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O primeiro homem livre no futebol

Roberto Jardim

Esta é a história de um sujeito que desprezou a perfeição, aquela meta defendida pelo goleiro que joga na seleção. Além de ser um craque em campo, fora dele foi maior ainda. E já que fazer um gol nessa partida da vida não é fácil, não, marcou um golaço inesquecível.

Ele, no caso, é Afonso Celso Garcia Reis, o primeiro homem livre do futebol brasileiro. Até o maior jogador da história do futebol mundial, nada afeito a falar de questões polêmicas, que jogou ao seu lado uma temporada, reconhece.

– Homem livre no futebol, só conheço um, Afonsinho. Este pode dizer com suas palavras, sem medo, que deu o grito de independência ou morte. Ninguém mais! O resto é conversa – disse Pelé, durante um desabafo após renegociar seu contrato com o Santos, em 1972.

Nascido em São Paulo, em 3 de setembro de 1947, Afonsinho, na verdade, não fez nada além de lutar pelo direto de exercer a profissão que escolheu. Tornou-se um símbolo, porém, por ter levantado a voz em um período emblemático para o Brasil, em plena ditadura militar. E mais: esta batalha foi disputada quando o País vivia um de seus momentos mais cinzentos. Três anos antes, o governo militar havia decretado o infame AI-5, recrudescendo o combate à oposição e à luta armada, que surgira quase ao mesmo tempo.

Além disso, Afonsinho era craque. Conforme o documentário Passe Livre, que conta sua luta, ele estava entre os dez jogadores mais bem pagos da época, ganhando acima de Cr$ 20 mil – o futebol de então contava com cerca de 11 mil boleiros. Destes, apenas 2% ganhavam mais de Cr$ 1 mil. O certo é que, em meio à essa panela de pressão, Afonsinho saiu vitorioso e marcou época. Não só pelo que fez dentro de campo nem apenas por sua conquista nos tribunais – o que faz dele um nome obrigatório no meio-campo do Democracia Fútbol Club.

Exemplo que veio da família

É possível dizer que a disposição para a luta do nosso camisa 5 é algo que veio de casa. Afinal, filho e neto de ferroviários, e com a mãe era professora, Afonsinho aprendeu desde cedo que trabalhador precisa defender seus direitos.

– Isso vem da família, né? Meu pai era da cooperativa de ferroviários na época em que as empresas inglesas estavam saindo da administração das estradas de ferro em São Paulo. Por isso, participou das greves e da luta trabalhista – conta o hoje colunista da revista Carta Capital.

Aqui vale um parêntese: o que Afonsinho conta sobre o pai se refere ao fim do contrato da São Paulo Railway, que administrou as ferrovias paulistas por 80 anos, em 1946. Um ano depois, semanas após do nascimento do futuro craque, era criada a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, embrião da Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA).

– Em casa, sempre ouvi muito sobre política, sobre resistência, sobre luta. Depois fui ser universitário, pegando aquele começo da repressão, aquela coisa toda. E isso acabou me influenciando também. Até como jogador – lembra por telefone.

O exemplo do pai não foi seguido só na questão política. Além de telegrafista na ferrovia paulista, José Reis também foi professor, diretor de escola e se formou em Direito. A inteligência foi herdada por Afonsinho. Mesmo com um futuro promissor nos gramados, não deixou os estudos de lado, cursando a faculdade de Medicina.

Bola o tempo todo

Diferentemente do que muitos dizem, Afonsinho não nasceu em Marília. Sua família morava na cidade, mas como a mãe era de São Paulo, nasceu na Capital. Viveu parte da infância na cidade do Centro-Oeste paulista. Com uma transferência do pai, aos nove anos, todos se mudaram para Jaú.

Mesmo aplicado nos estudos, passava boa parte do dia, como todo guri que se preze, nas ruas. E foi assim que conheceu a bola.

– A vida toda a bola esteve presente. Desde o quintal de casa, lá em Marília, já corria atrás dela. Sempre tinha uns moleques ali na esquina e a gente fazia os times, ia procurar campos em meio aos cafezais – recorda.

Quando a família foi para Jaú, nada mudou, pelo contrário. O futebol ficou ainda mais presente:

– Tinha um time de salão (hoje futsal) na escola e outro com a garotada na rua.

