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O jubileu de ouro de uma torcida organizada: ditadura, democracia e a construção da memória dos Gaviões da Fiel (1969-2019)

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Vitor dos Santos Canale

No último dia 01 de julho, segunda-feira, o grêmio Gaviões da Fiel, conhecida torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista, completou cinquenta anos de fundação. Desde o início do primeiro semestre de 2019, uma série de comemorações vem sendo realizadas na quadra da agremiação, no bairro do Bom Retiro. Seu clímax acontece neste mês de julho, quando o cinquentenário é comemorado e várias atividades festivas se concentram. Concursos culturais, debates, campeonatos de futsal e festas de celebração da data são algumas das atrações oferecidas pela diretoria aos milhares de associados.

Um dos aspectos que chama a atenção no calendário comemorativo dos cinquenta anos de existência é a criação de um espaço exclusivo à memória coletiva da agremiação. Trata-se do Acervo Gaviões, uma espécie de centro de memória que funciona nas dependências da quadra. Inaugurada em janeiro de 2019, a nova sala foi reformada e destinada especialmente a abrigar objetos, documentos e materiais audiovisuais de conservação da história do grupo. A construção do espaço foi iniciativa de componentes da nova geração de torcedores e contou com o apoio da atual direção para a sua materialização.

A sala foi erguida sob o espírito do mutirão, depois da comercialização de camisas na loja da torcida e do levantamento de fundos para a viabilização financeira da obra e das instalações. A inauguração aconteceu no princípio deste ano, numa manhã quente e ensolarada de sábado, mais precisamente a 19 de janeiro. O ato inaugural teve como programação uma mesa-redonda em torno do tema da “Democracia Corintiana”. Entre os convidados estavam presentes o comentarista esportivo e ex-futebolista Walter Casagrande e o jornalista e professor Celso Unzelte, notório pesquisador da história do Corinthians.

Além do debate, um estande ocupou o centro da quadra, com a exposição de um conjunto de artefatos – panfletos, flâmulas, adesivos, revistas, jornais, livros, cartazes e boletins mimeográficos – trazidos pelos associados. Reunidos pelo Acervo e doados pelos membros da torcida, os materiais expostos dizem respeito tanto à história dos Gaviões quanto ao tema do evento, o período de vigência da chamada Democracia Corinthiana – como se sabe, a experiência de participação colegiada dos jogadores do clube, capitaneados por Wladimir, Sócrates, Zenon, Casagrande e cia., nas decisões da diretoria e da vice-presidência de futebol do clube, então comandada pelo sociólogo Adílson Monteiro Alves –, no início dos anos 1980. O coroamento do evento do Acervo deu-se no início da tarde, em meio à presença de ex-presidentes, integrantes e lideranças da torcida, com direito a discursos na cerimônia de abertura da nova sala.

É um ledo engano considerar que o interesse pela memória do agrupamento deve-se apenas à efeméride, com a data “redonda” de 50 anos. O acionamento desta memória é constante na evocação grupal de uma origem, na fixação de um marco zero, ao longo de sua existência. Aliás, a atenção dispensada ao ano de fundação é uma característica cultivada por várias outras torcidas organizadas. É recorrente encontrar bandeiras, camisas e adesivos com as inscrições fundantes de 1969, 1970, 1972, 1983, entre outras remissões ao ato original de criação.

Esse traço é especialmente marcante nos Gaviões da Fiel, não apenas na reiteração de um ano em específico – 1969 –, como na constituição narrativa de uma versão que dá sentido e coesão unitária ao passado da torcida, por mais díspar, diversa e mesmo incoerente que sua história seja. O status de precursora do movimento das torcidas organizadas na cidade de São Paulo atribui um peso ainda maior ao ano de fundação.

No decorrer dos anos 2010, experiências semelhantes ao Acervo Gaviões foram idealizadas e implementadas por outros integrantes da agremiação. Em especial, destaque-se a criação do Memorial da Torcida, promovida por seu Departamento Social, uma das subdivisões administrativas dos Gaviões, encarregado das ações sociais e filantrópicas.

