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O golpe nosso de cada dia

Marcos Marques dos Santos Júnior

Leonardo Picciani (36 anos) Deputado Federal do PMDB eleito pelo RJ e líder deste partido na Câmara dos Deputados foi quem assumiu o Ministério do Esporte, é bom lembrar que é um político jovem começando sua carreira parlamentar com apenas 22 anos de idade e tem como formação acadêmica um bacharelado em Direito pela Universidade Cândido Mendes do Rio de Janeiro. A seguir temos uma descrição de sua vida no mundo esportivo segundo seu próprio site:

Atuação na área esportiva –

“Além de participar de competições de ciclismo de estrada, o novo ministro do Esporte é torcedor do Flamengo. Também acumula em seu currículo na Câmara ações para o setor. Em um de seus mandatos, Picciani relatou o projeto que reconheceu a profissão de árbitro de futebol na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público. O deputado também atuou como relator de proposta que autorizava os municípios a isentar do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) atividades relacionadas à Copa das Confederações, de 2013 e Copa do Mundo-2014.” (Fonte: http://leonardopicciani.com.br/noticias-recentes/leonardo-picciani-toma-posse-como-novo-ministro-do-esporte#more-5356)

Como líder de seu partido na Câmara ele teve o dever de encaminhar, por decisão da bancada, o pedido de sua sigla a favor do impeachment.

Quando o Deputado foi contra eu achei que ele tomou uma decisão arrojada já que pertence ao mesmo partido de Temer, Picciani ainda enfatizou na época que não haveria punição para quem votasse contra a decisão da bancada.

Depois disso algumas perguntas pairam no ar esperando respostas. Por que Picciani disse que não haveria punição de Deputados do PMDB que votassem contra o impeachment? Havia ou não um clima de medo ou pressão do partido para votarem a favor do impedimento de Dilma? Realmente daqui não dá para saber somente participando das rodas do partido saberíamos se havia ou não um clima desse tipo por lá, mas deixo registrado que achei uma atitude de coragem do Deputado Picciani.

Porém encontramos uma contradição no meio de toda essa história, em seu discurso durante a votação do impedimento de Dilma Rousseff o Deputado disse que durante seus quatro mandatos em que tomou posse na Câmara jurou cumprir a Constituição Federal de 1988 e por isso votaria NÃO, ou seja, votou contra o impeachment de Dilma. Mas por que teria aceitado de bate-pronto o cargo de Ministro do Esporte? Querido leitor, o bate-pronto é um lance do futebol, um chute rápido que vindo de lançamento não permite muito tempo para pensar. Não seria elogiável que Picciani mesmo aceitando o cargo de Ministro fizesse algumas ressalvas relembrando o seu voto contra o impeachment de Dilma Rousseff? Até porque, pensemos juntos, se seu voto foi contra o impedimento ele mesmo não reconheceria o governo do atual presidente Michel Temer como legítimo, certo?

Como vimos em sua trajetória no esporte o ministro torce pelo C.R. do Flamengo e se for um torcedor atuante saberá muito bem quem é Eduardo Bandeira de Mello e terá bons exemplos de administração para sua empreitada no ministério do esporte, Bandeira de Mello é o presidente que está tirando o clube de um imenso caos financeiro imposto por desgovernadas administrações passadas e que apesar de criticado por não estar indo tão bem no futebol tem sido elogiado pelos números das atuais receitas do clube.

Eu vejo golpes

─ Quero te contar meu segredo agora.

─ Conta.

─ Eu vejo golpes

─ Com que freqüência?

─ Todo tempo.

Adaptei este diálogo do filme ‘O sexto sentido’ do famoso bate-papo transcendental entre os dois personagens principais desse filme, ‘Malcolm’ o psicólogo infantil e ‘Cole Sear’ que no caso era a criança que via gente “morta” todo tempo.

Caro leitor, assim como o menino Cole eu também tenho um segredo para lhes contar agora: sim, eu vejo golpes todo tempo e em todos os lugares semelhante à resposta do garoto que quando perguntado se via gente morta em caixões ou túmulos responde que não, que os via andando por aí como gente comum, que um não via o outro, que só viam o queriam ver e que não sabiam que estavam mortos, ora, eu também vejo golpes por aí como acontecimentos comuns, digo que o individualismo não nos deixa ver um ao outro e que as pessoas cometem muitos golpes e os disfarçam, os jogam para debaixo do tapete e dizem para si mesmas que não foi nada, que foi besteira, assim é fácil!

Acredito que todo esse estado de caos, crise política e moral se dê em função do nosso próprio estado mental coletivo (que comete sim corriqueiramente golpes em todas as camadas sociais) ou até mesmo ‘inconsciente coletivo’, expressão originalmente feita pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. É como querer observar por aí honestidade e fraternidade o tempo todo quando se pratica tudo ao contrário, é impossível.

