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O gremista Lupicínio Rodrigues: Idolatria clubística e altruísmo nas músicas de futebol

Bernardo Borges Buarque de Hollanda

A presença do futebol nas letras da música popular brasileira tem sido crescentemente estudada nos últimos anos. Não são poucas nem pequenas as listagens que procuram cobrir as duas esferas da vida coletiva nacional, a esportiva e a musical. Por meio delas, busca-se mostrar de que maneira a idolatria futebolística e a popularidade da MPB se interpenetram ao longo do século XX e como aparecem enraizadas no cotidiano do país.

As tentativas de estabelecer um marco zero remontam ao famoso choro composto por Pixinguinha (1897-1973) em 1919, intitulado sugestivamente 1 a 0. Embora seja possível que tenha havido uma composição antes dessa, a projeção desse personagem da música brasileira, iniciada com o sucesso do seu grupo Oito batutas e sua viagem a Paris em 1922, soma-se ao fato de 1 a 0 reportar-se a um dos acontecimentos futebolísticos mais importantes do início do século XX.

Qual foi esse acontecimento? O título da canção refere-se ao resultado da dramática partida, vencida pelos brasileiros contra os uruguaios no III Campeonato Sul-Americano de futebol. A final do campeonato fora realizada no Brasil, mais precisamente, no estádio das Laranjeiras, Rio de Janeiro, à época a capital da República. O jogo da finalíssima terminara empatado em zero a zero, o que levou a partida para a prorrogação. Apenas no segundo tempo extraordinário, o atacante da seleção brasileira, o ídolo Arthur Friedenreich (1892-1969), consegue fazer o gol que sacramenta a vitória internacional do Brasil, homenageada no choro de Pixinguinha.

Após essa música histórica, e por assim dizer fundacional, outras personalidades da música popular associaram seu nome ao futebol. Noel Rosa (1910-1937), por exemplo, não tinha preferência clubística nem assistiu à consagração internacional do futebol brasileiro, mas apreciava a técnica do jogador Fausto e retratou o interesse futebolístico em uma de suas crônicas musicais, Conversa de botequim, passada em uma mesa de bar do Rio, onde diz: “Vai perguntar a seu freguês do lado/qual foi o resultado/do futebol”.

Já o compositor de marchinhas, Lamartine Babo (1904-1963), teve papel central no cruzamento entre música e futebol, destacando-se pela criação dos hinos carnavalescos dos clubes do Rio de Janeiro, dentre eles: Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo e o seu pequeno, porém simpático, América. A tradição hínica dos clubes, analisada com argúcia pelo professor do departamento de Letras da UFMG, Elcio Cornelsen, já existia oficialmente, mas Lamartine foi responsável em meados do século XX por criar as versões que cairiam no gosto do público e até hoje são cantadas nos estádios, especialmente no Maracanã.

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Ary Barroso. Caricatura: J. Bosco.

Ary Barroso (1903-1964) não chegou a compor letras alusivas ao futebol, mas tornou-se conhecido por sua passionalidade e por seu fervor clubísticos. Além de compositor, Ary era locutor esportivo e não escondia sua predileção pelo Flamengo. Quando o time vermelho-e-preto marcava um gol, o autor de Aquarela do Brasil acionava o som de uma gaita, marca registrada de sua euforia pelo rubro-negro carioca. Uma história anedótica contada pelo jornalista Sérgio Cabral assinala que Ary Barroso, em resposta ao convite para trabalhar nos Estados Unidos, declinou da proposta, alegando que “lá não havia o Flamengo”…

Outro personagem canônico das composições musicais dedicadas ao futebol foi Wilson Batista (1913-1968). Tal como Ary, Wilson Batista também era aficionado pelo Flamengo, mas, ao contrário daquele, era menos otimista, ao menos nas narrativas dos torcedores em suas canções. As letras retratam histórias de partidas do seu clube, mas nelas o time quase sempre fracassava. Apenas para ilustrar, reproduzam-se estes versos: “Eu hoje vim da Gávea, tão cansada/com a cabeça inchada/pois o Flamengo tornou a perder…”.

Como são muitos os nomes que poderíamos aqui aludir, optamos neste breve texto por abordar um caso conhecido, e muito sugestivo, de compositor aficionado por futebol. Trata-se de uma figura de escol do universo musical da MPB, que se associou um tanto fortuitamente ao seu clube do coração. Refiro-me ao gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974). Sua escolha se justifica pela descrição musical do altruísmo idolátrico do torcedor de futebol, capaz de decantar em versos toda a sorte de sacrifícios em prol de seu time.

