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O melhor Grêmio dos últimos anos

William Gomes

Todo início de temporada, seja por contratações, pela venda de jogadores, troca de comissão técnica, eleição do presidente, o torcedor sente como o time está e já se programa para a temporada. “Este ano vamos levar o estadual em cima do rival”, “é obrigação ganhar um título nacional em 2017”, “este ano vai ser difícil, é lutar para não cair e tentar ir longe na Copa do Brasil”. O torcedor conhece seu time, acompanha a anos, temporada após temporada, já tem o feeling da equipe, assim como um pássaro, sabe se o ano vai ser cheio de tempestades e de tempo adverso, ou se o sol, a paz e a tranquilidade reinarão no centro de treinamento. Claro que não podemos deixar este nosso achismo de torcedor se tornar uma verdade incontestável, afinal somos humanos, erramos em nossas intuições futebolísticas. O futebol é uma caixinha de surpresa e nem mesmo o mais otimista torcedor do Leicester imaginava o título da Premier League ano passado, assim como nem mesmo o mais pessimista dos vascaínos imaginaria que seu time frequentaria tanto a Série B nos últimos anos.

Eu, assim como a maioria dos torcedores, também tenho essa sensação, e confesso, a muitos anos eu não via o time do Grêmio tão bom quanto o deste início de Campeonato Brasileiro. Este ano não me parece ser aquele Grêmio, que por tradição é um dos grandes favoritos, mas que em novembro e dezembro, está no meio da tabela, rezando para uma vaguinha na Libertadores cair do céu. Com isto, também não estou cravando que o Grêmio será campeão brasileiro 2017, tendo em vista que há equipes com melhor elenco para se sustentar durante o campeonato, como Atlético Mineiro, Palmeiras ou Flamengo, mas dá para ir mais longe.

Se olharmos para o Campeonato Gaúcho, a ano parece não ter começado tão bem. A equipe não chegou nem às finais do Gauchão, porém tendo em vista a utilização de um time reserva em algumas partidas e também a eliminações no pênaltis, na semifinal contra a boa e competitiva equipe do Novo Hamburgo, campeão do campeonato, não foi um campeonato jogado fora. Apesar de o investimento de um time da capital ter uma discrepância oceânica em relação a de um time do interior tornando assim quase que uma obrigação o título do certame regional. O Grêmio, a priori, parece ter conseguido extrair aprendizados disto, principalmente corrigindo as dificuldades nas bolas aéreas defensivas, os gols que antes eram sofridos deste tipo de jogada agora são menos rotineiros e o desperdício de gols que antes eram abundantes durante o Campeonato Gaúcho parecem ter sido mais aproveitados neste início de competições nacionais.

Gremio x Bahia RS - FUTEBOL/CAMPEONATO BRASILEIRO 2017/GREMIO X BAHIA - ESPORTES - comemoração do gol de Cortez no jogo Gremio e Bahia disputado na noite desta segunda-feira, na Arena, valida pelo Campeonato Brasileiro 2017. FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

Jogadores do Grêmio comemoram gol. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA.

Na Libertadores, o time poderia facilmente se classificar com a melhor campanha de todos os grupos. Foi 100% em casa e fora teve uma derrota (de virada, com dois gols de bola parada), um empate e uma vitória. A questão é que o Grêmio foi bem nesta primeira fase da Copa Libertadores. Você pode até questionar que o grupo era um dos mais fáceis, mas isso não é culpa do Grêmio, a equipe fez o seu dever de casa, aproveitou-se dessa vantagem buscando alcançar a melhor classificação geral para tentar jogar a segunda partida dos confrontos da próxima fase eliminatória em casa.

Há anos eu não via um Grêmio que me desse esperanças como o de 2017. Confesso que com a venda de Walace no início do ano para o futebol alemão, sem a contratação de alguém a altura para repô-lo, me trouxe preocupação. Mas foram encontradas soluções caseiras. Arthur e Ramiro já me fazem não sentir mais tanta falta de Walace, um dos pilares do time na conquista da Copa do Brasil em 2016.

