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“O que os leitores nos escrevem”

Plínio Labriola Negreiros

Como eu compreendo pouco das táticas utilizadas no futebol, gosto de olhar para os sujeitos que tornam tal esporte algo apaixonante: os torcedores. Para qualquer época, escutar as suas vozes é fundamental. Em uma pesquisa realizada há duas décadas, ao analisar a experiência do futebol durante a Ditadura Vargas na cidade de São Paulo, mergulhei nos periódicos, que oferecem muitos riscos ao pesquisador, mas traz algo muito rico, porque permite adentremos na atmosfera de outro tempo.

A minha obrigação era recuperar esse torcedor por meio dos periódicos que circulavam em São Paulo. Escolhi dois deles: A Gazeta (AG) e O Estado de S. Paulo (OESP) — principalmente porque havia importantes contraposições entre eles. No tocante aos esportes, tinham linhas editoriais muito diferentes, que começava na forma de se relacionar com os leitores, passando pela escolha de temas e pela abordagem destes. E, como questão de fundo, esses periódicos estavam separados no grande debate dos anos 1930 dentro do futebol: profissionalismo, defendido pela AG, versus amadorismo, com apoio do OESP. De forma mais geral, AG estava próxima de Vargas, mesmo antes do Estado Novo; OESP, fez oposição ao regime autoritário. Outro dado: este era um periódico mais elitista, posição bem diferente do seu concorrente, de Cásper Líbero, que buscava leitores entre as classes populares; inclusive, usando de uma linguagem visual com tal intuito.

AG reservava um espaço especial para os esportes: uma seção subdividida em várias partes, com colunas fixas e esporádicas. Estava muito mais envolvido com as questões esportivas do que O Estado. Apenas às segundas-feiras, a partir de 1938, aquele periódico publicava um suplemento especial, denominado A Gazeta Esportiva, com uma ampla cobertura do final de semana esportivo, enfatizando o futebol; em 1941, esse suplemento seria publicado também aos sábados, apontando para as disputas esportivas do final de semana.

AG preocupava-se com todos os esportes, destacando-se o futebol. Em relação ao grande debate dos anos 1930, colocava-se a favor do profissionalismo, não apontando essa condição como geradora das dificuldades pelas quais o futebol passava. Dava atenção às condições de vida e de trabalho dos atletas profissionais, enquanto o OESP via o jogador profissional como alguém despreocupado com os fatores educacionais do esporte, pois somente caminhava no sentido de almejar ganhos materiais.

OESP e AG, assim como a maior parte dos jornais que circulavam na cidade, possuíam cronistas esportivos fixos. Do jornal da família Mesquita, o cronista J. R. Pantoja, do qual encontramos poucas informações; para AG, Thomaz Mazzoni da Gazeta, desde o início dos anos 1930, era o mais importante cronista esportivo de São Paulo; condição essa também presente na década seguinte. Em meio a muitas divergências, eles guardavam uma aproximação: faziam dos seus ofícios quase que uma militância, pois entendiam que a função de um cronista esportivo — ou antes de mais nada, um jornalista — era contribuir para a educação da população. Daí o tom professoral das suas crônicas diárias.

Por outro lado, um periódico como AG teve a clareza de que, quanto mais envolvido estivesse esse torcedor com o jornal, melhor. O leitor/torcedor deveria perceber que ele teria naquele diário um espaço significativo, no qual ele poderia expressar suas ideias, suas angústias, sua paixão. Mais do que isso: o jornal deveria ser uma referência a todos os esportistas; deveria ser o espaço das notícias de abrangência local. Em função disso, nas páginas da AG encontrava-se um espaço dedicado aos esportes amadores, com destaque ao futebol varzeano, estabelecido em cada bairro da cidade de São Paulo. O morador de um bairro operário tinha a chance de encontrar notícias do seu time local nas páginas esportivas do periódico do jornalista Cásper Líbero. Esse mesmo leitor, a qualquer momento, poderia estar citado nas folhas da Gazeta, por causa de mesmo futebol varzeano. Isso não tinha chance de ocorrer no OESP.

Havia na AG, na parte esportiva, uma subseção denominada “O que o leitor nos escreve”, na qual leitores/torcedores opinavam sobre questões ligadas ao dia-a-dia dos clubes ou da estrutura do futebol e de outros esportes. Em “O que os leitores nos escrevem” é possível reconstruir, em parte, qual o significado do futebol para esses torcedores e para os outros setores da sociedade de São Paulo. Essa seção também nos permite entender quais as principais questões que marcavam o futebol dos anos 1930 e 1940. Assim, a fim de dimensionar qual a utilização que os leitores faziam desse espaço, observe-se um trecho de uma dessas cartas publicadas:

Avante jogadores corinthianos ‘Sr. redator. Peço transmitir, em nome do ‘torcedores’ de Promissão, um apelo aos bravos jogadores do Corinthians para que não deixem se dominar pelo desânimo, esquecendo as amarguras dos últimos revezes e se preparando física e espiritualmente para a próxima ‘melhor de três’ com o Palestra (…) Lembrem-se, principalmente, os corinthianos de que, apesar de todos os dissabores, não foram vencidos pelo seu clássico rival e que poderão, com esforço, entusiasmo e amor-próprio, não ser vencidos ainda na ‘melhor de três’. Promissão, abril de 1937. – Primo Ferreira”.

