Ponte Nova, Zé começava a dar os primeiros passos para virar Reinaldo. Desde pequeno, demonstrava talento com a bola nos pés. Jogava dia sim, outro também. Antes da aula. Nos intervalos. Dentro das salas da escola. Depois do colégio.

Nos finais de semana, então, nem se fala. Inteligente e disciplinado nos estudos, só uma coisa o fazia esquecer os livros da escola e a lição de casa: a pelada na rua com os amigos.

– Eu não largava a bola. Dormia com ela ao lado da minha cama. Assim que acordava, já pulava a janela do meu quarto, que dava para a rua, e ia jogar – lembrou ao filho Philipe Lima, na biografia Punho Cerrado – A História do Rei.

Com os dias, seu talento para o futebol passou a ser conhecido na cidade. Praticamente ao mesmo tempo, era apresentado à realidade brasileira. Aos sete anos sofreu seu primeiro choque.

Entre a noite de terça, 31 de março, e a manhã de quarta-feira, 1º de abril de 1964, o Brasil entraria em um dos períodos mais tenebrosos da sua História, a ditadura militar que se instalou até 1985. Naquela quarta, logo cedo, o pequeno Zé presenciou a truculência em frente à sua casa. Ele ainda lembra daquele momento.

– Acordei naquele dia e, como sempre, peguei a bola para ir jogar na rua. Na frente da nossa casa estava um soldado armado. Na época não me dei conta do que podia ser. Era criança ainda – conta.

E, em seguida, acrescenta:

– Depois, fiquei sabendo que os soldados estavam ali numa operação para prender um vizinho, que era acusado de ser comunista. Aos sábados, ele passeava de jipe pelas redondezas, levando a criançada. Ele sempre tinha um rádio amador com ele. Levava os meninos para passear no campo de aviação. Enquanto a gente ia jogar bola ou empinar pipa, ele ficava no rádio.

O vizinho era o funcionário do Banco do Brasil Morethson Jose Barbosa, que recentemente teve seu nome incluído no relatório da Comissão da Verdade de Minas Gerais como um dos 1.531 presos políticos do Estado no período do regime militar.

Das peladas da rua para o primeiro clube

Dois anos depois, Reinaldo entrava para a escolinha do Clube Primeiro de Maio. Em entrevista ao jornal Estado de Minas, em janeiro de 1978, seu primeiro técnico, José Gomes de Freitas, o Zé Polifina, comentava:

– Ele sempre teve pinta de craque. Aos dez anos, já era melhor jogador do time. Nunca foi preciso que eu lhe desse orientação especial. Era daqueles que desequilibram uma partida em poucos minutos.

Treinava e disputava as partidas de domingo pelo clube. Durante a semana, nos horários de folga, seguia batendo bola na rua, com os amigos. Com o fim das atividades do juvenil do Primeiro de Maio, em 1970, Reinaldo foi convidado para jogar com o Pontenovense, passando a conviver com atletas mais velhos.

Com isso, aprendeu a malícia dos mais experientes. Aos poucos, veio o sonho de virar profissional. E o sonho veio bater na porta da sua casa. Em setembro de 1971, com apenas 14 anos, já jogava havia mais ou menos um ano entre os adultos, quando o juvenil do Atlético-MG, seu clube do coração, esteve em Ponte Nova.

Mesmo sem jogar naquele dia, sua fama chegou aos ouvidos de João Lacerda Filho, o Barbatana, técnico descobridor de talentos. O entusiasmo dos torcedores da cidade fez com que ele chamasse o diretor do Galo Sinval Martins para conversar com o treinador do Pontenovense, o espanhol Mighel Trinchano, que teria dito:

– Com a idade que tem e com este futebol todo, não é algo comum. Se você for levá-lo para o Atlético, estará levando um fenômeno.

Experiente, tendo trabalhado inclusive na Europa e sabendo que o irmão do garoto jogava no Botafogo e que podia levar o fenômeno para lá, Barbatana quis conhecer o menino. O dia era 7 de setembro, e Reinaldo participava do desfile cívico.

Ao encontrar o garoto, foi logo dizendo que queria levá-lo para um teste no Atlético. Tímido e desconfiado, o menino alegou precisar do aval da mãe. Dito e feito, Barbatana e Sinval conversaram com dona Maria Coeli e conseguiram levar Reinaldo para Belo Horizonte.

Assustado, sem saber o que encontraria na capital mineira, o futuro craque passou a primeira noite em um hotel no Centro. Depois, foi transferido para o alojamento do antigo estádio Presidente Antônio Carlos, hoje um shopping center.