Afonsinho lembra que, na região onde moravam, existia um time de várzea, o Náutico. O time era amador, formado por trabalhadores do bairro onde os Reis viviam.

– A garotada, então, fundou o infantil do Náutico. A gente pegava o material usado deles, bola velha, chuteira, o que sobrava. Vendíamos jornal, metal, cobre, o que desse para manter o timezinho.

Por volta de 1962, Afonsinho entrou para as categorias de base do XV de Jaú.

– Foi lá que fiz meu primeiro mestre. O Adãozinho, que jogou no Inter e no Flamengo. Era um ser humano extraordinário, admirável. Uma grande pessoa, além de grande jogador – detalha, sobre um dos craques do mítico Rolo Compressor colorado.

No time de Jaú, Afonsinho chegou a disputar a segunda divisão paulista. Foi assim, que, entre os 15 e os 17 anos, entrou para o futebol profissional. Seu talento com a bola levou-o ao Rio de Janeiro.

– Em 1965, fui para o Rio, fazer testes no Botafogo. Cheguei para o que na época se chamava juvenil, há pouco era juniores, agora é “sub-alguma coisa”. Cheguei em janeiro para testes. Fui aprovado e voltei depois do Carnaval – detalha.

No meio do caminho, uma ditadura

Fora dos gramados, Afonsinho continuava nos estudos. Quando chegou ao Rio, em 1965, estava no terceiro científico (atual ensino médio) e cursava o pré-vestibular. No segundo semestre, começou a ter oportunidades no time profissional. No ano seguinte, entrou para a Escola de Medicina e Cirurgia, atual UniRio. Cursou os primeiros anos da faculdade em meio à ascensão nos campos, já que no mesmo ano em que foi bixo passou a atuar no time titular.

O clube de General Severiano passava por uma fase de transição. Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol, largara a bola em 1964. Garrincha já não era mais o mesmo. Outros estavam de saída. Assim, Afonsinho fez parte do surgimento de uma nova geração.

Foram ganhando espaço, junto com ele, Gérson e Jairzinho, que já estavam no profissional desde 1963 – três anos depois, os dois disputariam a Copa do Mundo, na Inglaterra. Em 1967, o trio conquistou o título carioca. Mais um ano, ao 21, Afonsinho já era titular e capitão da equipe no bi do estadual e no título da Taça Brasil, o torneio nacional da época.

Antes de continuarmos, é bom lembrar que um ano antes de Afonsinho chegar ao Rio, o Brasil entrara em uma ditadura. Em 1º de abril de 1964, militares, apoiados por parte da sociedade civil, principalmente por grandes empresários, banqueiros e meios de comunicação, derrubavam o presidente João Goulart.

Aos poucos, os milicos começaram a se meter em várias atividades. E no esporte não era diferente. Os clubes passaram a ter em suas comissões técnicas, nos conselhos e diretorias, integrantes do Exército, da Marinha ou da Aeronáutica.

– Eles (os militares) entraram com força no futebol. Começaram a mudar a forma de treinar, introduzindo exercícios físicos, treinamento em tempo integral – lembra o craque, que emenda, fazendo uma análise:

– Muita gente atribui o tri em 1970 ao regime militar, mas o título foi o último suspiro daquela geração de 1958 e 1962. O futebol do começo dos anos 70, da qual minha geração faz parte, é fruto da época do bi. Se for ver, quando os militares passaram a influir no futebol, com gente nas comissões técnicas, o Brasil ficou de 1974 até 1994 sem ganhar nada. E o futebol nunca mais foi o mesmo. Espero que o 7 a 1 (da Alemanha sobre o Brasil, na Copa de 2014) tenha sido o último suspiro disso tudo…

Com participação política cada vez mais ativa, era difícil para um sujeito esclarecido e posicionado ficar fora do radar. Dessa forma, no meio do caminho de Afonsinho – e de toda a sociedade brasileira –, tinha uma ditadura.

Após os dois títulos de 1968, então, a situação começou a mudar. Possivelmente por suas atividades extracampo.

Isso porque, além de aluno aplicado, Afonsinho era atuante na política estudantil. E, também, porque, entre as duas decisões daquele ano, aconteceu a Passeata dos 100 Mil, manifestação popular contra o regime militar, da qual Afonsinho participou.

