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O que está acontecendo em Belo Horizonte?

Rafael Miguel

O ano de 2019 começou com certa expectativa para os dois gigantes do futebol mineiro. Mesmo desconfiada, a torcida do Atlético tinha esperança na equipe de Levir Culpi. Além de ter um dos maiores treinadores de sua história no banco de reservas[1], o elenco contava com jogadores experientes como Ricardo Oliveira, Fábio Santos e o ídolo Victor, além de contar com a volta do capitão do título da Libertadores, Réver.

Embora sabendo da limitação do elenco e sem grandes contratações, o torcedor do Galo esperava uma boa campanha na principal competição sul-americana, mesmo que iniciando em sua fase preliminar. Além disso, já estava nas oitavas de final da Copa do Brasil, o que dava possibilidades do time chegar longe em uma competição de mata-mata, além de quem sabe, conseguir “beliscar” algo importante no Brasileirão.

Se do lado alvinegro haviam certas dúvidas, o Cruzeiro sonhava com um ano de glórias. Atual bicampeão da Copa do Brasil,  Mano Menezes iniciou a temporada mais uma vez como técnico do Cruzeiro. O comandante tinha à disposição um dos elencos mais caros do país, contando com jogadores como Fred, Thiago Neves, Fábio e Dedé. Eles ainda ganharam a companhia de outros nomes de peso como Rodriguinho, Marquinhos Gabriel e Pedro Rocha. Parecia a receita perfeita para uma temporada de sucesso.

O ano começou como se esperava para Galo e Raposa. Enquanto o Atlético ainda tentava se ajustar e teve dificuldades para passar por dois fracos adversários na Pré-Libertadores (Danúbio-URU e Defensor-URU), a Raposa começou arrasador, batendo seus adversários com facilidade, os reforços se encaixando muito bem e uma ótima campanha na fase de grupos da competição sul-americana, com 5 vitórias e 1 empate.

Por outro lado, o Alvinegro acabou eliminado, com apenas 2 vitórias em 6 jogos. Na última partida, já sem Levir Culpi, demitido no dia 11 de abril, e com o até então interino, Rodrigo Santana[2], como comandante, o Atlético conseguiu vencer o Zamora-VEN, fora de casa, garantindo pelo menos a classificação para a Copa Sul-Americana. De inicio, a equipe teve grande melhora nas mãos de seu jovem treinador, principalmente no setor defensivo, apontado como o grande problema do time de Levir. Logo de cara, os comandados de Rodrigo Santana conseguiram fazer frente ao seu maior rival na final do Campeonato Mineiro. Mesmo com o título ficando com o Cruzeiro, o Galo dificultou a decisão para a Raposa, que claramente era uma equipe superior àquela altura da temporada.

Rodrigo Santana esteve à frente da equipe em 41 jogos. Foram 18 vitórias, 6 empates e 17 derrotas. Foto: Bruno Cantini/Atlético.

A Raposa ainda voltaria a eliminar o seu rival, pelas quartas de final da Copa do Brasil, mas o time já dava mostras de uma queda técnica. Isso fico ainda mais claro após o River Plate despachar a Raposa nas oitavas de final da Copa Libertadores. Na verdade, a queda dentro e fora de campo do clube havia se iniciado para valer no dia 26 de maio, quando o programa Fantástico, da Rede Globo, mostrou que a diretoria do clube estava sendo investigada pela Policia Civil de Minas Gerais por suspeitas de lavagem de dinheiro, uso de empresas de fachada e até pela venda de direitos de um menor[3]. A revelação fez o clube ir ladeira à baixo.

Enquanto o Atlético fazia um bom início de Campeonato Brasileiro, ficando diversas rodadas no G4, o Cruzeiro parecia se preocupar mais com o seu ambiente interno do que dentro de campo e os resultados não vinham. Mano Menezes foi demitido no dia 07 de agosto e Rogério Ceni rapidamente assumiu o clube. Chegando com respaldo por seu grande trabalho no Fortaleza, o treinador parecia a salvação do clube, que queria depressa espantar a sombra da zona do rebaixamento.

