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O peso da ausência do torcedor nos estádios e as estratégias para garantir a participação simbólica das torcidas na arquibancada

Ingryd Melyna Dantas da Silva

Na crônica O Estádio, publicada no livro Futebol ao sol e à sombra, Eduardo Galeano apresenta o seguinte questionamento: “Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém”. Apesar de ter sido escrito em outro momento histórico, essas frases de Galeano nos ajudam a pensar o peso da ausência do torcedor nas arquibancadas e a refletir sobre as estratégias utilizadas para garantir a participação simbólica do torcedor no estádio durante o período em que as arquibancadas estão vazias por conta da necessidade de isolamento social.

A primeira partida que o Ceará Sporting Club disputou sem a presença de sua torcida devido ao cenário de evolução e alastramento da COVID-19 no país foi no dia 15 de março de 2020. O torcedor alvinegro soube que não poderia comparecer ao estádio Castelão para acompanhar a partida contra o Sport Club Recife (pela 7ª rodada da Copa do Nordeste) na noite anterior, após o juiz plantonista José Vidal da Silva Neto, da 1ª. Vara Federal do Ceará conceder liminar com intimação urgente contra o Governo do Estado do Ceará e a Prefeitura de Fortaleza, assim como após uma recomendação do Ministério Público Federal do Ceará, determinando que os portões das praças esportivas estudais e municipais deveriam ser fechadas ao público. Neste mesmo 15 de março, a Secretaria de Saúde do Estado do Ceará – SESA/CE confirmou as três primeiras contaminações do estado e a Confederação Brasileira de Futebol – CBF suspendeu todos os torneios de futebol nacional por tempo indeterminado.

Em junho, após três meses de paralisação, a CBF expôs sua intenção de retomar as atividades de futebol e, por isso, apresentou ao Ministério da Saúde um guia médico de sugestões protetivas para o retorno do futebol. Este guia apresentou sugestões de medidas de segurança e higiene que deveriam ser obedecidas pelos clubes e suas equipes de trabalho, como evitar contatos físicos, utilizar máscara e realizar periodicamente testes para COVID-19. Durante o período de discussão sobre a viabilidade do retorno do futebol, torcedores utilizaram suas redes sociais para declarar oposição à medida. Algumas das justificativas apresentadas foram: futebol não se faz só no campo, mas também na arquibancada, portanto, a presença da torcida é fundamental; e o futebol só deve retornar quando for possível e seguro a presença de público nos estádios.

Em julho, a bola já estava rolando em diversas cidades do país, contudo, sem a presença de público. Desta forma, alguns clubes adotaram medidas para dar ao torcedor a sensação de estar presente no estádio, assim como para passar ao time em campo a sensação de estar recebendo apoio de um torcida. Destaco que as estratégias adotadas também garantiram aos clubes engajamento nas redes sociais, visto que mobilizaram o interesse dos seus torcedores; e geraram renda, uma vez que ações como o espaço para fotos em totens na arquibancada foram vendidas aos torcedores.

Entre as estratégias adotadas pelos clubes estão: a instalação de faixas e de bandeiras das Torcidas Organizadas ou Agremiações de Torcedores vinculadas ao clube; a exposição de fotos dos torcedores em totens nos assentos dos estádios; e a reprodução de gritos e cantos da torcida no sistema de alto-falantes do estádio. Ressalto que também houve ações de iniciativa das torcidas, como a elaboração e a exposição de mosaicos. Contudo, neste momento irei abordar apenas a utilização dos alto-falantes. Durante este período de ausência de público nos estádios por conta da necessidade de isolamento social o som que ecoa das arquibancadas não é o tradicional batuque das equipes de baterias e dos gritos e palmas dos torcedores e das torcedoras, mas sim uma gravação em áudio de uma performance da própria torcida. Ainda que esses áudios reproduzam as vozes e os batuques, eles estão longe de refletir a experiência sonora proporcionada por uma torcida em dia de jogo.

