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O Mineirão e os Deuses do Futebol

Thiago Carlos Costa

Muito provavelmente todos os olhares do mundo se voltaram para aquele histórico 08 de julho de 2014. Ocasião onde a seleção brasileira foi derrotada por 7 x1, pela seleção alemã, na semifinal da Copa de Mundo, a maior derrota de um seleção brasileira em Copas desde 1950. Para sair da frieza das explicações táticas, técnicas e afins, talvez esse jogo com um placar tão elástico seja mais um dos desígnios dos “Deuses do Futebol”. Muito provavelmente os chamados “Deuses do Futebol”, escrevem o destino de cada jogo de uma maneira extremamente singular e que talvez por isso este esporte se caracterize pela sua imprevisibilidade e emotividade. Assim, se existem estes “Deuses do Futebol”, os seus templos são os estádios, palcos das partidas e dos seus desdobramentos simbólicos e práticos. Faço uso dessa metáfora de uma mitologia do futebol para tentar pensar os momentos mágicos e imprevisíveis que o futebol nos proporciona.

No próximo dia 05 de setembro de 2015, o Estádio Governador Magalhães Pinto, mais conhecido como Mineirão completará 50 anos de existência. Talvez, fosse pouco provável, que naquele domingo ensolarado de 05 de setembro de 1965, as autoridades, jornalistas, dirigentes, jogadores e torcedores, somando quase 80 mil pessoas presentes no estádio poderiam imaginar que aquele gigante de concreto e aço mudaria para sempre o futebol mineiro e se tornaria um dos templos do futebol. Construído entre 1960 e 1965, o Mineirão era uma reivindicação da mídia esportiva e dos torcedores dos clubes da capital de Minas Gerais que viam o número de torcedores aumentarem consideravelmente[1]. A construção deste grandioso estádio está inserido no contexto dos chamados “anos dourados”, vividos no Brasil ao longo da década de 1950 e início dos anos 60, durante os governos Vargas e de JK. Reflexo da política desenvolvimentista, alinhada ao populismo dos dirigentes e com o clima de euforia vivido na sociedade e no esporte brasileiro. Na prática, o futebol tornara-se de fato o esporte nacional, com as conquistas dos mundiais de 1958 na Suécia e de 1962 no Chile, e motivado pelas transmissões radiofônicas e crônicas de autores como Nelson Rodrigues, José Lins do Rego, o futebol se projetava como paixão nacional.

Mineirão, vista de dentro do campo. Foto: Thiago Carlos Costa.

Em uma esfera local, Minas Gerais possuía três clubes que detinham a hegemonia no futebol, que eram América, Atlético e Cruzeiro. Com uma característica extremamente regional, o futebol disputado em Minas, era reflexo dos acanhados estádios em que clubes mandavam seus jogos, com capacidade para no máximo 15 mil torcedores. Até a construção do Mineirão, o maior estádio mineiro era o estádio Independência, de nome oficial Raimundo Sampaio. Este estádio de capacidade para no máximo de 30 mil torcedores foi construído para Belo Horizonte sediar três jogos da Copa do Mundo de 1950, e era de propriedade do time do Sete de Setembro. Mas no decorrer da última década já não comportava mais os torcedores, na medida em o futebol se popularizava na cidade e no estado, sendo que a reivindicação por um espaço maior e mais confortável era recorrente. Assim, o deputado mineiro, Jorge Carone concebeu o projeto de construção do novo estádio para Minas Gerais, e este foi transformado em Lei no ano de 1959 pelo então governador Bias Fortes. Existem alguns simbolismos em torno da construção do chamado “Gigante da Pampulha”, uma delas é a construção do estádio em um terreno na região Pampulha, localizada na região norte de Belo Horizonte, que vivia seu auge com o recém-inaugurado complexo arquitetônico, com as edificações projetadas pelo arquiteto Oscar Niemayer, durante o governo de JK.

