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O lugar inalcançável da figura pública no futebol: caso Jean

Crisneive Silveira

O goleiro Jean, atleta que estava no São Paulo, foi acusado pela esposa de agressão em um hotel nos Estados Unidos. Milena Bemfica denunciou a ocorrência nas redes sociais, onde apareceu em vídeos com o rosto machucado. Mesmo detido em flagrante, o jogador deixou a prisão depois de audiência na justiça americana. O time paulista repudiou a atitude do jogador e suspendeu o contrato de trabalho. Mas o interesse de outros clubes não demorou a aparecer. Ceará e Atlético-GO, os dois da Série A, disputaram o esportista. Há mais de um mês, ele deixava o cárcere após socar várias vezes a companheira diante das filhas. O que mudou até então? Para ele, pouco. Time novo, treinos rolando e o sentimento de “a vida continua”. Para quem vê de fora, a impunidade seletiva e velada assombra. Figuras públicas do futebol costumam ser acolhidas em um véu de tolerância e aparente impunidade. Jean continua sendo processado por violência doméstica nos EUA.

A cada 2 minutos uma mulher sofre esse tipo de agressão no Brasil. Foram 263.067 casos de lesão corporal dolosa registrados. O número de vítimas de feminicídio teve crescimento de 11,3%, com 1.206 mulheres mortas. A maioria (29,8%) tinha entre 30 e 39 anos. Em 88,8% dos casos o algoz foi o companheiro ou ex-companheiro e 65,% dos óbitos ocorreram na própria residência. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019.

O perfil do agressor comum é daquele improvável, mas próximo: namorados, maridos, ex, algum parente… Das mãos do goleiro, oito socos na então companheira após discussão numa viagem de férias. Ele ainda ameaçou deixar as duas filhas pequenas sem amparo financeiro, caso a denúncia prejudicasse a carreira dele. Separar o homem do atleta é proteger esse tipo de comportamento, é injustificável sob todos os aspectos.

A foto da ficha do jogador de futebol Jean Paulo Fernandes Filho, quando foi detido em 18 de dezembro de 2019, acusado de agredir sua esposa. Foto: Wikipedia.

No lugar inalcançável da figura pública, o jogador foi acolhido no silêncio dos compadres da bola. Ou seria indiferença deles com o caso? Algo bem pior até. A maioria deve discordar da atitude do colega, mas escolher o silêncio perante qualquer violência, no nível que seja, é sedimentar a continuidade dela. Ouvir publicamente o repúdio de um parceiro talvez causasse desconforto, raiva, mas o que é isso perto das marcas no corpo da mulher espancada pelo sujeito que acreditava ser o companheiro de vida dela?

O homem sob o uniforme é também vitrine daquilo que o clube é e deseja representar. Nesse contexto, todo atleta precisa compreender o inerente papel de exemplo e mobilizador na sociedade em que vive – não como um ato pretenso à utópica perfeição, mas como uma prática de bom senso. Isso reflete positivamente na imagem de qualquer clube e, claro, na carreira do esportista. O talento mais valoroso no mercado é a integridade.

O Ceará sondou o arqueiro, mas logo foi demovido pelo protesto vindo principalmente da torcida feminina. Nas redes sociais, as críticas surgiram com as hashtags #JeanNão e #JeanNoCearaNão. Não seria a primeira vez do clube em contratar atletas com histórico de envolvimento em casos de violência às mulheres. Em junho de 2016, o atacante Wescley chegou a ser indiciado por agressão contra a então companheira, grávida à época. Ele segue compondo o elenco. Outro a também passar pelo Vovô, em 2018, foi Juninho. Quando ainda atuava no Sport, o avançado foi preso, acusado de agredir e ameaçar de morte a ex-namorada.

O presidente Alvinegro comentou o recuo no caso Jean. Em entrevista ao Jornal O Povo, Robinson de Castro lamentou “perder” o atleta:

“Ele cometeu um erro, um procedimento no âmbito criminal, mas existe essa coisa toda na rede social, de empoderação [sic] de determinados setores da sociedade e criam também esse tipo de resistência. Se fosse uma convicção muito forte do clube poderia ter acontecido. Mas Deus escreve certo por linhas tortas. Não existiu grande convicção. E se acontecesse a mesma coisa envolvendo o Neymar e tivesse a oportunidade de trazer para o Ceará? A gente iria trazer ou não? Iria ter convicção? A reação das pessoas seria da mesma forma ou reduziria bastante? Está um pouco vinculado ao tamanho do profissional. As pessoas são mais permissivas com algumas situações. Eu não sou radical”, disse.

