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O “problema” do futebol jogado por mulheres

Luiza Aguiar dos Anjos, Marina de Mattos Dantas

Nos últimos dois anos, acompanhamos o processo de crescimento da visibilidade do futebol jogado por mulheres[1] ou, ao menos, de parte dele, impulsionado por algumas obrigatoriedades institucionais no âmbito nacional. As obrigatoriedades se dão a partir de duas circunstâncias. A primeira, parte do governo brasileiro, a partir da adesão dos clubes ao Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro (PROFUT)[2], que impõe tal investimento como uma das condições para que os clubes tenha direito a uma renegociação de dívidas fiscais com a União. A segunda, advém das entidades esportivas, e é parte do regulamento de licenciamento de clubes da CBF, estando entre os requisitos que deverão ser cumpridos pelos clubes interessados em participar de competições da CBF, da CONMEBOL e da FIFA. A norma prevê que o ano de 2017 sirva para a adaptação dos clubes, que deverão cumprir a regra já em 2018.

Para os clubes, as obrigatoriedades colocam a questão de se investir no futebol jogado por mulheres mais por uma condição para a participação nos grandes campeonatos da modalidade masculina do por um respeito ou admiração pela modalidade feminina. Com isso, vemos que, de quase invisível aos olhos dos clubes de futebol, a modalidade feminina passa a ser encarada como um “problema” a ser resolvido.

Diante disso, os clubes se viram na situação de ter que pensar em como resolver o “problema” do futebol feminino. Para tal, algumas saídas foram adotadas para contorna-lo: “adotar” times já existentes, fazer parcerias para reduzir ou dividir os custos ou financiar uma equipe a custo mínimo.

Vemos assim surgir dessas soluções, algumas equipes de mulheres em clubes onde o futebol jogado por homens é estabelecido.

O São Paulo criou uma categoria sub-17 para disputar o Campeonato Paulista. Essa equipe é composta pelas atletas do sub-15 do Centro Olímpico agregadas de seis sócias do clube[3]. Se entre os clubes a parceria parece vantajosa, não chega a ser um investimento na modalidade, visto que as atletas que estão representando o São Paulo já eram jogadoras e apenas trocaram de uniforme.

O Flamengo, por sua vez, estabeleceu uma parceria com a Marinha[4], dividindo custos e demandas por estrutura. No contrato assinado entre as partes, a Marinha é responsável pelos recursos humanos, desde as atletas até a comissão técnica, além da estrutura dos treinamentos. O Flamengo, por sua vez, cuida da parte operacional envolvendo a relação com a Federação Carioca e com a CBF.

O Grêmio formou uma equipe no ano passado firmando uma parceria com a Associação Gaúcha de Futebol Feminino, trazendo para seu plantel as jogadoras que compunham a seleção gaúcha de então, facilmente atraídas pelo oferecimento de remuneração e estrutura de treinamento adequada (pois utilizam o CT do clube). Tendo firmado o acordo apenas para o Brasileirão desse ano, para o qual o clube possuía vaga por sua colocação no Brasileirão Masculino[5], o destino das atletas após o torneio é incerto. O mais provável é que rumem para o rival Internacional. Apesar de não oferecer remuneração, o Colorado criou um Departamento de Futebol Feminino e vem buscando parcerias que ofereçam outros atrativos. Por ora, as futebolistas coloradas recebem ajuda de custo para transporte, plano de saúde e, algumas delas, bolsas de estudos. Cabe destacar que o clube criou, juntamente com a categoria adulta, também categorias sub-17, sub-15 e sub-13, mostrando atenção a um trabalho de médio prazo.