Nos primeiros anos da década de 60 a construção do estádio caminhava lentamente, mas após o êxito da Seleção Mineira na conquista do campeonato nacional de seleções estaduais, a pressão pela conclusão das obras e entrega do estádio aumentaram. Neste contexto a mídia esportiva mineira teve papel fundamental na cobrança pela consolidação das obras do estádio que foram concluídas em 1965. A partida inaugural do estádio foi entre a Seleção Mineira e o River Plate da Argentina, o selecionado mineiro venceu por 1 a 0, com o primeiro do gol do estádio anotado pelo jogador Buglê. Após esta partida, aproximadamente outras 4 mil foram disputadas ao longo destes 50 anos do Gigante da Pampulha, mas os “Deuses do Futebol”, já reservaram momentos épicos para este estádio. Pois já nos primeiros dez anos da “Era Mineirão”, Cruzeiro e Atlético conseguiram suas primeiras conquistas em âmbito nacional.

Perspectiva externa do Mineirão. Foto: Thiago Carlos Costa.

Em 30 de novembro de 1966, talvez a primeira ação dos “Deuses do Futebol” no Mineirão, quando o jovem time do Cruzeiro liderado por Tostão, Piazza e Dirceu Lopes aplicou uma sonora goleada de 6 a 2 no Santos de Pelé & Cia, na disputa do primeiro jogo da final da Taça Brasil daquele ano. A goleada abriu os olhos de jornalistas e torcedores para o futebol mineiro. Em 1971, foi a vez do Atlético se sagrar campeão nacional ao vencer em um triangular final São Paulo no Mineirão e o Botafogo no Maracanã. A “Era Mineirão”, proporcionou ao Cruzeiro a possibilidade consolidação como protagonista no futebol mineiro e nacional, com outros frutos colhidos em 1976, com a conquista da Taça Libertadores da América. Em outras ocasiões o destino do Estádio foi de palco para o calvário dos times e torcidas, como em 05 março de 1978, quando na final do campeonato brasileiro de 1977, diante de 102 mil pagantes, o Atlético perdeu a final para o São Paulo na disputa de pênaltis. Nos anos de 1980, o Mineirão viu a consolidação de seu maior artilheiro, Reinaldo que anotou 152 gols no Gigante da Pampulha. Nesta mesma década outro recorde foi estabelecido, agora por Nelinho que atuando em 348 partidas se tornou o jogador que mais jogou no Mineirão. Nos anos de 1990 o Mineirão viu o Cruzeiro retomar sua série de títulos nacionais e internacionais, com destaque para a conquista da sua segunda Taça da Libertadores de 1997. Com requintes de dramaticidade, o gol de Elivélton aconteceu nos últimos minutos do jogo dando o título para o time celeste.

No início dos anos 2000, o América conquistou a Copa Sul-Minas e o Campeonato Mineiro sobre Cruzeiro e Atlético respectivamente, em finais de arrancar o fôlego dos torcedores. Em 2003, o Estádio foi tombado como Patrimônio Histórico de Belo Horizonte, e sua facha imponente foi eternizada na arquitetura da cidade. Em 15 de julho de 2009, foi a vez do Cruzeiro, que havia vivido mais alegrias que tristezas neste estádio, ver seu time sofrer a virada e deixar a Taça Libertadores nas mãos dos argentinos do Estudiantes. No ano de 2013, o Mineirão foi palco da disputa final da Taça Libertadores, entre Atlético e Olímpia, vencida nos pênaltis pelo time mineiro, com toques de dramaticidade típicos do Mineirão. Vale lembrar que a disputa destas penalidades foi na mesma área onde o clube havia perdido citada final do brasileiro de 1977. Quis o destino que no mesmo ano de 2014, tempo do chamado “Mineirazo” vivido pela seleção brasileira, o Mineirão fosse palco da primeira final nacional entre Atlético e Cruzeiro, na disputa da Copa do Brasil daquele ano. Vale ressaltar que nesta mesma edição da Copa do Brasil o Atlético ao som do “eu acredito”, reverteu jogos improváveis sobre Corinthians e Flamengo, com placares históricos.

Para além das explicações táticas e pragmáticas, o futebol possibilita a imaginação para explicar o inexplicável, e o Mineirão talvez seja um dos grandes palcos para os desígnios dos “Deuses do Futebol”. Portanto, o Mineirão se apresenta como um local privilegiado ao longo destes 50 anos com momentos de alegrias e tristezas que apenas uma partida de futebol possa nos proporcionar.

[1] Para mais sobre o impacto da construção do Mineirão para Minas Gerais e para o Brasil, vale conferir; ASSUMPÇÃO, Luís Otávio Teles. O temp(l)o das Geraes: a nova ordem do futebol brasileiro. Montes Claros: Ed. Unimontes, 2004.