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O Grenal e o Derbi em meio ao caos

Fabio Perina

Quis o destino que os dois clássicos transcendentais fossem o marco em 2 atos do adiamento das partidas de futebol por causa da pandemia do coronavírus. Na quinta-feira, 13 de março, quando do anúncio que a Libertadores paralisaria Grêmio e Inter empataram em 0 a 0 em seu primeiro encontro em toda a história da competição. No mesmo dia a federação paulista (FPF) declarava manter a rodada do final de semana tendo como restrição das partidas os portões fechados. Na segunda-feira, 16 de março, pela manhã a FPF anunciou que também paralisaria o campeonato, mas à noite ainda teve o Derbi Campineiro que terminou com a vitória do Guarani, de virada, sobre a Ponte Preta por 3 a 2.

A partida do Guarani guardou semelhança com a do Corinthians, um dia antes, também com portões fechados e com a tentativa de compensação das diretorias de permitirem a entrada de faixas das torcidas e até mesmo instalarem um sistema de som que as simulasse!

Jogo entre Corinthians e Ituano com portões fechados por causa do Coronavírus. Foto: © Daniel Augusto Jr./Ag. Corinthians.

Imediatamente me lembrei desse fragmento que narra uma partida entre Real Madri e Napoli no final dos anos 1980 também com o estádio em um vazio absoluto:

“(…) acontecimento ‘real’, realiza-se no vácuo, expurgado de seu contexto, visível somente de longe, pela tevê (…) ninguém viveu de fato as peripécias do jogo, mas todo o mundo pôde captar a imagem (…) se suprime o público para ter certeza de defrontar-se com um acontecimento televisual [e perfeitamente controlado]” (BAUDRILLARD, 1992, p 88)

Há cerca de um ano publiquei nesse espaço um modesto ensaio para propor o termo “futebol pós-moderno e de controle”. A minha tentativa foi a de explicar os processos que se articulam para tornar o dirigente um gestor, para tornar o jogador passivo e para tornar o torcedor passivo. Nessa perspectiva, presume-se que ao derrubar os limites do campo de jogo e dele com o restante do estádio terá como resultado uma reprodução comercial do futebol sem limites. Como se tudo passasse a ser um único campo infinito, sem bolas para fora e nem vindas de fora, no qual nada ocorre fora do previsto e o jogo mais dinâmico é o dos negócios.

Aproveito aquela breve descrição sobre a normalidade do futebol para refletir sobre esses dias de exceção. Mesmo que nos dias atuais o retorno das partidas de futebol esteja longe de ser a maior preocupação coletiva, quero explorar outras questões profundas que ele fomenta. Se na maior parte da reprodução regular do futebol em seu dia a dia os clubes somente se esforçam para respeitar o seu torcedor apenas quando estes estão na função de consumidor, chega a ser pelo menos irônico que os clubes paulistas mandantes com portões fechados parecem ter sentido falta de sua função esportiva de apoiar a equipe. Se hoje um misto de tecnologia, intromissões judiciais e expulsão de torcedores visitantes já se inseriu na regularidade do futebol, não parece estar distante o dia, mesmo depois que a pandemia passe, de partidas com portões fechados mais frequentes e uma presença apenas virtual do torcedor.

A pandemia como motivo temporário justificável pode criar o cenário desejado para se tornar permanente mesmo depois que não exista mais o motivo original que produziu o esvaziamento dos estádios. É o sonho de muitos que jogam contra o futebol. Conforme o título do ensaio de Baudrillard, a transparência do mal também corresponde à sua banalização por esse cenário acima ser certamente um grande sonho de autoridades e dirigentes que parecem ver toda multidão como um estorvo e um risco.

Por fim, o Grenal e o Derbi Campineiro disputados antes do adiamento dos torneios guardaram mais semelhanças entre si do que tradição, rivalidade, partidas eletrizantes como sempre. A chinela cantou e não foi pouco! As confusões entre jogadores dentro de campo no final foram sendo atiçadas ao longo das partidas e eles mostraram não ter sangue de barata ao prolongaram mais que de costume. É o meu sonho que essas possam ser as fagulhas que ascendam as revoltas, mesmo que inconscientes, contra o atual futebol pós-moderno e de controle. Algo também surreal que mesmo proibidos de entrarem no Brinco de Ouro, a torcida bugrina se aglomerou em seu entorno, festejou e até brigou!

Lance do Grenal da Libertadores 2020 em meio a pandemia do Coronavírus. Foto: Ricardo Duarte/Internacional.

Enfim, essa despedida momentânea do futebol deixou um gostinho de quero mais, pois teve tudo que um clássico tem direito. No ensaio de “futebol pós-moderno e de controle” defendi que a atual maquinaria do futebol coloca jogadores e torcedores cada vez mais separados inclusive quando manifestarem uma comemoração mais vibrante e lhes exigindo um comportamento super-disciplinado. Que nesse período de pausa sem futebol todos os seus envolvidos, principalmente os responsáveis como dirigentes e autoridades, possam se lembrar como são jogadores e torcedores da vida real que não se submetem aos seus sonhos mais controlados. Pois com certeza esses responsáveis não farão falta!


Leituras de Apoio

Futebol pós-moderno e de controle

BAUDRILLARD, J. A Transparência do mal. Ensaios sobre Fenômenos Extremos. Campinas: Papirus, 1992.