Do teste ao Reinaldo Rei

No dia seguinte à chegada à capital mineira, foi levado para o teste. Mesmo com apenas 14 anos, foi colocado para jogar entre os juvenis (atual sub-19). O adversário seria a equipe profissional, comandada por ninguém menos que Telê Santana. O time que viria a ser campeão brasileiro meses depois contava com o centroavante Dario – grande ídolo da torcida –, Vantuir, Grapete e Oldair, entre outros.

– Entrei faltando 20 minutos. Já comecei dando toques de primeira, dribles e fazendo gol. Peguei uma bola na entrada da área, balancei na frente do Oldair, passei e bati forte. Minha atuação chamou a atenção de todo mundo – lembra, sem modéstia.

Abusado, Reinaldo havia dado duas janelinhas em Grapete, considerado o melhor zagueiro de Minas Gerais à época. A atuação revoltou os profissionais. Quem conta a Philipe Lima é Dario, aquele que pairava no ar como um beija-flor e um helicóptero:

– Vantuir deu um soco na cabeça dele. E o Grapete tentou uma tesoura. Eu tive que pedir que fossem devagar. Eles ficaram muito irritados!

O teste impressionou Telê que foi logo dizendo para Barbatana:

– Não precisa mais do que isso!

À revista Placar de 1º de julho 1977, o descobridor de talentos contou que Reinaldo lembrava jogadores do passado, como o argentino Di Stefano e o brasileiro Zizinho:

– Quando Reinaldo, com um drible só, deixou dois beques entortados e entrou livre na área, disse comigo: “esse vai ser grande”.

Começava ali, em 1971, a carreira de Reinaldo no Galo. Ainda nos juvenis, ele teria como parceiros de equipe o atacante Marcelo de Oliveira, hoje técnico de futebol, o volante Toninho Cerezo, além de outros como Heleno, Silvestre e João Leite.

Em 1972, foi para o infanto-juvenil. No mesmo ano, faria sua estreia no estádio que virou sua casa, o Mineirão. Na preliminar de um jogo do time principal do Atlético, a equipe de Reinaldo e companhia enfrentava o América-MG. Não deu outra:

– Lembro do meu primeiro gol no Mineirão. Recebi um lançamento e dei um corte no zagueiro. Em seguida, bati de fora da área.

A torcida queria saber quem era aquele menino de futebol clássico, habilidoso, com toques refinados, dribles curtos e rápidos e com faro de gol. Suas boas atuações passaram a chamar a atenção e despertar curiosidade.

No começo de 1973, logo após completar 16, foi chamado para o time profissional. A ascensão foi rápida. E o aparecimento das primeiras grandes lesões também. Começou com uma torção no tornozelo esquerdo, naquele mesmo ano. Depois, veio uma série de intervenções nos dois joelhos – primeiro no esquerdo e, depois, no direito –, com as retiradas dos quatro meniscos. Isso tudo antes dos 19 anos.

Ele só foi se consolidar como craque, ganhando o grito “Rei, Rei, Rei, Reinaldo é nosso Rei”, em 1976. Até então, era uma promessa. Mesmo assim, da sua estreia nos profissionais, em 28 de janeiro de 1973, até sua despedida do Galo, em 1985, seriam 475 partidas e 255 gols. A conta só não é maior devido aos períodos passados no departamento médico do Atlético.

Das lesões ao punho cerrado

Os períodos de lesão acabaram dando tempo para Reinaldo conhecer um pouco mais do Brasil. Interessado que era, passou a tentar entender a situação que o País vivia. A leitura foi fundamental, mas a convivência com alguns vizinhos opositores ao governo militar acabou sendo mais esclarecedora.

Assim, durante os dias em casa, aproveitou para ler bastante, além de conversas com o juiz aposentado Antônio Carlos Christo, e seus filhos, Leonardo e Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto.

– Aí, sim, tive um primeiro contato mais forte com a política. Meu pai e minha mãe pouco falavam desses assuntos em casa. Nessa época, mais ou menos, começaram a surgir os movimentos da juventude, pedindo democracia, contra a ditadura. Então, eu amadureci em meio a esse ambiente… – recorda durante uma conversa por telefone.

Aqui vale um parêntese: Frei Betto é conhecido pela Teologia da Libertação, movimento surgido dentro da Igreja Católica e que buscava um diálogo com as ideias marxistas, visando a justiça social. Até hoje, é atuante. Fecha parêntese.

