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O “Milagre de Berna” e um torcedor entre deus e o diabo

Elcio Loureiro Cornelsen

Na Copa de 2014, a seleção alemã sagrou-se tetracampeã de modo inquestionável. Uma das potências do futebol mundial, a Alemanha, assim como o Brasil, tem nessa modalidade esportiva a sua principal representação. Isso se reflete também no modo como o futebol passa a ser objeto de interesse nas produções literárias e artísticas.

Uma dessas produções que merece destaque é o conto O domingo em que me tornei campeão do mundo (título original: Der Sonntag, an dem ich Weltmeister wurde), publicado pelo escritor alemão Friedrich Christian Delius em 1994.

O referido conto – praticamente uma novela – retrata um momento significativo da história do futebol alemão, mais precisamente a primeira conquista da seleção alemã em 1954, na Copa da Suíça, dando ensejo ao mito do famoso “Milagre de Berna”. Basicamente, o conto é construído a partir do olhar memorialista de um adulto que narra sobre sua infância num lar protestante, sob uma educação rígida promovida por seu pai, que era pastor luterano – assim como a biografia do próprio escritor.

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Cena do filme Milagre de Berna. Foto: Divulgação.

Por assim dizer, esse narrador em primeira pessoa do singular estabelece uma perspectiva memorialista e se ocupa de sua infância e da educação rígida recebida no lar protestante. Com isso, a partida final da Copa da Suíça, disputada em Berna no dia 04 de julho de 1954, se torna o fio condutor para a narrativa. Enquanto ouve a transmissão de rádio da partida reunindo os selecionados da Alemanha e da Hungria, o garoto se confronta com vários temas, sobretudo com aspectos religiosos. Em certos momentos, o narrador-protagonista nutre até mesmo um sentimento de culpa por considerar que o ato de ouvir futebol seria uma espécie de “profanação” do lar protestante.

O domingo em que me tornei campeão do mundo se destaca também pelo caráter intertextual, ao integrar passagens literais da narrativa da partida transmitida pelo rádio, na voz do então famoso locutor Herbert Zimmermann. A título de exemplo, elegemos a seguinte passagem do texto em que o goleiro alemão Toni Turek fez uma grande defesa: nas palavras do locutor – “Turek, você é um sujeito do diabo! Turek, você é um deus do futebol!”.[1] E isso despertou os pensamentos do narrador-protagonista ao pé do rádio:

Eu me espantei com essas frases e, ao mesmo tempo, me alegrei, por Turek ter defendido, mas o espanto era mais profundo. […]: uma nova forma de adoração, um culto depravado nunca visto, uma missa pagã, na qual se conclama, simultaneamente, a deus e ao diabo. […][2]

Portanto, o narrador-protagonista espanta-se com os pensamentos e as palavras de cunho religioso, proferidos por Herbert Zimmermann durante a transmissão da partida para expressar o júbilo e emoção dos lances em favor da Seleção Alemã. Assim, aos olhos do adulto, que agora parece vivenciar o momento novamente como um garoto aos dez anos de idade, é como se estivesse cometendo um verdadeiro pecado. O sentimento de culpa leva-o até mesmo a mencionar os Mandamentos (Êxodo 20, 1 e 7) como proteção contra a “heresia”, mas percebe, ao mesmo tempo, que o “deus do futebol” – Fußballgott – assume o status de um ídolo humano, no caso, o goleiro Turek:

Não terás outros deuses diante de mim. Não pronunciarás em vão o nome de Deus, mas me agradava, ainda tomado pelo eco da expressão ‘deus do futebol’, que esse deus era bem humano, que deuses, ao invés de estarem pendurados na cruz e sangrando, estavam protegendo o gol ou marcando gols por mim, se esfolavam na chuva torrencial e lutavam feito Liebrich, Liebrich, sempre, outra vez Liebrich, e aos poucos comecei a perceber porque meus pais não gostavam de futebol do meu tímido interesse por esse esporte, talvez porque temessem a concorrência de outros deuses muito mais vivos.[3]

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Selo da Final de 1954 entre Alemanha e Hungria. Divulgação: footysphere.

Ao longo de toda a transmissão radiofônica da partida, o protagonista vivencia o jogo com intensa paixão, associada à imaginação dos lances. Até mesmo seu corpo parece ganhar vida própria, fugindo-lhe do controle, como se o protagonista estivesse conectado com os jogadores no Wankdorf-Stadium de Berna. E em meio a tanta excitação, ele tinha de manter o silêncio, para não quebrar a tranquilidade do domingo à tarde, ouvindo solitário a transmissão da partida no gabinete de seu pai, rodeado de estantes repletas de livros de teologia, “onde sermões foram escritos, serviços religiosos foram realizados, onde foram dadas instruções a casais de noivos e a padrinhos de batismo”.[4] Essa foi, aliás, a condição que o pai lhe impôs para que pudesse ouvir a transmissão da partida, mantendo estrito silêncio na casa.