O goleiro Jean foi emprestado pelo São Paulo ao Atlético-GO até o fim de 2020. Foto: SPFC/Divulgação.

O goleiro não demorou a achar casa nova. O Atlético-GO acertou empréstimo do jogador até o fim de 2020. A torcida do Dragão, assim como a alvinegra, reprovou a notícia. Apesar disso, a diretoria manteve a negociação. Jean treina normalmente, mas a apresentação oficial ainda não ocorreu. Ele sequer aparece na lista de jogadores no site do clube. O presidente Adson Batista anunciou o reforço durante coletiva de imprensa.

“O Atlético-GO contratou o Jean, que teve um problema familiar, uma questão que nós não apoiamos, mas entendemos que é um grande atleta. Sou amigo do empresário dele, o Paulo Pitombeira, e conseguimos efetivar essa contratação por entender que todo ser humano merece ter oportunidade. Todos nós temos problemas, todos nós erramos, e o Atlético vai dar todo o respaldo para que ele possa conseguir retomar sua carreira. O Atlético é um clube familiar. Evidente que ele sabe que não pode errar mais, que não pode cometer esses equívocos. Mas nós entendemos que todo ser humano pode se recuperar. […] Nós temos que buscar qualificar todos os setores”, declarou.

O reforço do preconceito ao gênero feminino vindo na fala de dirigentes de dois clubes da principal divisão de futebol do país é só mais outro exemplo da cultura de agressão a ser combatida. Relativizar e minimizar comportamento criminoso, ainda por cima numa época onde a mulher se apropria cada vez mais da própria voz, além dos respectivos direitos e espaços, é um retrocesso inconcebível como sociedade. Essa “coisa toda”’ tem nome: é Feminismo! Um movimento sério. Tem estudo, propósito e empoderamento. Toda mulher, só por ser mulher, é alvo. Mais que uma bandeira pela equidade, é luta por sobrevivência. O futebol não pode e nem deve ser alheio a essa transformação tão necessária.

Bahia: exemplo possível

O Bahia é um exemplo raro de clube com ações e conversas permanentes voltadas para o tema. O tricolor baiano lançou o aplicativo #MeDeixeTorcer, para torcedoras denunciarem assédio em tempo real. O meio futebolístico invisibiliza atitudes de ódio ao feminino quando silencia. É tocar o corpo da mulher sem autorização, é forçar o beijo, é menosprezar o comentário dela sobre o time, é reduzi-la a objeto… O esporte reflete a sociedade machista em que vivemos.

Protesto de mulheres de Várzea Grande-MT contra a contratação do goleiro Bruno pelo Operário-MT. Foto: Reprodução.

Caso emblemático é o do ex-goleiro do Flamengo, Bruno Fernandes, preso pela morte da ex-companheira Eliza Samudio. Condenado por homicídio triplamente qualificado, ele continua disputado por clubes, especialmente pela mídia que atrai. Apesar do ato bárbaro, o detento não perdeu o status de ídolo, não desceu do pedestal de figura pública. Em regime semiaberto, o jogador acaba de acertar com o Operário-MT. O discurso aqui é em cima dessa proteção transparente, mas visível sobre figuras masculinas agressoras. O status os torna aceitáveis dentro de uma coletividade e, por vezes, à revelia de suas leis, em detrimento do que se imagina ser apenas um jogo. Mas nunca será só isso.

Hoje (23/01), o Atlético-GO estreia no campeonato estadual. Jean deve ser apresentado até lá. Ou, talvez, o homem siga silenciosamente blindado pelo jogador. Futebol nenhum está acima da vida de alguém. Quem comete um crime deve responder por ele. Isso não lhe tira o direito de se arrepender e seguir adiante. Mas por que tanto silêncio e apatia de grande parte dos clubes, entidades e jogadores quando o assunto é o envolvimento de seus pares com episódios de violência contra a mulher? Para onde vai a indignação e a representatividade tão pregadas no 8 de março e em campanhas de marketing? Nesse jogo sem prorrogação, a voz que mais precisa ser ouvida ainda é ignorada e silenciada.