Esse departamento utilizou um terreno e um prédio abandonado da Prefeitura, situado nas adjacências da sede, na Rua Cristina Tomás, e montou um espaço destinado a coletar imagens e materiais da torcida ao longo das décadas, tais como documentadas em periódicos esportivos, em impressos oficiais e em acervos pessoais – recortes, fotos e cartas, notadamente. O Memorial existiu durante cerca de cinco anos, mas com a retomada da propriedade pela Prefeitura, o projeto foi temporariamente interrompido, voltando a ser reconsiderado com a proposta do Acervo, concebida em 2018.

Após a inauguração da sala, e ao longo de todo o primeiro semestre de 2019, o Acervo tem procurado ser não apenas uma referência para repositório e depósito de objetos, mas também tenciona ser criador de suas próprias fontes. Especial atenção tem sido dispensada aos arquivos de imagens, com a gravação filmada de entrevistas de lideranças, de ex-presidentes e de membros do núcleo fundador da torcida. Baluartes da agremiação, como Chico Malfitani, Julião, Roberto Daga e Paracatá, entre outros, já foram entrevistados pelos responsáveis do Acervo, adensando informações sobre momentos específicos reiterado na memória do grupo e do clube.

Graças à generosidade dos organizadores do Acervo, nas figuras de Fábio Lima e Lucas Toth, tivemos acesso a esse conjunto de depoimentos. Estes se somaram a entrevistas preexistentes do projeto de pesquisa “Territórios do Torcer”, entre 2014 e 2015, que colheram depoimentos de 6 lideranças da torcida em questão. Em face das entrevistas, que leitura pode ser feita dessa gama de testemunhos voltada a relatar a história da agremiação?

Evento de inauguração do Acervo Gaviões, no dia 19 de janeiro de 2019, “um encontro em memória à Democracia Corinthiana”, segundo postagem da torcida. Foto: Reprodução/Instagram/Vinicius Lúcio/Gaviões da Fiel.

Ressalte-se de antemão que, sem a possibilidade de maior aprofundamento e elaboração, em função dos limites que a natureza de um artigo de divulgação permite, gostaríamos de sublinhar aqui, brevemente, o modo como se articula a díade ditadura-democracia na construção narrativa do grupo.

Entre os pontos fortes da memória, encontra-se o mito de origem do grupo. Este ponto fulcral enseja a sua gênese, com uma versão heroicizante que salienta a luta simultânea contra duas ditaduras. Ao incorporar elementos, mesmo que diluídos ou inconscientes, da historiografia e da memória sobre a ditadura militar (1964-1985), tais como construídas na Nova República, os fundadores narram um nascimento heroico que superpõe o contexto ditatorial pós-AI-5 ao âmbito interno “ditatorial” da política clubística.

Lembre-se que, desde meados do século XX, o clube é tradicionalmente dominado por presidentes que se prolongam no poder, desde Alfredo Trindade (14 anos) até Wadih Helu (10 anos) e mesmo depois, com Vicente Matheus (18 anos). Configura-se, pois, aquilo que o cientista político Cláudio Couto (2017) chama com propriedade de “oligarquização” das associações desportivas, constitutiva de uma dualidade institucional que atravessa a maioria dos clubes, mas também as torcidas, que são, elas próprias, arremedos de organização clubística.

Para além do heroísmo nos discursos retrospectivos dos líderes dos Gaviões, há uma conjuntura concreta da vida do clube que desperta e leva à ação: a penúria de títulos – como se sabe, foram ao todo 23 anos de “fila” – e a consequente ironia e chacota recebida dos torcedores corinthianos ante os adversários. Neste contexto de “humilhação” para os rivais, era necessário da parte dos torcedores agir e pressionar por mudanças.

A ação conforma-se das arquibancadas, entre os frequentadores de um mesmo setor dos estádios, de maneira informal já em meados dos anos 1960, e vai-se materializar no final daquele decênio, com a constituição dos Gaviões da Fiel. Esta se opõe ao modelo das bandas musicais, contratadas pelos clubes até então – no Rio de Janeiro, conhecidas como charangas. Sem a tutela dos clubes, narra-se a mudança de postura, da passividade ao protagonismo.

A concretização do projeto de uma torcida autônoma passa pela formalização de uma marca, de um símbolo e de um registro oficial. O nome Gaviões tem inspiração, segundo depoimento do fundador Chico Malfitani, em cuja casa deu-se o ato de criação do grêmio, nos Dragões Rubro-Negros, movimento insurgente de torcedores do Flamengo contra políticos do clube carioca, em ação no mesmo período no Rio de Janeiro, especialmente entre 1967 e 1968.