O artilheiro lembra que essas temporadas de molho serviram como uma verdadeira escola de conscientização política:

– Nós falávamos muito da situação do País, dos movimentos de luta pela democracia.

A convivência com a família Christo fez com que Reinaldo entendesse a importância de se posicionar frente à alienação e à opressão pela qual os brasileiros passavam.

– Isso foi mais ou menos entre 1974 e 1975. Quando voltei a jogar, em 1976, comecei a comemorar o gol com o gesto do punho direito cerrado. Na verdade, é um gesto socialista, né? Como tinha repressão, não tinha espaço para esse tipo de símbolo – recorda ao falar de como surgiu sua marca registrada na hora de comemorar os gols.

Ele prossegue:

– Então, passei a dar uma conotação política à comemoração. Uma coisa meio Black Power, que era dos negros norte-americanos.

Reinaldo cita o movimento dos Panteras Negras, que surgiu no final dos anos 60 nos EUA para lutar contra a segregação racial. O gesto ficou mundialmente famoso quando dois atletas negros, Tommie Smith e Jonh Carlos, ambos ligados ao grupo, ergueram seus braços para comemorar a conquista das medalhas de ouro e bronze nos 200m nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, em 1968.

Reinaldo aproveitou aquele gesto para fazer uma alusão ao socialismo, uma representação da sua insatisfação ao quadro político do Brasil.

– O objetivo era colocar o dedo na ferida – resume.

Pesquisando sobre o punho cerrado, aprendeu que era um gesto revolucionário, usado por movimentos socialistas em vários pontos do mundo.

– Na primeira vez que fiz, muita gente queria saber o que significava. Algumas vezes, disse que era apenas um protesto racial. Sabia que aquilo incomodava e que gente do governo queria saber se eu fazia parte de algum grupo revolucionário – recorda ao falar da comemoração característica.

Se grande parte da torcida não entendeu a manifestação, setores conservadores da política brasileira, da oposição e os intelectuais de esquerda captaram o recado. Com os dois últimos, angariou simpatia, passando a ser procurado, principalmente, por artistas e jornalistas. Aproveitou as entrevistas requisitadas para falar sobre a situação do País e defender a volta da democracia.

Com os primeiros, porém, ganhou críticas e sugestões para não misturar futebol com política. Ao mesmo tempo, notícias falsas – é, fake news não é tão novidade assim – contra o craque começaram a circular. O recado e a pressão, porém, não o intimidaram. Ele explica:

– Fiquei isolado, sofrendo todo tipo de ataque, mas achava que mesmo sob pressão, não podia voltar atrás. Até porque, para mim, o ídolo é um homem como qualquer outro e deve ter um posicionamento enquanto cidadão.

Na seleção de um milico

A retomada da carreira foi arrasadora. Somando os dois anos após a volta das lesões, foram 85 gols em 99 partidas – 43 em 1976 e 42 em 1977. Vinte e oito deles foram marcados em 18 partidas do Brasileirão de 1977 – o Atlético foi o primeiro vice-campeão invicto, perdendo o título nos pênaltis, para o São Paulo – os dois jogos decisivos terminaram 0 a 0.

Por conta dos 85 punhos erguidos, não teve como a CBD – antecessora da CBF –, comandada pelo almirante Heleno Nunes, fechar os olhos. Reinaldo era nome certo para a Seleção Brasileira.

Em 30 de maio de 1977, o artilheiro mineiro era chamado pela primeira vez. O técnico Cláudio Coutinho não teve como não convocar metade do time do Atlético, que vinha jogando o fino da bola, como se falava então. Além do camisa 9, foram chamados Toninho Cerezo, Marcelo Oliveira e Paulo Isidoro, todos do Galo.

Às vésperas de mais uma Copa do Mundo, o time de Coutinho, que era militar, vinha jogando mal. Não convencia. Apenas na terceira partida como convocado, contra a Polônia, Reinaldo fez seu primeiro jogo como titular. Fez a equipe jogar bem e marcou um gol na vitória por 3 a 1. Mesmo assim, não conquistou lugar certo.

Até porque, tinha como concorrente o também craque e goleador Roberto Dinamite. Para piorar a disputa, Dinamite jogava no Vasco, time do coração do milico que comandava a CBD.

Credenciado, porém, pela média 1,55 gols no Brasileiro de 1977, Reinaldo foi chamado mais uma vez, em fevereiro do ano do Mundial, para o grupo preparatório. Foi realizada uma série de amistosos visando a Copa disputada no país vizinho, que também sofria sob ditadura.