Posição por posição, são poucos os jogadores que podem comprometer e entregar em algum lance. Apesar de ainda não ser unanimidade junto a torcida, eu sei quem é e confio muito em Marcelo Grohe. Identificado com o clube, é da base e está no Grêmio desde o início dos anos 2000, tendo passado aqui o tempo das vacas magras na Série B em 2005. Sei que Marcelo tem totais condições de contribuir para levar o Grêmio à títulos de importância histórica para o clube.

A zaga do time este ano é um ponto fortíssimo da equipe. Sobre Pedro Geromel, eu nem preciso falar, é um dos melhores zagueiros do mundo em atividade, ou pelo menos um dos melhores do continente. Porém a zaga é constituída por uma dupla, e desde a saída de Rhodolfo, em 2015, não consegui ver alguém que se firmasse ao lado de Geromel. Quem quase chegou lá foi o equatoriano Erazo, mas este vivia de inconstâncias, muitas vezes abusando de dribles na hora errada. Até que o Grêmio trouxe o cara certo, o argentino Water Kannemann, Cãonnemann para alguns, tem uma raça de quem não perde viagem que casou muito bem com a eficiência técnica de Geromel. E quando não pudermos contar com um deles, temos no banco Thyere, que não é mais nenhuma grande promessa, mas que já enfrentou o Corinthians de Tite no Itaquerão lotado e deu conta do recado.

Por fim, fechando o sistema defensivo, o Grêmio hoje conta com dois laterais-direitos que poderiam ser titulares na maioria dos clubes brasileiros: o Edilson, jogador copeiro, virtude apreciada pela torcida tricolor, e o experiente ídolo do Flamengo, Léo Moura. Há tempo o Grêmio não dispunha de tanta qualidade pelo lado direito. Pará nunca foi unanimidade, dizia-se que tínhamos um lateral que não sabia cruzar, e Galhardo apesar de ter o seu papel no time de Roger, era o famoso “da pro gasto”, não comprometia muito na defesa, vez ou outra auxiliava de forma efetiva no ataque, mas nada além disso. Já na lateral-esquerda temos um caso de amor e ódio. Marcelo Oliveira, é um jogador de raça, assim como Edilson é copeiro, se entrega, se doa a cada lance, porém tecnicamente tem certa insuficiência, e dia sim, dia também toma uma bola nas costas, ou então entrega uma bola, mas se estiver num de seus raros dias em que levanta com o pé direito, pode ser impecável apesar de suas limitações. A opção no banco é Bruno Cortês, melhor lateral-esquerdo do Brasileirão de 2011, que não vinha recebendo muitas oportunidades, mas com a lesão de Oliveira vem jogando e não comprometeu. Pode mais tarde até brigar por uma vaga nos 11 iniciais. Sabemos que Marcelo Oliveira está longe de ser o lateral-esquerdo titular ideal de um time que quer brigar por grandes títulos e que Cortês teve seu brilho mas depois não se firmou nos times pelos quais passou. Com certeza o lado esquerdo defensivo é o calcanhar de Aquiles da equipe.

04/06/2017- Porto Alegre- RS- Brasil- CAMPEONATO BRASILEIRO 2017/GREMIO X VASCO - ESPORTES - Lance da partida entre Gremio e Vasco disputada na tarde deste domingo, na Arena, valida pelo Campeonato Brasileiro 2017. FOTO: LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

Barrios e Luan comemoram gol. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA.

O Grêmio nos últimos anos tem sido um bom seleiro de volantes. Das categorias de base do velho Estádio Olímpico saíram nomes de destaque na Europa como Anderson, Lucas Leiva e Fernando, e nomes que não brilharam tanto mas que são bons jogadores como Rafael Carioca e Adilson, que hoje, coincidentemente, continuam juntos no Atlético Mineiro. E nesta posição o Grêmio está bem servido em 2017. Além do capitão Maicon, que está lesionado, mas logo estará de volta ao time, o Grêmio tem dois volantes que podem ser titulares, Arthur e Ramiro. São jogadores de qualidade, que marcam e chegam a frente. Ramiro inclusive é um dos artilheiros do time este ano, e Arthur é referência técnica no meio campo. Renato vai ter dor de cabeça na hora de compor o setor quando Maicon voltar.