O protesto, ocorrido em 26 de junho de 1968 – a final do Carioca foi em 9 de junho e a final da Taça Brasil, em 4 de agosto –, cobrava o fim das prisões e arbitrariedades cometidas em nome do governo. A manifestação foi organizada após a invasão do restaurante universitário e da morte do secundarista Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos.

Em resposta ao ato, seguido por outros movimentos em vários pontos do Brasil, o governo militar aumentou a repressão. Somente em agosto, mais de 900 estudantes foram presos. Em outubro, outros 400 foram capturados durante um congresso clandestino da UNE, em Ibiúna (SP).

O auge da contraofensiva do Planalto veio em 13 de dezembro, com a promulgação do famigerado Ato Institucional nº 5, o famoso AI-5. Com a medida, parlamentares contrários ao governo perderam o mandato, houve intervenções nos municípios e Estados e também a suspensão de quaisquer garantias constitucionais.

Ao mesmo tempo, no Botafogo

Enquanto isso, em General Severiano, Afonsinho começava a perder espaço. Zagallo, técnico do Fogão desde 1966, passou a usar um esquema diferente, indo do 4-2-4 para o 4-3-3, com o recuo de um dos atacantes.

Além disso, saia dos dois meias – em 1968, foram Gérson e Afonsinho – e ia para três no meio, com um homem mais de marcação (o atual volante), um armador, função de Afonsinho, mais o meia-atacante (o ponta-esquerda que recuava; muitos dizem que Zagallo foi pioneiro em jogar desse modo, nas Copas de 1958 e 1962).

– Foi assim que comecei a perder espaço. Como eu já tinha deslanchado, começaram a aparecer muitas propostas, mas eles (os cartolas do Botafogo) não me liberavam – lembra Afonsinho.

Começou, então, um desgaste. Um dirigente do clube não queria que jogadores estudassem. Com essa decisão, além do meia, foram escanteados e, aos poucos, negociados, Alexandre da Silva, Chiquinho, Dimas e Humberto. Só Afonsinho não era liberado.

– O desgaste aumentava a cada dia. Primeiro, passaram a me impedir de treinar, depois proibiram a rouparia de me dar material. E aquele negócio, vai, não vai… Até que, depois de um ano dessa lenga-lenga, fui emprestado para o Olaria no começo de 1970.

Na equipe da rua Bariri, Afonsinho voltou a ganhar espaço. Sob o comando do ex-jogador Jair da Rosa Pinto, o Alvianil chegou à inédita sexta posição no Carioca daquele ano. Na sequência, foi para uma excursão pelo Exterior. Na volta, o meia apresentou-se ao Fogão. Mas a situação não havia mudado. Ele conta:

– Quando voltei, com o Brasil tricampeão, Zagallo, que era técnico da seleção e do Botafogo, havia ganhado força. E continuei sem espaço. Percebi que se não saísse não iria jogar.

As desculpas dadas, agora, eram o cabelo e a barba, que Afonsinho deixara crescer durante a viagem. Ou cortava ou não jogava.

– Um diretor me disse: “você está parecendo um tocador de guitarra, um cantor de iê-iê-iê”… E me proibiu de jogar e treinar. O negócio deles era jogador tem que jogar, estudante tem que estudar. Coisa própria da época – recorda Afonsinho, que chegou a cogitar abandonar o futebol.

Ao se negar a mudar o visual, foi afastado novamente. Além disso, o clube se negou a negociá-lo, mesmo restando apenas três meses de contrato. Foi a gota d’água para que ele buscasse a Justiça. O meia queria o direito de trabalhar, da forma que fosse.

A batalha judicial durou oito meses, e em março de 1971 – passando por duas instâncias (perdeu no Tribunal de Justiça Desportiva e ganhou no Superior Tribunal de Justiça Desportiva), Afonsinho ganhava sua liberdade para jogar bola onde quisesse e onde o quisessem. Foi aceito, novamente, no Olaria. Levaria a equipe de Leopoldina a mais um feito inédito, a terceira colocação no Estadual.

Depois, defenderia as cores de Vasco (ainda em 1971), Santos (1972 – onde jogou ao lado de Pelé), Flamengo (1973 e 1974), América-MG (1975) e Fluminense (1981). Nos períodos sem contrato, jogava pelo Trem da Alegria, equipe que montou com amigos e outros colegas de profissão para não ficar inativo. Com esse time, excursionava, principalmente, pelo Interior.