Apesar das críticas, ao time, ao esquema e a Reinaldo, que não vinha marcando gols por estar isolado no ataque, Coutinho confirmou o 9 do Galo como titular da Copa. O mineiro não vinha atuando bem não só pelos problemas táticos, o joelho esquerdo voltava a incomodar. Com receio de perder a chance de disputar um Mundial, Reinaldo sofria calado.

A pressão da imprensa contra o craque mineiro e o risco de corte por causa do joelho somavam-se a outro problema: a sua insistência em se posicionar politicamente. Isso porque o governo vinha exercendo grande influência no futebol desde 1970. A entrada de militares nas comissões técnicas e cargos diretivos da Seleção e dos times indicavam uma linha.

A ditadura queria os jogadores como exemplos. Deveriam ser atletas. Não podiam ter barba nem cabelos grandes – um dos motivos que levaram o Botafogo a afastar Afonsinho, no início dos anos 70 –, muito menos mostrar alguma ligação com a política. Os jogadores deveriam ser subservientes e seguir estritamente as ordens do treinador.

Em março de 1978, o jornal O Movimento, abertamente opositor ao regime militar, publicou uma entrevista com Reinaldo, na qual o atleta defendia uma assembleia constituinte e a democracia. O craque do Atlético também pedia uma maior participação da população nas decisões políticas do País. Ele ainda criticou os cartolas, afirmando que os dirigentes só visavam o benefício próprio, explorando o principal elemento do futebol, o jogador.

Na sequência, Heleno Nunes, ligado à Arena, defendeu o corte do craque. Ele falou à imprensa:

– Reinaldo não possui as condições físicas exigidas para uma competição de alto nível.

O camisa 9, porém, deu a resposta em campo. Em 1º de maio, o Brasil recebeu o Peru, no Maracanã. Reinaldo entrou aos 13 da etapa final. Na vitória por 3 a 1, marcou os dois últimos gols, garantindo o passaporte para a Argentina.

O gol em Mar del Plata

Dias depois, às vésperas do Mundial, a Seleção Brasileira passou por Porto Alegre. Durante a estadia no Rio Grande do Sul, no dia 25 de maio, os comandados de Cláudio Coutinho enfrentaram a seleção gaúcha no Beira-Rio. O jogo terminaria 2 a 2, após o Brasil abrir 2 a 0. Depois da partida, a delegação partiria para o país vizinho.

Não sem antes ser recebida pelo ditador de plantão. Como seria impraticável um desvio na rota para ir até Brasília, o presidente do Brasil, general Ernesto Geisel, veio ao Sul.

Jogadores, comissão técnica e dirigentes da CBD foram recebidos no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. Em meio ao encontro, o ministro da Educação, Ney Braga, que já conhecia Reinaldo, o chamou em uma sala reservada. Lá estava ninguém menos que Geisel, que perguntou:

– Então é esse o menino?

E, tentando usar de sua autoridade presidencial, com um tom intimidador, fez um alerta, como recorda Reinaldo por telefone:

– Foi uma coisa meio protocolar. Ele estava com a farda verde oliva. Fez alguns elogios ao meu futebol e aproveitou para dizer que eu não deveria falar de política porque disso eles, os militares, cuidavam. “Você tem é que jogar bola”, me disse. Como o tom era bastante imperativo, fiquei meio assustado e não respondi nada.

O conselho voltou a se repetir em território argentino, pouco antes da estreia, contra a Suécia, no dia 3 de junho, em Mar del Plata. A chefia da delegação era composta por, pelo menos, um dirigente indicado pelas Forças Armadas, o diretor de futebol André Richer, ex-presidente do Flamengo e futuro presidente do Comitê Olímpico Brasileiro.

– Lá na Argentina, voltaram a mandar o recado. Nada de ameaças. Mas o André, diretor da CBD, me aconselhou a não comemorar o gol da forma como vinha fazendo. E sugeriu: “Comemora de braços abertos que é mais bonito”. Ele disse que eu tinha que ser mais cauteloso, preocupar-me apenas com o futebol – conta.

A preocupação não era só com a situação política no Brasil, mas também com a da Argentina. O país sede do Mundial vivia, desde março de 1976, uma das mais duras ditaduras da época. Os relatos de sequestros, torturas, desaparecimentos e mortes eram comuns – Reinaldo, por seu posicionamento conhecido, chegou a receber documentos denunciando a situação argentina e de outros países da região que também viviam sob ditaduras.