Presidente do Senado, senador Renan Calheiros (PMDB-AL) recebe ministro do Esporte, Leonardo Picciani. E/D: senador Renan Calheiros (PMDB-AL); ministro do Esporte, Leonardo Picciani. Foto: Jonas Pereira/Agência Senado

Presidente do Senado, senador Renan Calheiros (PMDB-AL) recebe ministro do Esporte, Leonardo Picciani. Foto: Jonas Pereira / Agência Senado.

Esse círculo vicioso de desonestidade coletiva já é refletido em nossa política há muitos anos e essa energia ruim e densa circula através do magnetismo, as mentes propensas a fazer o mal atraem o mal e isso vai ganhando força como uma onda indo do pequeno ao grande ato de corrupção, é tão viciante que quando um (população) olha para o outro (político) ou vice-versa quase não encontra bons exemplos, é preciso que bons pensamentos voltem a circular no meio disso tudo.

As estruturas morais coletivas passam por um período de transição e nós estamos começando a perceber que sem o pensamento coletivo organizado a tendência é naufragarmos todos juntos, um exemplo disso é que não dá mais para deixar a política somente com os políticos, há uma necessidade eminente e urgente de emponderamento político de todos, dos cidadãos em geral em todas as camadas da sociedade brasileira.

Às vezes mal começamos a semana e nos vemos presos em círculos viciosos cometendo pequenos e grandes golpes contra nós mesmos ou contra os outros, conchavos são feitos todos os dias nas mais diversas esferas da sociedade: no ambiente de trabalho, por exemplo, os golpes se dão com as rodas de fofoca, com o próprio colega falando mal dos outros colegas para o seu chefe, pois sabe que eles estão à sua frente na fila para a próxima promoção; saiba que furar filas, comprar a carta de motorista, passar multas para outras carteiras nacionais de habilitação, estacionar na vaga de deficientes e declarar o imposto de renda erradamente de propósito também estão inclusos na lei dos “golpes nossos” de cada dia.

06 de Maio de 2016 - Ministro do Esporte  Leonardo  Picciani  durante ncontro com secretário de Estado para a Cultura, Mídia e Esporte, John Whittingdale ..  Foto: Roberto Castro/ME

Ministro do Esporte Leonardo Picciani durante ncontro com secretário de Estado para a Cultura, Mídia e Esporte, John Whittingdale. Foto: Roberto Castro / ME.

No campo esportivo o golpe se dá também através de múltiplas formas no doping, no suborno para o goleiro deixar a bola passar, para o trio de arbitragem não enxergar um impedimento num jogo importante, para uma cidade-sede ser ajudada na conquista de uma vaga para sediar um mega-evento e por aí vai, a lista de grandes e pequenos golpes se mostra infinita quando o assunto é corrupção e auto sabotagem.

Observando os acontecimentos da escala macro a micro agora vamos falar sobre à auto sabotagem ou “autogolpe” que é mais meticuloso ainda, pois as mentiras, conchavos e armações são contra você mesmo, criando uma atmosfera mental de auto traição constante. Cá pra nós amigas e amigos, é ou não mais doloroso ainda quando nos auto sabotamos? Aquele projeto de aprender uma nova língua que é adiado por preguiça, o projeto de ajudar um amigo em uma tarefa importante para ele que postergamos, deixamos pra depois… aquele projeto de praticar a caridade com os desfavorecidos, aquele outro projeto de tirar um pouco mais de tempo para sua higiene mental, lazer e atividade física que sempre fica para o outro ano…

14 de Maio de 2016 - Ministro do Esporte Leonardo Picciani fala com a imprensa na Inauguração Arena Carioca 2. Foto: Roberto Castro/ME

Ministro do Esporte Leonardo Picciani fala com a imprensa na Inauguração Arena Carioca 2. Foto: Roberto Castro / ME.

Eu vejo golpes, muitos golpes, mas vejo também ultimamente muita força de vontade para que isso mude na juventude, força fervilhando nas periferias, seja na periferia do coletivo ou até mesmo nas periferias individuais, em estados mentais que desejam a transição do paradigma individualista para um novo paradigma, a era da regeneração mental coletiva que migrará rumo ao paradigma do pensamento coletivo organizado em prol do bem da humanidade.

P.s. Eu também me incluo como praticante de alguns desses golpes e auto golpes (auto sabotagens).

Como citar

SANTOS JúNIOR, Marcos Marques dos. O golpe nosso de cada dia. Ludopédio, São Paulo, v. 84, n. 4, 2016.