A maior perda o time este ano, com certeza foi a lesão de Douglas, nosso camisa 10. Durante uma disputa de bola em um treino o atleta rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo e a previsão de uma volta plena ao gramados é só para 2018. Esta notícia preocupou muito a torcida, pois Douglas era a referência do time, melhor jogador da Copa do Brasil 2016. Com sua ausência, poderíamos imaginar que o time teria muitas dificuldades no setor ofensivo e de criação, porém, isto não aconteceu, pois na hora certa Miller Bolaños assumiu o protagonismo no ataque tricolor e se tornou a nova referência no ataque, superando o 2016 irregular. Este ano Miller tem tudo para mostrar porque o presidente Romildo Bolzan pagou cinco milhões de dólares por ele no início do ano passado.

Além de Miller, o Grêmio conta com que seja, talvez, a maior revelação do Grêmio desde Ronaldinho Gaúcho, Luan. O garoto vindo do interior de São Paulo é muito diferenciado, com boa capacidade de drible, passe e movimentação. Apesar da crítica da torcida pelo jogador não estar em uma fase artilheira, Luan é o melhor jogador do time, é o jogador mais valioso da Libertadores 2017, e é um dos melhores do Brasil.

Temos ainda que salientar a importância de Pedro Rocha no ataque gremista. Não é nenhum goleador, nenhuma referência técnica, mas é o cara que cumpre aquele papel de formiguinha, que ninguém da valor, mas que no final faz toda diferença com aquela roubada de bola na defesa, aquela marcação alta no início do ataque adversário ou então aquela movimentação que puxa a marcação para um lado e desafoga o outro. É um dos líderes de assistência da equipe este ano, e além disso, tendo em vista a deficiência que temos na lateral esquerda, ele contribui muito ao exercer o papel de voltar e auxiliar na marcação.

Por fim, a cereja do bolo. Apesar de termos bons atacantes, que no futuro podem estar brilhando na Europa, não tivemos nos últimos tempos um fazedor de gols, o cara que não se assusta quando o goleiro abafa, que o gol não encolhe quando os zagueiros fecham a frente. Depois de algumas tentativas frustradas ou não tão eficientes como Barcos, Bobô, Brian Rodriguez e Henrique Almeida, este ano o Grêmio tem o homem gol: Lucas Barrios. O experiente centroavante argentino naturalizado paraguaio caiu como uma luva no time, uma equipe que toca a bola, arma a jogada, mas não tinha alguém para concluir. Este ano temos, e os números mostram isto: em 17 jogos, Barrios já tem 11 gols, sendo mais uma de nossas esperanças para este ano.

04/06/2017- Porto Alegre- RS- Brasil- CAMPEONATO BRASILEIRO 2017/GREMIO X VASCO - ESPORTES - Lance da partida entre Gremio e Vasco disputada na tarde deste domingo, na Arena, valida pelo Campeonato Brasileiro 2017. FOTO: LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

Renato Gaúcho passa instruções para Pedro Rocha. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA.

Além de ter todas essas e outras peças de qualidade e que podem juntas trazer taças para a Arena, o Grêmio conta com um grande ídolo e motivador na beira do campo, Renato Gaúcho. Trazido ano passado após uma crise de apatia do bom time de Roger Machado, Renato deu ânimo e vontade de vencer a equipe tricolor. Reconheço que não Renato não é uma unanimidade com a torcida e muitos não o enxergam como um cara que entende de futebol, o veem como um ex-jogador que simplesmente é motivador. Confesso que ainda não tenho uma opinião formada, sei que ano passado o título veio em muito, pelo trabalho tático feito por Roger, mas ainda assim, mais de meio anos após a saída de Roger, o trabalho é outro, a filosofia é outra e o time ainda joga bem, faz triangulações, propõe o jogo, constrói jogadas e vai em busca do placar. O Grêmio vem numa crescente, basta a equipe não oscilar durante o ano, sabemos que é difícil manter-se em alto nível durante uma temporada inteira mas seria interessante encontrar um platô de alta qualidade técnica e manter este qualidade, ou então não fugir muito disso, oscilar o menos possível em qualidade e em números de jogos.

Não quero iludir ninguém, nem a mim mesmo, mas este ano o Grêmio pode ir além e colher frutos mais saborosos que os de 2016.

Como citar

GOMES, William. O melhor Grêmio dos últimos anos. Ludopédio, São Paulo, v. 96, n. 16, 2017.