Todavia, conforme a partida avançava, crescia a emoção pela perspectiva de uma vitória histórica do selecionado alemão, emoção essa represada, conforme ilustra a seguinte passagem do conto, emoldurada pela transmissão de rádio:

[…] E a Alemanha ataca novamente… a voz suave e alta me elevou, me excitou para um novo sentimento, que me lançou, simultaneamente, numa paralisia silenciosa, eu sentia o caudal das emoções que o segundo gol havia despertado em mim, mas eu não tinha nenhuma válvula de escape para isso, não podia ter, de modo que represei tudo dentro de mim, coletei, armazenei e fiz silêncio. Crianças, isto é uma aflição! [5]

Ao final, pouco antes de a Alemanha marcar o terceiro gol, o narrador-protagonista dá mostras de que espera ansioso o fim da partida e de todo o sofrimento:

 […] … seis minutos ainda, ninguém vacila, a chuva cai sem parar, é difícil, mas os espectadores resistem, quando é que a gente vai ver de novo uma final dessas, tão equilibrada, tão empolgante… Eu resistia, não suportava mais a tensão, o resultado me era quase indiferente, o mais importante era que os esforços sem limites do jogo logo acabariam… Schäfer cruza para o meio, a defesa tira de cabeça, vindo de trás Rahn devia chutar, Rahn chuta! Gol! Gol! Gol! Gol! Gol da Alemanha! [6]

A paixão pelo futebol é tratada ficcionalmente por Delius de uma forma muito rica, com muito sentimento para uma modalidade esportiva que fascina muita gente pelos quatro cantos do mundo. Ao final, o protagonista não tem dúvidas em afirmar: “sem perceber, eu era o mais afortunado de todos, talvez mais afortunado do que Werner Liebrich ou Fritz Walter”.[7]

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[1] No original: … Turek, du bist ein Teufelskerl. Turek! du bist ein Fußsballgott! In: Delius, Friedrich Christian. Der Sonntag, an dem ich Weltmeister wurde. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt, 1994, p. 93. Todas as traduções são de minha autoria.

[2] No original: „Ich erschrak mich über diese Sätze und freute mich gleichzeitig, daß Turek gehalten hatte, aber der Schrecken saß tiefer. […] eine neue Form der Anbetung, ein lästerlicher, unerhörter Gottesdienst, eine heidnische Messe, in der einer gleichzeitig als Teufel und Gott angerufen wurde. […]“ In: Delius. Der Sonntag, an dem ich Weltmeister wurde, p. 93.

[3] No original: „[…] Du sollst keine anderen Götter haben neben mir, Du sollst den Namen des Herrn nicht unnützlich führen, und doch gefiel mir, noch immer gebannt vom Nachklang der drei Silben Fußballgott, daß dieser Gott sehr menschlich war, daß da Götter, statt blutend am Kreuz zu hängen, für mich im Tor standen oder Tore schossen, sich abrackerten im strömenden Regen und kämpften wie Liebrich, Liebrich, immer wieder Liebrich, und langsam ahnte ich, weshalb meine Eltern für den Fußball und für meine schüchterne Neigung zu diesem Sport nichts übrig hatten und hier vielleicht die Konkurrenz anderer, lebendigerer Götter fürchteten.“ In: Delius. Der Sonntag, an dem ich Weltmeister wurde, p. 93-94. Grifos no original.

[4] No orginial: „[…] wo Predigten geschrieben, Andachten gehalten, Anweisungen an Brautpaaren und Taufpaten gegeben wurden, […]“. In: Delius. Der Sonntag, an dem ich Weltmeister wurde, p. 94.

[5] No original: “[…] Und wieder stürmt Deutschland… die leise laute Stimme hob mich, peitschte mich zu einer Regung auf, die mich gleichzeitig in einen stimmlosen Stillstand versetzte, ich fühlte den Sturm der Gefühle, den das zweite Tor in mir ausgelöst hatte, aber ich hatte kein Ventil dafür, durfte keins haben, also staute ich alles auf, sammelte, speicherte und hielt still… Kinder, ist das eine Aufregung!“. In: Delius. Der Sonntag, an dem ich Weltmeister wurde, p. 93. Grifos no original.

[6] No original: „[…] … sechs Minuten noch, keiner wankt, der Regen prasselt unaufhörlich hernieder, es ist schwer, aber die Zuschauer, sie harren aus, wann sieht man ein solches Endspiel, so ausgeglichen, so packend… Ich harrte aus, ich ertrug die Spannung nicht mehr, das Ergebnis war mir fast egal, Hauptsache, die Strapazen des Spiels in ein paar Minuten vorbei… Schäfer, nach innen geflankt, Kopfball, abgewehrt, aus dem Hintergrund müßte Rahn schießen, Rahn schießt! Tor! Tor! Tor!Tor! Tor für Deutschland!“. In: Delius. Der Sonntag, an dem ich Weltmeister wurde, p. 111. Grifos no original.

[7] No original: „[…] war ich, ohne es zu begreifen, der glücklichste von allen, glücklicher vielleicht als Werner Liebrich oder Fritz Walter.“ In: Delius. Der Sonntag, an dem ich Weltmeister wurde, p. 120.