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O outro lado da elitização do futebol na distribuição das cotas de transmissão do Brasileirão

Pedro Kessler

O abismo na divisão do bolo da distribuição das cotas de TV vem produzindo um distanciamento profundo entre grandes, médios e pequenos clubes de futebol. Esta disparidade cria um déficit entre os times, o que ocasiona um baixo nível técnico, além do pensamento das equipes menores da Série B de que é melhor e mais vantajoso permanecer na segunda divisão do que subir para a Série A.

Hoje, a “elite” do futebol brasileiro tem 10 times do centro do país (Corinthians, São Paulo, Santos, Palmeiras, Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Atlético-MG e Cruzeiro), cinco sulistas (Grêmio, Internacional, Chapecoense, Athletico e Avaí), quatro nordestinos (O estreante CSA, Bahia, Fortaleza e Ceará) e um clube do centro-oeste (Goiás). Desde a criação do Brasileirão de pontos corridos, em 2003, somente um time do norte do país participou da primeira divisão nacional (Paysandu, do Pará, entre 2003 e 2005).

Durante estas 16 edições de pontos corridos, percebemos o processo de invisibilidade das equipes do interior paulista (Guarani e Ponte Preta, além do clube-empresa Grêmio Barueri/Prudente, do Campeão da Copa do Brasil Santo André, do vice-campeão da Libertadores São Caetano e do quase fim da Portuguesa de Desportos), o sobe e desce dos clubes goianos (Goiás e Atlético-GO), o revezamento de times catarinenses (Figueirense, Avaí e Criciúma), paranaenses (Athetico, Coritiba e Paraná), e dos clubes nordestinos (América-RN, Náutico, Santa Cruz, Vitória e Sport, além do sobe e desce dos clubes que hoje estão na Série A), bem como o Juventude de Caxias do Sul, campeão da Copa do Brasil de 99 e que não habita a elite desde 2007.

Tabela apresenta o abismo na divisão das cotas entre clubes do eixo RJ-SP e os outros clubes.

Ainda com os descensos periódicos de times de massa do centro-sul do país (Grêmio, Internacional, Palmeiras, Corinthians, Vasco, Botafogo, Atlético MG, Athetico e Coritiba), apenas Vasco da Gama e Coritiba repetiram a dose. Com a exceção do Coritiba, todos esses caíram e voltaram no mesmo ano, muito pela diferença técnica, mas também pela capacidade de angariar recursos e patrocínios. Estes rebaixamentos vêm por problemas de gestão dos clubes e, caindo para a Série B, ainda carregam um volume de cotas de transmissão muito maior que os de outros clubes da segunda divisão. Essa disparidade faz com que os grandes se tornem mais grandes, os médios encolham e os pequenos desapareçam.

O futuro do futebol fora do grande eixo RS-SP-RJ-MG é cada vez mais incerto e isso empobrece a concepção da importância social do futebol. Não é loucura pensar que, em anos, os jovens dos estados que fogem desses eixos passem a torcer exclusivamente por clubes do centro do país (esse movimento já se apresenta de forma bem acentuada, mas ainda não de forma completa), tanto pela invisibilidade dos que resistem, quanto pelo fim dos que não resistiram.