Já o livro de ata de fundação da torcida, ocorrida na residência da família de Malfitani, situada na Alameda Santos, no centro de São Paulo, é lavrada com a assinatura de doze jovens: Flavio Garcia La Selva, Alcides Jorge de Souza Piva (Joca), Cláudio Faria Romero (Vila Maria), Orlando Rosato (Rosinha), Carlos Marino Chagas (Manchinha), Igor Dondo, Francisco Maltafini (Chico), Carlos Augusto Saraiva (Linguiça), Artur Timerman, Brasil de Oliveira, Ivan de Oliveira e Benedito Amorim (Lampião).

Celso Unzelte, jornalista e historiador do Corinthians, compareceu ao evento. Foto: Reprodução/Instagram/Vinicius Lúcio/Gaviões da Fiel.

O lema da torcida, aposto ao nome do grupo, é “Força Independente”, uma caracterização do posicionamento da agremiação frente à política interna do clube e que vai dar a marca de muitas torcidas, embora nem todas, que surgem de modo insurrecional nesse período. A ideia de uma “força fiscalizadora” traz em seu bojo um sentido crítico, a caracterizar uma instância de pressão sobre a vida clubística, constituída de fora para dentro, isto é, das arquibancadas para as dependências do clube.

A partir desse cenário inicial conflitivo e deflagrador, os integrantes dos Gaviões da Fiel entronizam uma gama de mitos fundadores acerca da origem histórica da torcida e, por extensão, da sua relação com o clube. Ao fazer do presidente do clube, Wadi Helu, deputado estadual pela ARENA, seu bode expiatório, símbolo ditadorial no clube e na sociedade – já que era um político pertencente ao partido do governo –, seu discurso originário incorpora, ao menos no nível imaginário e discursivo, o valor da luta pela democracia, arraigando-se ao modo pelo qual seus componentes contam até hoje sua própria história de lutas e sacrifícios.

De geração em geração, conta-se que o surgimento do grupo é iniciativa de abnegados corintianos que frequentavam as arquibancadas e que lutavam contra o despotismo reinante no clube. O mito de origem acentua sempre a ditadura vigente no clube e no país, duas faces de uma mesma moeda. Segundo recordam, o presidente do Corinthians chegava a contratar capangas para intimidar os torcedores que lhe faziam oposição.

Tal luta é reificada e cristalizada na memória de maneira extensiva ao que ocorria na sociedade brasileira, como se o clube paulistano fosse um microcosmo da macro política da época. O fundador número 1 dos Gaviões da Fiel, Flávio La Selva, estudante da tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, depois formado também em Filosofia, participara das passeatas estudantis em 1968, e atuava junto às Pastorais da Zona Leste de São Paulo. Eleito como o “cabeça pensante” do grupo, o articulador principal, Flávio simboliza para os líderes da agremiação o etos da resistência à ditadura militar nos anos 1960 e 1970.

A figura multifacetada de Flávio La Selva, que ainda carece de reflexões mais extensas, apresentava uma proposta de torcida militante e de caráter popular. A ideia de organizar os Gaviões da Fiel como entidade cultural, com cineclube, palestras e outros eventos, além daqueles norteados pelo futebol e o carnaval, era um meio de atrair mais torcedores e ofertar outras perspectivas de lazer à comunidade (CÉSAR, 1981).

A incorporação do discurso antiditatorial ao seio do grupo atravessa assim a retórica nativa e se estende até hoje na verve de suas lideranças, sendo assimilada, compartilhada e pulverizada entre os demais integrantes. O ideário cultivado internamente vocaliza-se nos lemas, nos símbolos, nos dísticos e nas inscrições presentes em sua sede. A torcida se autorrepresenta como uma “força independente”, “fiscalizadora” do clube. Cabe a ela salvaguardar seus lídimos princípios, populares e democráticos, vigiando de maneira ostensiva o comportamento, via de regra suspeitos, de seus dirigentes.

A eleição à diretoria corintiana de 1971, primeiro pleito que contou com a participação institucional dos Gaviões da Fiel, foi sintomática das dificuldades envolvidas na atuação política dentro do clube.