Jogadores do elenco e Rogério Ceni tiveram desentendimentos públicos. Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro.

Mas os resultados ruins permaneceram, e a falta de tato de Rogério em lidar com jogadores experientes e atletas que também pareciam não querer colaborar muito com o novo comandante abreviou a passagem de Ceni pela Toca da Raposa, que só ficou à frente da equipe por 45 dias, demitido no dia 26 de agosto. Na Cidade do Galo a coisa também começou a complicar. Alguns jogadores caíram de rendimento, lesões atrapalharam um já limitado elenco, e a queda para o não tão tradicional Colón-ARG na semifinal da Copa Sul-Americana começou a colocar pressão no ambiente alvinegro. As vitórias no Campeonato Brasileiro também sumiram e a equipe, que antes brigava por uma vaga no rebaixamento, passou a flertar com a zona do rebaixamento.

Após a demissão de Rodrigo Santana no dia 13 de outubro, a diretoria atleticana agiu rápido e contratou Vagner Mancini, treinador que não desperta a simpatia dos atleticanos, tanto por seus recentes trabalhos ruins, quanto por seu histórico de participar de campanhas em que clubes terminaram rebaixados[4]. Já na Toca da Raposa o treinador é Abel Braga, que também chegou com desconfiança e ainda não ganhou a confiança de torcedores celestes.

Atuais treinadores das equipes mineiras: Wagner Mancini, à esquerda, e Abel Braga, à direita. Foto: Bruno Cantini/Atlético e Vinnicius Silva/Cruzeiro.

De semelhante entre os dois clubes, ambos convivem com problemas financeiros, atrasos de salários, estão com o terceiro treinador diferente na temporada e possuem jogadores experientes, que já foram grandes vencedores, mas que não mostram mais tanto brilho em campo.

Do lado celeste, há o agravante da tumultuada política do clube, com direito a saída do diretor geral Sérgio Nonato e do vice-presidente de futebol Itair Machado, que até então eram os homens de maior confiança do presidente Wagner Pires de Sá. Aliás, o próprio mandatário enfrenta pressão para renunciar ao cargo.

Já no Galo, o presidente Sergio Sette Câmara se mostra perdido em alguns momentos e também sofre forte criticas da torcida. O elenco limitado montado para a temporada, sob o comando de um treinador assumindo nas rodadas finais, que vai ter que se virar com o que tem nas mãos, é o grande obstáculo para a reta final de Campeonato Brasileiro.

Quando se olha para trás, é incrível imaginar como Atlético e Cruzeiro, que foram protagonistas do futebol brasileiro na última década, chegaram a esse ponto. De 2013 para cá, o Galo levantou os títulos da Libertadores, Recopa Sul-Americana e Copa do Brasil, enquanto a Raposa ficou com as taças de dois Campeonatos Brasileiro e duas Copas do Brasil. São 7 títulos de grande expressão em 7 anos para a dupla mineira.

As atuais administrações colocaram outros interesses à frente dos clubes, contrataram mal, fizeram escolhas errôneas de treinadores e levaram dois dos maiores clubes do futebol brasileiro a um momento vertiginoso. Caso Atlético ou Cruzeiro, ou até mesmo os dois, caiam para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro, seria um momento terrível para o futebol de Minas Gerais. Se permanecerem na série A, que seus presidentes comecem a pensar o futebol dos clubes de uma outra forma e respeitem o tamanho das instituições Clube Atlético Mineiro e Cruzeiro Esporte Clube.

Notas

[1] Ao todo, Levir Culpi teve 5 passagens pelo Atlético e conquistou 6 títulos.

[2] Rodrigo Santana se destacou no interior de Minas Gerais, à frente da URT, e foi contratado para as categorias de base do Atlético. Depois foi alçado à comissão técnica da equipe principal.

[3] Link da reportagem: https://www.youtube.com/watch?v=ErL37-n1s0E.

[4] Participação de Vagner Mancini em campanhas de clubes rebaixados: Guarani (2010), Ceará (2011), Sport (2012), Botafogo (2014) e Vitória (2018).