O leitor incauto talvez indague: qual foi a relação entre Lupicínio Rodrigues e o mundo futebolístico? A resposta encontra-se em um hino, composto em homenagem a um clube: o Grêmio de Foot-Ball Porto Alegrense. Nele, diz-se, em tom épico triunfal:

Até a pé nós iremos
Para o que der e vier
Mas o certo e que nós estaremos
Com o Grêmio onde o Grêmio estiver

50 anos de glória
Tens imortal tricolor
Os feitos da tua história
Canta o Rio Grande com amor

Nós como bons torcedores
Sem hesitarmos sequer
Aplaudiremos o Grêmio
Aonde o Grêmio estiver

Lara o craque imortal
Soube seu nome elevar
Hoje com o mesmo ideal
Nós saberemos te honrar

Até a pé nós iremos
Para o que der e vier
Mas o certo e que nós estaremos
Com o Grêmio onde o Grêmio estiver

(Refrão)

Lembremos que o músico do Rio Grande do Sul foi autor de sambas-canções como Nervos de aço, Felicidade e Esses moços, pobres moços, entre outras obras antológicas do repertório nacional. Estas letras, por sua vez, projetavam-se graças ao poder de difusão da Rádio Nacional, sendo gravadas por intérpretes do porte de Francisco Alves, o “rei da voz”, Ciro Monteiro e até mesmo o vascaíno Jamelão (1913-2008), da Escola de Samba Mangueira.

Lupicínio, poeta mestiço, também conhecido pela boemia e que apreciava cantar acompanhado pelo ritmo de uma caixa de fósforos, participou em 1953 de um concurso promovido pela direção do Grêmio.

O propósito da iniciativa era comemorar o cinquentenário de fundação do clube, criado em 1903 pela colônia alemã do Rio Grande do Sul. Se um hino oficial já existia – Marcha de guerra do Grêmio Porto-Alegrense, de Breno Blauth – a composição de Lupicínio destronou a anterior, a partir do bordão de altruísmo e abnegação: “Com o Grêmio, onde o Grêmio estiver”.

O traço de devoção ao tricolor gaúcho, de fundo gregário e religioso, salta aos olhos no refrão: “… até a pé nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos, com o Grêmio onde o Grêmio estiver”. Segundo o sociólogo Maurício Murad, no livro Dos pés à cabeça, o verso “Até a pé nós iremos” era uma menção a uma greve que paralisou todo o sistema de transportes de Porto Alegre na década de 1950.

É curioso traçar esse paralelo: enquanto as composições de Lupicínio tratam de dor amorosa, não raro incluindo a temática da traição e do adultério, o hino gremista é uma ode à mais lídima fidelidade ao tricolor gaúcho, incapaz de conhecer atos traidores ou adúlteros. A retórica em torno da relação homem-clube é vista como única e eterna, ao contrário do relacionamento de gênero homem-mulher, volátil, capaz de conhecer reveses, surpresas e reviravoltas passionais.

Também salta à vista um dado interessante da ligação de Lupicínio com o clube do Grêmio. No Rio Grande do Sul, os dois grandes clubes locais, divididos quase como duas metades, o azul e o vermelho, são respectivamente o Grêmio e o Internacional.

LupicÌnio Rodrigues cantando na Boate Casa De Samba. CREDITO: ANA LUIZA DE OLIVEIRA

Lupicínio Rodrigues cantando. Foto: Ana Luiza de Oliveira/Divulgação.

Coube ao imaginário histórico dos “mitos de origem” vincular no século XX o Grêmio à elite porto-alegrense. Como se sabe, o clube havia sido fundado por imigrantes provenientes da Alemanha, que haviam chegado à cidade em fins do século XIX. Em contrapartida, o Internacional ficou associado às origens populares na cidade, visto como time do povo. Até mesmo sua cor – o colorado – e seu nome – o Internacional – seriam possíveis evidências de simpatias plebeias, dir-se-iam comunistas de seus fundadores, dado que, não obstante, não chegou a ser comprovado.

Pois bem, diante dessa contraposição, como entender a adesão do mulato Lupicínio ao time da elite branca gaúcha, face ao clube popular que aceitava mestiços em sua época? Saliente-se, conforme informação do jornalista Beto Xavier no seu completo O futebol no país da música, que o compositor vinha de uma família muito humilde, sendo um entre mais de vinte irmãos.

Em um livro de crônicas, Foi assim (1995), da editora porto-alegrense LP&M, que reúne textos publicados por Lupicínio no jornal Última hora, nos anos 1963 e 1964, a justificativa do compositor pelo Grêmio, apesar de seu suposto racismo, ao impedir até 1953 atletas negros, baseava-se em um dado de fundo histórico:

“O Grêmio foi o último time a aceitar a raça porque em seus estatutos constava uma cláusula que dizia que ele perderia seu campo, doado por uns alemães, caso aceitasse pessoas de cor em seus quadros. Felizmente, esta cláusula já foi abolida, e hoje tenho a honra de ser sócio honorário do Grêmio e de ter composto o seu hino”.

Lupicínio faleceu dez anos depois desse depoimento, no ano de 1974. Em seu velório, realizado no Estádio Olímpico, uma bandeira gremista foi colocada sobre o caixão, em sinal da idolatria e do altruísmo dedicado pelo compositor ao seu clube ao longo da vida. Seu nome jaz na Galeria dos Imortais do clube.