Casagrande, ex-jogador que atuou na época da Democracia Corinthiana, também compareceu ao evento e autografou livros. Foto: Reprodução/Instagram/Vinicius Lúcio/Gaviões da Fiel.

O pleito antepôs a situação, presidida novamente por Wadih Helu, e a chapa de oposição Revolução Corintiana, encabeçada por Miguel Martinez e Vicente Matheus como vice-presidente. O apoio dos Gaviões da Fiel à Revolução Corintiana alicerçava-se ideologicamente em três promessas de campanha: o fim da reeleição à presidência do clube; o término do acúmulo de cargos políticos concomitantes à presidência corintiana; e uma reformulação do Departamento de Futebol. A aliança entre a torcida organizada e Vicente Matheus refletia, por um lado, a pouca diversidade de grupos e propostas políticas dentro do Corinthians; por outro, espelhava o aumento da influência dos Gaviões no cenário político.

A relação entre Matheus, que alijou Martinez da presidência em 1972, e Flávio La Selva, o gavião n.1, estendeu-se ao longo de toda a década. O fundador da torcida foi figura influente durante as presidências de Matheus e ocupou a diretoria do departamento de assuntos extramunicipais do clube em 1974, entre outros cargos.

A estratégia de atuação na política institucional do clube do Parque São Jorge atendia à proposta fiscalizadora dos Gaviões da Fiel, porém aprofundava seus dirigentes no sistema de relações políticas clientelistas do universo da diretoria corintiana. No entanto, a atuação da torcida dava-se em âmbito a um só tempo interno e externo ao clube, sob a realização da pressão cotidiana por resultados e mudanças.

A auréola democrática apregoada na memória coletiva do grupo consubstancia-se assim numa série de práticas e representações, capazes de manter-se mais ou menos coerentes ao longo do tempo. Dentre as que se perpetuaram, evoque-se a tradição de realização de reuniões para admissão dos novos associados, quando a história, a “ideologia” e o “procedimento” do torcer gavião são repassados oralmente e de maneira intergeracional, dos mais experientes aos mais novos. O rito atualiza-se a cada tarde de sábado, uma vez por mês, quando os encontros têm lugar em uma sala de reunião da quadra.

A retórica da “democracia”, tal como a entendem seus líderes, repercute também na realização de eleições diretas regulares, a cada dois anos, para a presidência da torcida, sem direito à reeleição. Cabe aos associados também, hoje em número de mais de cem mil, que estejam em dia com a mensalidade, a escolha da lista de sessenta conselheiros, que se alternam em paralelo à existência de um conselho vitalício, constituído por fundadores e ex-presidentes. Como nos princípios estatutários do Corinthians, trata-se de serviço voluntário, efêmero – hoje o mandato tem duração de 3 anos – e sem remuneração.

Assim, em cinquenta anos de história da agremiação, mais de duas dezenas de nomes diferentes estiveram à testa da entidade. A representação, que hoje se dá por votação direta, já foi também indicação e atribuição do conselho deliberativo, constituído por membros eleitos e permanentes, que têm a incumbência, por sua vez, de votar no candidato à presidência e à vice-presidência da Gaviões, para um mandato com validade de dois anos.

Trata-se de um sistema de alternância de poder com duração e longevidade sem precedentes no universo dos torcedores brasileiros. Em particular, quando comparamos o modo tradicional de representatividade das lideranças e de ocupação da presidência em outras torcidas, mais suscetíveis à influência do carisma e à imposição física dos subgrupos mais estruturados à frente da entidade, num jogo de influências entre as bases territoriais torcedores que não eliminam disputas corporais, coações e intimidações na busca por supremacia.

Adílson Monteiro Alves, vice-presidência de futebol do Corinthians no início dos anos 1980, também participou do evento e, nesta foto, mostra-se orgulhoso diante de manchete de reportagem jornalística da época. Foto: Reprodução/Instagram/Vinicius Lúcio/Gaviões da Fiel.

No entanto, nem todas as discordâncias e projetos encontraram espaço de coexistência dentro da torcida corintiana. As rupturas, dissidências ou “rachas”, acontecimentos internos recorrentes nas torcidas organizadas na luta por controle e poder, protagonizaram a criação da torcida Camisa 12, em 1971, e do Movimento Rua São Jorge (MRSJ), em 2008.