Ao longo de minha pesquisa de campo nos estádios da capital cearense em dias de jogos do Ceará Sporting Club (como parte das atividades de construção da dissertação, período: 2017-2019) percebi que a Equipe de Bateria que atua nos jogos do alvinegro segue um roteiro pré-determinado, isto é, o repertório do jogo é escolhido previamente pelo Puxador, pela Direção de Bateria e pelos componentes da equipe durante os ensaios. Contudo, ele não é definitivo, visto que o Puxador, que atua na arquibancada como um maestro diante de uma orquestra, pode realizar alterações ao longo da partida, motivadas pela dinâmica do jogo em campo.

FOTO: JARBAS OLIVEIRA/ALLSPORTS

Durante minhas observações, identifiquei dez momentos do jogo que definem quais músicas serão tocadas ou que alteram a lista pré-definida, são eles: quando o time entra em campo; os minutos iniciais da partida; quando o time mostra apatia em campo; quando o time abre o placar; quando o time adversário abre o placar; quando o time adversário amplia o placar; quando o time alcança o empate; quando o time conquista uma virada; após o término de uma partida, com o time vitorioso; e após o término de uma partida, com o time derrotado

Portanto, quando está ocupando a arquibancada, a torcida alvinegra e sua Equipe de Bateria não cantam músicas de amor ao clube de forma desordenada, aleatória ou repetitiva. Elas seguem um repertório pré-definido, mas que está aberto às alterações motivadas pela dinâmica do jogo. Desta forma, para o torcedor alvinegro, é comum esperar que a música “Muito mais que um vício” seja entoada nos minutos iniciais da partida, visto que a declamação de cada uma de suas estrofes facilita a marcação do momento exato que os papeis que compõem o mosaico sejam exibidos pelos torcedores, assim como a execução de sua coreografia causa a impressão visual de que o mosaico está em movimento. Bem como, é comum esperar que após um gol, a frase “Uh! É Cearamor ô!” seja dita e, na sequência, a música “Vai Rolar a Festa” seja embalada.  

Desse modo, me causou estranhamento quando, após os gols marcados na final da Copa do Nordeste, em uma partida disputada contra o Esporte Clube Bahia, por exemplo, a música que ecoou no alto-falante do estádio foi a “Muito mais que um vício”, uma vez que a torcida alvinegra não costuma cantá-la após um gol, mas sim no começo da partida. Assim como, me causa estranhamento perceber que o volume do canto da torcida que percebemos pela TV não é um reflexo do envolvimento e da empolgação do torcedor naquele momento da partida, mas um resultado de uma atividade mecanizada que está sendo guiada e medida pelo administrador do som do estádio e da transmissão do jogo na TV.

Deste modo, acredito que, ainda que as estratégias utilizadas pelos clubes para garantir a participação simbólica de sua torcida no estádio gerem engajamento com os torcedores, engajamentos nas redes sociais e relativo retorno financeiro, elas não refletem a experiência de ir ao estádio. Além disso, ainda que os áudios que ressoam nos alto falantes dos estádios reproduzam as vozes e os batuques da torcida, eles estão longe de retratar a experiência sonora proporcionada por uma torcida em dia de jogo. Por isso, concordo com Galeano quando ele afirma que “Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém”.

Por fim, destaco que, ainda que este período esteja sendo marcado pelo peso da ausência do torcedor nas arquibancadas, não corroboro com a iniciativa de liberação de público nos estádios. Embora a taxa de contaminação por COVID-19 tenha estabilizado ou reduzido em diversas cidades, ainda há risco de contaminação e morte. Logo, o retorno do público aos estádios pode contribuir para mais adoecimentos e mortes e, por consequência disto, gerar impactos no sistema de saúde público do país.

Referências

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Treinos e partidas de futebol devem seguir orientações para evitar Covid-19. Ministério da Saúde, 19 jun. 2020. Atualizado em: 21 jun. 2020. Acesso: 22 set. 2020.

GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Tradução Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito. Porto Alegre: L&PM, 2013. Coleção L&PM POCKET, v. 383.

GRAZIANI, Fernando. Justiça acata pedido do MP para portões fechados em Ceará x Sport e Ferroviário x Pacajus. Jornal O Povo, Fortaleza, 14 mar. 2020. Colunistas. Acesso: 22 set. 2020.


Como citar

SILVA, Ingryd Melyna Dantas da. O peso da ausência do torcedor nos estádios e as estratégias para garantir a participação simbólica das torcidas na arquibancada. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 72, 2020.