Outro exemplo notável é o do Osasco Audax. A equipe paulista criou uma equipe de mulheres em 2015 e já no ano seguinte estabeleceu uma parceria com o Corinthians, por meio da qual dividem os gastos da modalidade. Assim, nesse primeiro ano do vínculo, um mesmo grupo de atletas ora jogava com a camisa de um clube, ora de outro: no Brasileiro e Paulista foi usado o uniforme alvinegro corintiano e na Copa do Brasil o branco e vermelho do Osasco. Os clubes seguem a parceria, todavia, como tinham duas vagas para a disputa do Brasileirão[6] desse ano, eles se inscreveram como participantes distintos. O Audax criou uma nova equipe a partir de outra parceria com a Universidade Paulista (UNIP) e, de algum modo, está presente no torneio com duas representações: uma como Corinthians/Audax e outra como Audax/UNIP.

Enquanto isso, clubes que vinham investindo no futebol de mulheres quando os investimentos eram ainda mais escassos acabaram rebaixados para a série A2 (2ª divisão), casos do Caucaia (CE) e Centro Olímpico (SP), por exemplo, que disputam o Brasileirão desde sua primeira edição (2013)[7].

Santos Futebol Clube Sereias da Vila
Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC

O caso do Santos talvez seja o ponto mais “fora da curva” no panorama brasileiro. Embora não seja um projeto recente, a equipe da Sereias da Vila, dentre as outras, é a que parece aprofundar mais nos investimentos nesse retorno impulsionado pelo PROFUT. O Departamento de Futebol Feminino do Santos, criado em 1997, tinha sido fechado em 2012 (justificado pelo investimento no futebol jogado por homens, principalmente na manutenção do contrato de Neymar), e foi reaberto em 2015, mantendo equipe adulta e categorias de base, ambas com remuneração.

Contudo, vemos que a obrigatoriedade estimula mais um investimento mercadológico do que esportivo no futebol de mulheres. Investimento esse que, por enquanto, parece desvinculado das relações entre os clubes e suas torcidas e de uma valorização mais ampla (para além da mercadológica) da modalidade. Dificilmente esse investimento por si só sustentará no Brasil mulheres vivendo somente de futebol. Um grande entrave nesse sentido é a naturalização comparativa de uma suposta inferioridade da modalidade que acaba justificando o baixo salário (e, muitas vezes, a ausência dele) e o pouco profissionalismo com que são tratadas (treinando em campos improvisados, com comissões despreparadas, sem calendário previamente definido para o ano, etc).

Ninguém diz que é contra o futebol profissional jogado por mulheres, mas, no cotidiano, vemos essas afirmações aparecendo com naturais por toda parte: não se investe porque não tem visibilidade, porque o jogo não é tão “bonito”, etc. Tal discurso produz um círculo vicioso – de forma simplificada, não há investimento porque não há retorno, não há retorno porque o futebol não é de boa qualidade, o futebol não é de boa qualidade porque não há investimento – que justifica a imobilidade de instituições que poderiam alterá-lo (clubes, ligas, federações, municípios, possíveis patrocinadores).

O investimento necessário para que as mulheres que jogam (semi)profissionalmente possam resolver os seus problemas (e não os dos clubes) está para além do que a regulação mercadológica pode dar conta. Seria algo no sentido que aponta a jornalista Lu Castro:

Quando penso no crescimento da modalidade, penso na prática em mais locais e que se torne algo natural. Que ela aconteça não só em escolinhas, mas que seja inserida na educação escolar, que a história das mulheres no futebol seja amplamente divulgada, que seus ícones tenham o reconhecimento necessário, que as competições tenham suas regras respeitadas e as leis que regem a prática do futebol sejam cumpridas por todos, que o fato de uma menina se envolver de alma e coração com o jogo, não seja motivo de espanto ou supervalorização, que os direitos de todas as trabalhadoras do futebol sejam respeitados, que os valores recebidos sejam dignos ~não os que extrapolam os limites do bom senso e da realidade do brasileiro~  e que tramitem num teto e piso aceitáveis, entre tantas outras abordagens que me fogem agora (CASTRO, 2017, p.1).

Transpor essas barreiras só será possível se o futebol de mulheres parar de ser tratado como algo condicional ou à sombra do futebol jogado por homens.