Enquanto a Camisa 12 solidificou-se como torcida organizada, instrumentalizada em seu princípio pela direção do clube, a proposta do MRSJ era ser um movimento de pressão pela retomada da ideologia fundante dos Gaviões, que na visão insurgente, era deixada em segundo plano pelo avanço da institucionalização do carnaval e da monetarização das relações entre sede e subsede, entre lideranças e suas bases. O MRSJ chegou a constituir sede própria e, após acordo, retornou à sede da torcida em 2012, com seus integrantes a compor as chapas vencedoras das eleições bianuais desde então.

Voltando à história, a narrativa da democracia prolonga-se dos anos 1960 à segunda metade da década de 1970. A “invasão corintiana” ao Rio de Janeiro, em dezembro de 1976, foi capital nesse sentido, não só para os Gaviões como para o conjunto dos torcedores, no drama da sua luta por um título. O deslocamento em massa de milhares de torcedores do estado de São Paulo para a partida semifinal no Maracanã, estádio que se dividiu ao meio para acolher a torcida paulista, guarda a marca indelével de inúmeros relatos enaltecedores.

Segundo relata o então presidente Julião, na entrevista para o Acervo, os Gaviões organizaram uma caravana com 113 ônibus. À época a torcida contava com pouco mais de 700 componentes, um número tímido nos dias de hoje, mas bastante expressivo para aquele período. O grupo tivera uma sala própria na rua Santa Ifigênia e, graças à habilidade política de Flávio La Selva, recém-adquirira um amplo terreno para a sua sede, no Bom Retiro. As viagens daquele ano fizeram a mística “Fiel”, alcunha genérica para a torcida do Corinthians, mover-se por milhares de quilômetros de estradas brasileiras para assistir às partidas finais do seu time. Sob a forma das caravanas, torcedores cruzaram o país de Recife (quartas de final) a Porto Alegre (final), passando pelo Rio de Janeiro (semifinal) para acompanhar os últimos jogos do Campeonato Brasileiro de 1976.

A esse episódio emblemático, eivado de narrativa sacrificial, somaram-se outros, de cunho político, na virada dos anos 1970 para 1980. Um dos que se enraizou na “mitologia” da torcida corintiana foi a faixa pela Anistia – Ampla, Geral e Irrestrita – desfraldada na área das arquibancadas ocupada pelos Gaviões da Fiel. O feito ocorreu em um Morumbi lotado, com mais de cem mil espectadores, no dia 11 de fevereiro de 1979, durante uma partida contra o Santos.

A ideia partira de dois jornalistas, Antônio Carlos Fon e Carlos McDowell. A iniciativa conta com o apoio de algumas referências internas aos Gaviões, dentre elas: Dentinho, então responsável pelo setor de bandeiras da torcida, e Chico Malfitani, fundador da torcida em 1969 e à época jornalista da Folha de São Paulo e da revista Veja.

A associação entre um time de futebol e a conjuntura democratizante por que passou o Brasil teve continuidade no início dos anos 1980. O processo interno de gestão do Corinthians culminou na experiência de autogestão da “Democracia Corintiana”. A forma de participação dos atletas no clube teve forte apelo nos meios de comunicação, com ressonâncias no imaginário da torcida corintiana.

Chico Malfitani (à esquerda), um dos fundadores da Gaviões da Fiel, e Antônio Carlos Fon (à direita), jornalista, dois dos responsáveis pela faixa “Anistia ampla, geral e irrestrita” desfraldada no estádio Morumbi em plena ditadura militar, em 1979. Foto: Reprodução/Instagram/Vinicius Lúcio/Gaviões da Fiel.

Não obstante esse alinhamento a posteriori, o antropólogo José Paulo Florenzano mostra a profunda ambiguidade dos Gaviões da Fiel em relação à Democracia Corintiana, ora apoiando-a de maneira incondicional ora repudiando com veemência o movimento, segundo o lema: “Democracia, sim; bagunça, não”. Este dado crítico à experiência da democracia proposta pelos atletas foi, no entanto, esquecido ou esmaecido na memória coletiva do grupo. O próprio fato de o Acervo Gaviões fazer do tema “Democracia Corinthiana” o mote do seu evento inaugural evidencia tal descompasso ou o objetivo retroativo de realçar uma coerência, por assim dizer, com a luta democrática na política interna do clube.