Vale aqui mais um parêntese. Na época, os jogadores ficavam presos aos clubes indefinidamente. Só saíam se eram vendidos. Tinham que aceitar contratos impostos pelos dirigentes – como Pelé, em 1972, quando o Santos, notando que ele queria se aposentar, fez exigências.

Com o passe livre, ao fim de cada período de contrato, o jogador podia negociar com o clube que quisesse. Sem contar que, sem a necessidade de pagamento pelo passe do jogador, o contratante poderia oferecer um salário maior ao atleta.

Que cabelo e barba, que nada

Apesar da alegação do cabelo e da barba compridos para seu afastamento, Afonsinho tem certeza de que a razão era outra. A política:

– Nessa época, eu participava de assembleias na faculdade. Então, eles me rotularam como líder negativo, e fecharam as portas para mim.

Ele revela uma informação que poucos conhecem:

– Tempos atrás recebi dois relatórios da polícia da época. Eu era monitorado pelo regime militar. Eles estavam de olho no que eu fazia fora de campo. Isso, com certeza, deve ter influenciado a decisão do Botafogo de não me colocar em campo, mesmo jogando bem e sendo capitão do time.

Por conta de sua atividade longe dos gramados, Afonsinho chegou a ser procurado para entrar na clandestinidade e trocar as chuteiras por armas.

– Conhecia muita gente que foi para a clandestinidade. Fui chamado para uma reunião na qual me convidaram para a luta armada. Mas, como não tinha participação mais intensa, não fazia parte de nenhum grupo, não quis – lembra.

E conclui:

– Foi um período de acirramento da ditadura, aquele. Estava atingindo todos os setores da vida do País. Restou a opção de luta armada e a resistência por todos os meios.

Prezado amigo Afonsinho

Depois de deixar o Flu e o futebol, em 1981, Afonsinho passou a trabalhar com Medicina. Foi servidor do INSS, na reabilitação e na perícia médica, e atuou na Clínica Pinel, após a reforma manicomial, tendo futebol como terapia para problemas mentais. Ainda trabalhou cinco anos na área de saúde da família até se aposentar, em 2010.

Hoje, o primeiro homem livre do futebol brasileiro vive entre Paquetá e Copacabana e escreve sobre futebol na revista Carta Capital. Apesar dos 70 anos, e de ter sete filhos (cinco deles agregados) e ser avô de sete netos, ainda bate uma bolinha, com o Trem da Alegria, equipe montada ainda nos anos 70:

– Com a política dos clubes, na época, de ter elenco de 18, 20 jogadores, houve muito desemprego no futebol. E jogador precisa jogar, treinar, essas coisas. Então, criar o Trem da Alegria foi uma forma de resistência, mesmo, como em todos os outros setores. E ele existe até hoje!

Vale lembrar, ainda, que, após a conquista do passe livre, e por conta da sua personalidade, cordial e inteligente, Afonsinho ganhou uma música em sua homenagem.

Terminaremos, de um craque para outro, com Meio de Campo, de Gilberto Gil:

“Prezado amigo Afonsinho/ Eu continuo aqui mesmo/ Aperfeiçoando o imperfeito/ Dando um tempo, dando um jeito/ Desprezando a perfeição/ Que a perfeição é uma meta/ Defendida pelo goleiro/ Que joga na seleção/ E eu não sou Pelé nem nada/ Se muito for eu sou Tostão/ Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão”.


PRÓXIMO CAPÍTULO: Outro volante uruguaio bom de luta. Liderou uma greve e levou a Celeste ao Maracanazo: 6 — El jefe da primeira greve

ANTERIORMENTE: O uruguaio que encarou duas ditaduras e ajudou um cuadro chico a ser campeão nacional: 4 — O volante que encarou os verdugos


A série tem a colaboração de Diego Figueira, na revisão dos textos, e do craque do traço Gonza Rodriguez, nas ilustrações.

A ideia é manter o Democracia Fútbol Club na ativa. Queremos ir atrás de mais histórias de times e clubes, de torcedores e torcidas. Afinal, como disse o técnico uruguaio Óscar Tabárez, o futebol é uma excelente desculpa para falarmos de outros assuntos. E é sobre isso que queremos falar. Futebol e outros assuntos. Assim, estamos aqui, pedindo uma força para vocês! Apoie o Democracia Fútbol Club.

 

 

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