O inexpressivo investimento até o momento faz com que existam poucas mulheres “vivendo” da modalidade, estando a maior parte delas em equipes estrangeiras, visto que são poucos os clubes que as remuneram um valor que possibilite tal sustento[8].

Como um dos efeitos do PROFUT, vemos surgir pelo país peneiras para “recrutar” jovens mulheres para a formação de times de futebol que indicam uma inserção mercadológica, ainda que tímida, das mulheres no jogo. O que pode aumentar o número de mulheres jogando em condições (quase) profissionais e também ter como efeito disso, um processo de renovação na seleção brasileira.

Contudo seria apressado afirmar o que essas peneiras tendem a renovar ou não.

Embora o investimento de dinheiro no futebol feminino seja extremamente importante para o desenvolvimento da modalidade como profissão, resolver o problema do futebol jogado por mulheres não necessariamente implica na resolução dos problemas que as mulheres enfrentam para jogar futebol profissionalmente no Brasil.


CASTRO, Luciana. Futebol feminino: não usarás o masculino como parâmetro. Ludopédio. Arquibancada. 2017. Acesso em 24 de abril de 2017.

KESSLER, Claudia Samuel. Diga adeus ao futebol feminino: novas perspectivas sobre o futebol. Ludopédio. Arquibancada. 2015. Acesso em 24 de abril de 2017.


[1] Embora adotemos, em alguns momentos desse texto, as expressões “feminino” e “masculino para diferenciar uma modalidade da outra, optamos por utilizar mais a terminologia futebol de mulheres pois o termo “futebol feminino” aciona noções hegemônicas de feminilidade que historicamente impuseram às futebolistas exclusões e invisibilidades (KESSLER, 2015).

[2] Criado a partir da Lei n.13.155/2015. Acesso em 24 de abril de 2017.

[3] Tricolor volta a ter equipe de futebol feminino.

[4] As Forças Armadas como um todo vêm investindo na contratação de uma série de atletas, entre as quais se incluem as futebolistas que vestirão a camisa do Flamengo.

[5] As 16 vagas do Campeonato Brasileiro Feminino A1 (primeira divisão do Brasileirão de mulheres) foram decididas da seguinte forma: equipes campeãs da Copa do Brasil de Futebol Feminino 2016 e Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino 2016, oito primeiros colocados do Ranking Nacional de Clubes do Futebol Feminino e seis primeiros colocados da classificação do Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino. Grêmio obteve sua vaga ao ficar em 2º lugar no Campeonato Brasileiro Masculino.

[6] Osasco Audax obteve a vaga como campeão da Copa do Brasil e Corinthians pelo ranking do futebol masculino (apesar de ter ficado em 7º colocado, herdou a vaga pois outros clubes a dispensaram).

[7] O caso do Centro Olímpico merece destaque. Além da trajetória, o clube tem histórico de sucesso tendo sido vice-campeão da Copa de Brasil 2012 e 3º colocado em 2013, campeão brasileiro em 2013 e   3º colocado em 2014 e 2015. Além disso, investe em categorias de base (mantém as categorias sub-17, sub-15 e sub-13), fato raro no futebol de mulheres. Ainda assim, foi preterida diante dos critérios estabelecidos.

[8] Até o ano passado havia ainda também a seleção permanente, grupo de atletas contratadas pela CBF, recebendo salários pela entidade e treinando de maneira contínua exclusivamente com a seleção. Ela foi constituída em 2015, anunciada como projeto para preparar a equipe para os Jogos Olímpicos de 2016. No início de 2016, oito atletas já tinham abandonado a seleção, atraídas por ofertas de clubes estrangeiros. Diante desse cenário, após os Jogos Olímpicos não houve manutenção da iniciativa.

Como citar

ANJOS, Luiza Aguiar dos; DANTAS, Marina de Mattos. O “problema” do futebol jogado por mulheres. Ludopédio, São Paulo, v. 95, n. 30, 2017.