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O machismo velado que prejudica o futebol feminino

Gabriel Said

Está se tornando comum ver os clubes de futebol em campanhas de marketing contra preconceitos, discriminações e intolerância. Por mais agradável que seja ver campanhas deste tipo, sempre fui cético sobre essas campanhas, afinal, além de uma imagem com algumas palavras sobre respeito ou talvez um vídeo curto sobre o assunto, tenho muita dificuldade em lembrar de alguma vez que um clube ou federação fizeram algo concreto sobre racismo ou machismo no futebol.

Os clubes e as federações se beneficiam de manifestações identitárias passivas, pois acontecem de uma forma que é possível capitalizar em cima das pautas identitárias. O identitarianismo contemporâneo se sustenta a partir da sociedade individualizada, subjetivada por indivíduos livres mestres do próprio destino e vítimas do que se passa fora de seu controle. O Outro e o mundo exterior representam sempre uma ameaça para o Eu, que busca a sua afirmação na própria individualidade. Como diz Slavoj Žižek em “O Sexo e 68: o movimento liberal revolucionou a sexualidade, mas a que custo?”:

“O paradoxo é que, na forma atualmente predominante da individualidade, a afirmação autocentrada do sujeito psicológico acompanha a percepção de si do sujeito como vítima das circunstâncias.”

 

Marta, que luta pela igualdade de gênero no futebol, comemora seu gol de pênalti contra a Austrália na Copa do Mundo da FIFA 2019. Foto: Rener Pinheiro/MoWA Press.

O machismo é um problema estrutural na cultura ocidental e se repete no futebol. Dando um exemplo fácil: Quantas mulheres ocupam a presidência, diretoria ou chefiam corpos técnicos no futebol? A não ser que você leitor(a) tenha uma noção de equilíbrio igual à do presidente Jair Bolsonaro – que diz que o ministério é “equilibrado” porque cada mulher vale por dez homens – vai perceber a discrepância em cargos de poder. A própria frase do presidente já mostra um machismo velado, pois, ao afirmar que a mulher vale por dez homens, está implícito que também pode ser cobrado dela o equivalente a dez homens.

O discurso liberal de empoderamento individual e a representatividade apenas pela aparência, apesar de agradar muita gente, não estão combatendo o sistema que cria e reproduz a opressão. Na verdade, uma das características mais admiráveis do capitalismo na concepção deste como uma modalidade ético/religiosa proposta por Walter Benjamin é que quanto mais destruído o capitalismo parece estar, mais forte ele é. As lutas progressistas contra a opressão e a antiga tradição familiar de Maio de 68 foram engolidas e redefinidas pelo sistema capitalista global de forma que a luta seja individualizada em busca de sua própria individualidade, de forma que não apenas a mais-valia seja preservada, mas também potencializada através do consumismo promovido, pois o capitalismo como fundamento religioso tem como característica essencial o culto do consumo e tudo se transforma em mercadoria, até mesmo nossas identidades.

Um comercial da Nike chamado Dream Further lançado poucos dias antes do início da Copa do Mundo Feminina de Futebol pode ilustrar bem isso: O comercial mostra uma garota prestes a entrar em campo com o time feminino da Holanda para um jogo contra a Nigéria, como é comum em todos os grandes jogos. A história do comercial começa para valer quando a jogadora holandesa Lieke Martens segura a garota sem nome e então ambas começam a jogar juntas. Na narrativa do comercial, essa garota vai sendo transportada para outro jogo com a equipe inglesa, uma sessão de fotos com Andressa Alves, é produzido também um jogo de videogame alternativo ao FIFA que ironicamente é jogado por Neymar, agora investigado por estupro e por divulgação de fotos íntimas de uma mulher.

Também aparece a garota ao lado de uma treinadora de futebol comandando o Barcelona masculino – e aqui vem outro momento curioso, pois Piqué comemora seu gol esticando a camisa dando destaque ao patrocinador do clube. Depois de mais algumas cenas o final do comercial é frustrante; todos aqueles momentos mágicos se revelam exatamente como tal: mágicos, fictícios. A garota anônima é assim pois ela representa qualquer menina que queira jogar futebol, seus sonhos podem ser inúmeros, mas um mundo em que o futebol feminino é o hegemônico não passa de um sonho. O comercial no final passa uma mensagem parecida com a que Žižek identificou no filme Pantera Negra. “Podemos todos curtir essa fantasia de hegemonia feminina, nenhum de nós está de fato ameaçado por isso”. 

O sistema capitalista lucra com a ilusão emancipatória que deve ser consumida, por isso a mensagem final é “Não mude seu sonho. Mude o mundo”, você deve ser a garota sonhadora que vai conseguir mudar o mundo apenas jogando futebol. Claro que jogar futebol é importante, mas só jogar futebol não faria a Seleção Americana Feminina deixar de receber premiações menores do que o time masculino mesmo gerando mais receita. Ao invés de correção política em um comercial, é necessária uma correção da política, pois não é apenas jogando – mesmo que gerando mais receita que os homens – que as mulheres vão conseguir “mudar o mundo”.

Entre as bem-aceitas e passivas campanhas por igualdade, é possível encontrar momentos “sinceros” sobre o machismo estrutural no futebol. Nas vésperas de um jogo no Dia dos Namorados de 2019 o Botafogo fez a seguinte promoção: “Dica de lugar para passar o Dia dos Namorados quarta: Estádio Nilton Santos! – Mulher não paga”.

Uma observação mais atenta sobre o recado pode revelar algo: A mulher está sendo convidada ao estádio. Meses depois de campanhas no futebol falando que o lugar da mulher é onde ela quiser para defender a ideia de que o estádio de futebol também era lugar delas, agora são convidadas a irem ao estádio e nem precisam pagar. Como boates que cobram menos de mulheres ou homens que insistem em sempre pagar integralmente a conta, o convite gratuito ao jogo não reforça o pensamento do homem como provedor? A melhor promoção não seria algo como na compra de dois ingressos, o segundo é gratuito, com estímulo para que a pessoa leve alguém no Dia dos Namorados?

É obviamente positivo o apoio à Seleção Brasileira feminina de futebol nas grandes competições, mas a CBF não deveria ser  questionada pela repentina demissão da primeira treinadora da Seleção, Emily Lima, e a recontratação do Vadão mesmo este provando incapacidade através dos resultados e qualidade dos jogos? Emily Lima desde então foi campeã paulista com o Santos em 2018 e atualmente está brigando pelo título do Campeonato Brasileiro Feminino. A demissão de Emily na época não era sustentada por uma falta de resultados, já que Vadão teve muito mais tempo para trabalhar e com resultados e modelo de jogo muito inferiores. Se a situação fosse a inversa não haveria problema algum, mas a impressão é que realmente as mulheres devem trabalhar e ter um desempenho dez vezes maior do que um homem, e não são campanhas publicitárias isoladas que vão mudar isso. O passo além para a mudança está em pessoas como Macarena Sánchez.

Emily Lima, em entrevista para o Ludopédio. Foto: Ludopédio.

Por fim, alguns questionamentos: Já que as mulheres agora têm seu próprio uniforme, por quê as estrelas das conquistas dos Mundiais masculinos foram transferidas para a camisa feminina? O que acontecerá se a Seleção Feminina ganhar este mundial; homens e mulheres vestirão camisas com seis estrelas, ou as mulheres terão uma camisa com sua estrela solitária enquanto os homens mantêm as cinco estrelas?