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O número 24 na camisa – homofobia e medos Heterossexuais

Alexandre Fernandez Vaz

Há pouco mais de duas semanas, o Corinthians Paulista apresentou um de seus reforços para a temporada de 2020, o meio-campista Víctor Cantillo, contratado junto ao Junior Barranquilla, da Colômbia. Na ocasião, o atleta lembrou do compatriota Freddy Rincón, que com Vampeta fez uma dupla de volantes quase perfeita ao final dos anos 1990 e início da década seguinte, também no Timão. O jovem recém-chegado vestirá a camiseta de número 8, assim como seu antecessor.

Jorge Kalil, Cantillo e Duílio Monteiro Alves na apresentação do jogador colombiano. Foto: Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians.

No time de Barranquilla, Cantillo levava nas costas da camiseta o número 24, abandonado em São Paulo por orientação dos mandatários corintianos. “24 aqui não”, disse de forma jocosa o diretor de futebol do Corinthians, Duílio Monteiro Alves, filho de Adílson, o lendário dirigente que, com Sócrates, Wladimir, Casagrande e outros, formou a Democracia Corintiana, no início dos anos 1980. O número rechaçado corresponde, no jogo do bicho – loteria da contravenção oficiosa no Brasil – ao veado, animal associado de forma preconceituosa a homossexuais.

Ao fazer o pedido de desculpas pela piada infeliz, Duílio lembrou que Cássio defendeu com tal número a meta do alvinegro na conquista da Copa Libertadores da América de 2012, a primeira e até agora única do Corinthians. Acontece que o regulamento da competição exige numeração fixa de um a 30, e o goleiro era, na inscrição da equipe, o terceiro da posição, atrás de Júlio César, hoje titular e capitão do Bragantino, e de Danilo Fernandes, que atua no Internacional. O número 24 foi atribuído a ele porque se tratava de um jogador que dificilmente entraria em campo, o que, no entanto, acabou acontecendo depois das falhas do titular e da necessidade de um arqueiro mais alto e com mais envergadura. No Campeonato Brasileiro daquele ano, e desde então em todas as competições, o titular assumiu a camisa de número 12.

Cássio vestiu a camisa 24 no histórico título da Libertadores de 2012. Foto: Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians.

As coisas não são fáceis no Corinthians quando o assunto é a orientação sexual de atletas ou torcedores. Parece que se gera pânico entre autodeclarados heterossexuais quando frente ao risco que supõem estar expostos se um homossexual veste o uniforme do clube. Logo o Timão, de tanta luta pelos direitos sociais, cujos torcedores, vários deles, vestem com orgulho a camiseta onde se lê “respeita as minas”. Torcida que, aliás, mais de uma vez se manifestou contra a ditadura vivida pelo país e a favor de candidaturas que pudessem impedir a sua volta.

Há poucos anos, Emerson Sheik, ídolo da fiel torcida pelo seu desempenho e entrega em campo, cujo ponto máximo foi a decisiva participação no título da Libertadores de 2012, publicou em suas redes sociais uma foto beijando um amigo. Segundo a narrativa do jogador, estava ali estampada no selinho a celebração de uma amizade. Emerson viu-se pressionado a uma reunião com representantes de torcida organizada que, depois de muito criticá-lo, foram cobrar-lhe uma postura que correspondesse às expectativas dos corintianos, já que não queriam servir de chacota para torcedores de outras agremiações. Não falaram por mim, que sou corintiano desde criança. O desfecho do episódio não foi menos que grotesco: o jogador, acuado, teve que se declarar heterossexual, destacando, para piorar a situação, que não era são-paulino.

O selinho de Sheik. Foto: Reprodução/Twitter.

Faz parte da masculinidade tóxica, que também deixa seus agentes intoxicados, o tipo de gracejo, visto como mera brincadeira, em relação à sexualidade alheia. Pertence ao mundo adulto a convicção segundo a qual pessoas em plena autonomia podem se relacionar no plano sexual, sempre com mútuo consentimento, com quem quer que seja. As reações homofóbicas de marmanjos aos gritos nas arquibancadas – na Copa São Paulo de Futebol Júnior, novamente estiveram presentes –, bem como os chistes nas rodas de conversa em que reina a compulsão por reafirmar uma incerta masculinidade, dizem algo sobre ser homem no Brasil, processo que se radicaliza no palco do futebol.

Um colega professor da UFSC certa vez me disse, presumindo-se dotado da maior esperteza, que ao comprar uma passagem de ônibus sempre buscava, em primeiro lugar, pela poltrona 23, já que lhe parecia óbvio que não teria um homem no assento ao lado. Nos períodos de preparação para as olimpíadas internas de um dos colégios em que estudei, não era raro que houvesse certa disputa pelos números a levar nas costas das camisetas da turma. Nenhum menino queria ter a de número 24, problema que se resolvia com relativa facilidade, já que as meninas, sempre mais resolvidas, não se importavam com esse tipo de expediente. Eis que uma vez, sem mais, um amigo de meu irmão pediu que lhe fosse concedida exatamente a correspondente ao veado no jogo do bicho. Era um dos alunos populares e com tranquilidade e sem incomodar-se, esvaziou o espírito destrutivo dos colegas. Com frequência, perdemos a oportunidade que uma inspiração como essa pode trazer.

O Corinthians poderia fazer as coisas avançarem e, sim, permitir que Víctor Cantillo envergasse a camiseta de número 24. O jovem colombiano tem tudo para se transformar em ídolo da numerosa e fanática torcida alvinegra. Seria lindo vê-lo ajudando a vencer a homofobia, mostrando aos que se declaram heterossexuais que não há por que ter medo, em especial, do próprio desejo.

Ilha de Santa Catarina, janeiro de 2020.