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O Herói de Sevilha

Marcus Arboés

Helmuth Duckadam, então goleiro do Steaua, na chegada a Bucareste após a conquista da Copa dos Campeões da Europa, em 1986. Foto: Wikipedia.

Em 1986, o Barcelona ainda não havia vencido uma Liga dos Campeões e, após finalmente conseguir chegar a uma final, foi eliminado amargamente nos pênaltis, após um zero a zero com o Steaua Bucareste, da Romênia. O carrasco catalão? Helmuth Duckadam, o goleiro herói de Sevilha.

O futebol romeno nunca foi muito tradicional mundialmente, até mesmo dentro do cenário europeu, ao longo de todos esses anos de futebol, apesar de ter revelado grandes craques como Hagi e Popescu.

A seleção de futebol da Romênia, por exemplo, nunca conseguiu se destacar nas grandes competições – seus recordes são: ter chegado ao sexto lugar no Mundial de 1994 e à sétima posição na Euro de 2000. Todos os seus títulos são de torneios inexpressivos e não considerados oficiais.

Ainda assim, o povo romeno pode se orgulhar de um tento em escala mundial. Bom, pelo menos parte do povo, de Bucareste, especificamente.

A grande rivalidade do país e da cidade é entre o Dínamo Bucuresti e o Steaua Bucuresti, mas só o Steaua pode cantar o privilégio de ter chegado duas vezes às finais de uma Liga dos Campeões e comemorar o fato de ter levantado a taça uma vez.

O maior título da história do futebol romeno possui um nome: Helmuth Duckadam, que ficou lendariamente conhecido como “O Herói de Sevilha”.

As trajetórias de Steaua e Barcelona

No ano de 1986, a famosa Liga dos Campeões ainda era conhecida como “Taça dos Clubes Campeões Europeus”. E aquela edição da taça era ímpar, por contar com 31 participantes, um a menos que o normal, já que a Inglaterra estava punida pelo incidente da Tragédia de Heysel.

O fato de ser uma competição bem mais direta, em mata-mata corrido, com partidas dentro e fora de casa, fazia com que o clube só precisasse jogar oito vezes até chegar a uma final, sempre enfrentando um adversário de um país diferente.

Apesar disso, o Barcelona, que vivia a expectativa do seu primeiro título no torneio, teve um caminho árduo. Contra Sparta Praga e Porto, passou no critério de gols fora. Contra a Juventus, passou por causa de um golzinho. Na semifinal, superou o IFK Gotemburg nos pênaltis. A trajetória da equipe catalã era heroica e romântica e a ânsia pelo título aumentava, mas foi tirada por um surpreendente adversário.

O Steaua Bucuresti não entrou como um dos favoritos nessa competição. Venceu o Vejle Boldklub, da Dinamarca, na primeira fase, com uma goleada por 4 a 1 no segundo jogo. A história repetiu-se contra o Honvéd Budapest, da Hungria.

Mas a partir das quartas de final, surgiu o protagonista do título. O goleiro Helmut Duckadam não sofreu gol nas duas partidas contra o Lahti, da Finlândia. Após empatar sem gols em casa, seu time venceu por 1 a 0 fora.

Na semifinal, o Anderlecht venceu amargamente o primeiro jogo na Bélgica, por 1 a 0. Na volta, além de Duckadam ter fechado o gol, a equipe fez três gols e a final esperada entre Barcelona e Anderlecht não aconteceu.

A final de 85-86

7 de Maio de 1986. Estádio Ramón Sánchez Pizjuán, Sevilha, Espanha. Favorito, após a emocionante campanha, o Barcelona não esperava que passaria os 90 minutos do tempo regulamentar e mais a meia hora de prorrogação daquela partida sem marcar gols.

Recheada de craques, a equipe catalã dominou o primeiro tempo. Teve chance para todo mundo: Gerardo finalizou de fora da área, Alonso foi travado dentro da pequena área, Schuster cabeceou perigosamente por cima do gol e a defesa tirou a bola quando o goleiro já estava abatido.

Só no emocionante segundo tempo o Steaua ensaiou reagir na partida em que estava sendo engolido pelo adversário, Majearu quase fez gol num chute de longe.

O Barcelona voltou a se impor. O craque do time, Archibald, camisa 10, quase desviou uma bola para o gol e, depois, errou uma cabeçada para fora.

O jogo terminou equilibrado na segunda etapa e foi para a prorrogação. O resto da partida, até pelo físico, foi todo do Barça, que chegou a fazer um gol impedido, numa falha do goleiro do Steaua.

No entanto, se não foi dentro da partida, em que ele poderia ter sido até vilão, nos pênaltis Duckadam brilhou e anotou seu nome na história do futebol europeu.

A histórica disputa de pênaltis

A partir do quarto apito final da partida, não havia mais favorito. Era batedor a batedor, mas aconteceu algo que ninguém esperava no lotado Ramón Sánchez Pizjuán.

O Steaua Bucuresti começou batendo. Mihail Majearu, melhor romeno na partida, bateu muito mal e errou.

Para ganhar confiança, o capitão Alexanco, do Barcelona, foi para a cobrança. E bateu bem demais, mas Duckadam voou no canto direito dele para defender e vibrar.

Ainda não queria dizer muito, porque Boloni desperdiçou a segunda cobrança para o Steaua, mas podia contar com seu goleiro de novo, que defendeu o pênalti de Pedraza no cantinho.

Eram duas cobranças defendidas para cada time, e Urruti, do Barcelona, também poderia ter sido um herói naquela noite, mas Lacatus chutou muito forte para fazer.

Na sequência, Pichi Alonso, que entrou no segundo tempo, bateu no mesmo amaldiçoado canto direito e, surpreendentemente, Duckadam pegou mais uma. Do mesmo jeito!

Depois de Balint converter a quarta penalidade e colocar 2 a 0 no placar, Marcos Alonso pegou a bola para bater, e creio que, naquele momento, parecia mais do que possível e real que Duckadam magicamente defenderia e consagraria o Steaua como campeão.

Marcos não teve a audácia de bater no canto direito, onde todos os outros três erraram, mas chutou fraco para a esquerda do goleiro oponente, quase no meio e bem fraco. Foi a pior batida da equipe e Duckadam não tinha nada a ver com isso.

Com quatro pênaltis defendidos, Duckadam ganhou não só a taça, mas também o título de herói de Sevilha e enterrou todas as expectativas do Barcelona num amargo vice-campeonato, dentro da Espanha.

Esse, com certeza, teria sido um final feliz para o goleiro romeno no futebol, mas a glória e ascendência na carreira foram travadas semanas depois, quando ele sofreu de um raro distúrbio no sangue.

Sua carreira só foi retomada três anos depois, quando ele foi contratado pelo Vagonul Arad, onde performou até o final de sua carreira.

Depois de pendurar as chuteiras, ele chegou a ser policial e foi condecorado por mérito esportivo em 2008. Atualmente, ele está no local onde viveu o melhor ano da sua vida futebolística. Helmuth Duckadam é o presidente do Steaua Bucareste e agora defende seu clube de outra maneira.