Por fim, pari passu à cronologia da história brasileira contemporânea, vale citar o movimento das Diretas-Já, no ano de 1984, quando alguns jogadores do time do Corinthians subiram aos palanques e discursaram nos comícios. No dia 25 de janeiro, determinados integrantes dos Gaviões da Fiel aderiram às manifestações ocorridas na Praça da Sé em prol das Diretas, quando cerca de trezentas mil pessoas compareceram ao evento. Compareceram com suas bandeiras, que se imiscuíram àquelas dos partidos políticos de esquerda, reposicionados após a Anistia e a volta do pluripartidarismo no país.

Segundo Luís Carlos Caldarone, um dos diretores dos Gaviões, citado por José Paulo Florenzano: “Dentro do Corinthians sempre resistimos a ditadores, como os ex-presidentes Wadih Helu e Vicente Matheus, e sempre lutamos pela democracia no clube, defendendo o voto do sócio torcedor”.

Não cabe aqui prolongar os pormenores de um enredo que articulou a reabertura política do Brasil, o desenvolvimento do futebol profissional no país e a história de uma agremiação clubística. O importante é chamar a atenção para a construção narrativa de um clube, em paralelo à representação de uma de suas torcidas mais antigas e exemplares, que soube se transformar em uma organização popular autônoma, com vida própria, ainda que orbitando em torno do futebol.

Sem negar sua relevância, procuramos neste texto apenas evidenciar como tal passado é construído pelo seu núcleo original e transmitido coletivamente às gerações seguintes e ao conjunto de componentes da torcida. Por um lado, é mister reconhecer que esse sentido atribuído à fundação e à história é bem-sucedido, cumprindo seu papel de “enquadramento da memória” e de soldadura grupal.

Nesse sentido, a criação de uma Velha Guarda dos Gaviões da Fiel, mimetismo da hierarquia etário-geracional do universo carnavalesco, ocorreu em meados da década de 1990. O setor atende à dupla função de repositório ideológico e de elo entre o passado e o presente da entidade.

Por outro lado, desde o restabelecimento da democracia no país, sobretudo a partir dos anos 1990, o crescimento quantitativo exponencial da torcida – de centenas de associados de uma cidade à casa dos milhares dispersos em todo o país – faz com que a transmissão do que chamam de “ideologia” dos Gaviões torne-se mais difícil de se concretizar e de adquirir um sentido unívoco. O controle do que significa ser um gavião dilui-se face a novos contingentes que se somam à torcida, timbrando seus próprios modos de conduta, em paralelo à voz oficial.

José Cláudio de Almeida Moraes (Dentinho), abraçado nesta foto, também compareceu ao evento. Foto: Reprodução/Instagram/Vinicius Lúcio/Gaviões da Fiel.

Não vamos nem entrar na problemática contemporânea da violência e da transgressão comportamental, com focos críticos radicalizados e multiplicados nas rixas mortais dos últimos vinte anos. Fiquemos no próprio discurso contra a “ditadura” na sociedade e vejamos como este tem dificuldade de se arraigar entre os mais novos. Trata-se do desafio de fazer chegar a mensagem da cúpula, e da sede da torcida, à massa que compõe a base de seus torcedores e que integra as periferias, por meio das suas subsedes.

Como exemplo, evoquemos o incidente da campanha à presidência da República de 2018, quando Digão, atual presidente dos Gaviões, posicionou-se, em nome dos princípios históricos da torcida, pelo “Ele Não”. Isto é, manifestou publicamente seu repúdio ao candidato Jair Bolsonaro, pelo que representava de ameaça e regressão ditatorial no país. A postagem nas redes sociais, no entanto, dividiu a torcida ao meio e acirrou os ânimos internos, sendo alvo de uma saraivada de críticas, uma vez que um número considerável de seus integrantes, como boa parte da sociedade, mostrava-se simpatizante do candidato e aderia, por motivações múltiplas, à aventura e ao projeto do “bolsonarismo”.

Desde então, ante a ausência de consenso interno, o debate macrossocial sobre a política brasileira contemporânea não reapareceu nas vozes oficiais do grupo. Sem embargo, com relação à sua fundação e ao seu mito de origem, os relatos prestados ao Acervo Gaviões continuam a endossar seu mito de origem em 2019, salientando a retórica da luta e da resistência de 1969 “contra todo o ditador que no Timão quiser mandar”.