O envelope trazia um relatório sobre a Operação Condor – aliança político-militar, não oficializada, entre Argentina, Chile, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai, com apoio dos EUA . O material trazia detalhes sobre mortes de opositores aos regimes, entre eles o chileno Orlando Letelier e o brasileiro Juscelino Kubitschek.

– Como estava em espanhol, não consegui entender tudo. Mas fiquei apavorado, estava com uma bomba nas mãos. Quando voltei ao Brasil, entreguei o material ao (cantor e compositor) Gonzaguinha, que era mais ligado aos movimentos de esquerda – lembra no livro escrito por seu filho.

Apesar das situações políticas, Reinaldo queria jogar bola e ajudar o Brasil a conquistar o tetra. Na estreia, o jogo foi difícil. Os suecos abriram o placar aos 38 da etapa inicial, com Sjoberg. Oito minutos depois, o craque mineiro empatou. E não se conteve: ao comemorar, ergueu o punho direito cerrado rapidamente. Na segunda partida, contra a Espanha, não atuou bem, como todo o time. Após o 0 a 0, Coutinho foi pressionado por mudanças e trocou o camisa 9 pelo atacante do Vasco Roberto Dinamite. Reinaldo acredita que a troca não foi apenas por uma questão técnica:

– Só me tiraram do time quando o presidente da CBD (o almirante Heleno Nunes) chegou à Argentina. Ele então ordenou algumas mudanças no time. Entre elas, a minha saída, para dar lugar ao Dinamite. Também entrou o Jorge Mendonça, no lugar do Zico.

Reinaldo só voltaria ao time na segunda etapa na decisão pelo terceiro lugar, a vitória de 2 a 1 sobre a Itália.

Aposentadoria precoce

Como o joelho esquerdo continuava incomodando, ao fim do Mundial o médico Neylor Lasmar fez um diagnóstico grave, ou operava ou o craque deixava o futebol. A complexidade do caso fez com que Reinaldo fosse levado aos EUA, onde seria operado pelo maior especialista em joelhos do mundo, o doutor James Nicholas, do hospital Lennox Hill, de Nova York.

Reinaldo entrou na faca logo após a Copa, em agosto de 1978, e só voltou a treinar no começo do ano seguinte. O retorno foi emocionante. Em um amistoso contra o Santos, o Mineirão teve suas luzes desligadas e os torcedores acenderam velas, para recepcionar o atacante. Mas o camisa 9 nem chegou a atuar, havia sofrido uma lesão muscular na coxa esquerda na véspera.

Em 1979 ainda atuaria pouco, apenas 25 jogos, com dez gols. Em 1980, voltou a jogar bem, levando o Galo ao vice do Brasileirão. Naquele ano, atuaria em 44 das 58 partidas do Atlético. Em 1981 voltaria à Seleção, mas, por conta de uma lesão em um dos tornozelos, atuou apenas em 33 partidas.

Nos últimos anos em campo, apesar da pouca frequência junto às redes, esteve mais presente nos gramados. Sem novas lesões, esteve em campo 50 vezes, em 1982, 52, em 1983, e 48, em 1984. Em 1985, após 26 partidas, Reinaldo decidiu deixar o Atlético aos 29 anos, após a eliminação diante do Coritiba, na semifinal do Brasileirão.

Ainda atuaria por Palmeiras (1985), Rio Negro (1986), Cruzeiro (1986), pelo sueco BK Häcken (1987) e pelo holandês Telstar (1987-1988), sem destaque. Enveredou pela política (foi deputado estadual e vereador pelo PT), teve envolvimento com drogas, passou pela TV mineira e hoje tenta reiniciar uma carreira como treinador.

O menino que dormia com a bola e teve um amadurecimento político desde cedo virou rei, foi caçado pelos zagueiros e pelos críticos de plantão. Só não teve mais sucesso no mundo do futebol por conta das lesões e das perseguições. Mas deu uma grande lição de dignidade ao suportar a pressão contra a atitude política em uma época de pouca liberdade.


PRÓXIMO CAPÍTULO: Ele trocou a convocação para a Copa do Mundo de 1958 para lutar pela libertação da Argélia. Depois de independência, voltou a encantar nos gramados franceses: 11 — Rachid Mekhloufi — O atacante da revolução

ANTERIORMENTE: Craque com a bola no pé e um desastre nas relações humanas. Mesmo assim, é quase um filósofo, além de um bom lutador de kung-fu contra os fascistas: 9 — Éric Daniel Pierre Cantona — O encrenqueiro politizado


A série tem a colaboração de Diego Figueira, na revisão dos textos, e do craque do traço Gonza Rodriguez, nas ilustrações.

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