Este tipo de manifestação do leitor/torcedor era comum; isto porque o jornal acabou se tornando um intermediário entre os que praticavam e dirigiam o futebol e os torcedores. No caso desse leitor/torcedor de Promissão, interior de São Paulo, esse tipo de espaço era fundamental para ele pudesse reforçar as suas relações com o clube pelo qual torcia. Daí AG ter-se tornado uma referência para todos que tinham alguma relação com os esportes. É importante lembrar que os principais clubes de São Paulo também estabeleciam vínculos com os seus torcedores que não moravam na cidade. O Corinthians teve por muitos anos uma revista mensal, que recebia muitas assinaturas vinda do interior paulista.

Outros temas e manifestações também estiveram presentes na seção “O que os leitores nos escrevem”, como cartas com o objetivo de provocar outros leitores, geralmente apaixonados por clubes diferentes. Ou cartas de leitores que simplesmente comentavam sobre o dia-a-dia do seu clube, como um comentário sobre a pertinência na escalação de um jogador e não de outro.

No OESP existia esse tipo de espaço, mas, ao contrário do que acontecia na AG, as cartas dificilmente eram publicadas na sua íntegra. Normalmente, o que acontecia era o cronista acusar o recebimento de uma correspondência e comentá-la; não se constituído numa seção exclusiva para o leitor. No tradicional jornal paulistano, espaço sistemático para o leitor existia apenas para que fossem registradas reclamações sobre questões da cidade. Veja esse exemplo, de fevereiro de 1940:

Recebemos ontem numerosas cartas de protesto contra o elevado preço das entradas para o jogo de domingo entre as quais as seguintes: (…) ‘Os preços estipulados pela CBD são uma verdadeira exploração! (…)’ (…) ‘Em São Paulo, num estádio ainda por acabar, com péssimas acomodações, cheio de barro, exigir que o público paulista pague preços verdadeiramente proibitivos, é verdadeiramente um sarcasmo, para não dizer exploração! (…)”.

Open green grass  book Of soccer stadium with football

“O que os leitores nos escrevem”. Foto: jannoon028/Freepik.

Outra questão que pode ser percebida nesta seção dedicada ao leitor, refere-se às relações entre as opiniões desse leitor e as opiniões dos cronistas esportivos. Em uma dessas manifestações de um torcedor, discutia-se uma questão que tinha importância na época: poderia um clube, para um jogo amistoso, utilizar-se de jogadores emprestados a outros clubes, apenas com o intuito de conquistar uma vitória? Existiria nessa atitude algum valor? Seria moralmente aceita? Mais importante do que a argumentação do leitor “Bugre das Alamedas”, eram as suas referências, pois ele apoiava-se em teses de Thomaz Mazzoni. Dizia essa carta de abril de 1937:

Os Enxertos

No comentário de ‘Olympicus’ sobre os jogadores emprestados, houve uma grande verdade: a Várzea, ontem como hoje, não admite que seus clubes, enxertem seus quadros, quando devem medir forças, com algum ‘taludo’.

‘Olympicus’ diz que, ‘no tempo heróico da várzea não se admitia que um jogador proposto e aceito na quinta-feira, jogasse no domingo seguinte’…

(…)

‘BUGRE DAS ALAMEDAS’”

Um rápido registro: nos jornais da época era comum os missivistas assinarem com pseudônimos; inclusive, Thomaz Mazzoni, também assinava com um pseudônimo: Olympicus. O uso do pseudônimo não era comum só no futebol.

Nessa carta de um torcedor/leitor, que se não se declara simpático a nenhum clube (o que era raro), percebe-se a influência exercida pelo cronista esportivo, que moldava uma “opinião pública” no campo esportivo. É possível observar o quanto as opiniões de um jornalista acabam sendo corroboradas, ou simplesmente incorporadas, pelos seus leitores. Efeito do já citado tom didático e professoral dos cronistas esportivos. Era como se o jornalista esportivo fosse uma espécie de guia, com capacidade de mostrar ao torcedor o caminho correto pelo qual os destinos do futebol e dos esportes deveriam seguir. Isso fica nítido em Mazzoni, como se verá em muitas das suas manifestações.

Ainda em relação à carta do “Bugre das Alamedas”, observamos uma outra característica, muito presente várias de suas missivas: o futebol deveria ser regido por algumas regras morais, como no caso dos empréstimos de jogadores por apenas uma partida; inclusive, o autor vai buscar a sua referência no chamado ‘futebol menor’, ou seja, a várzea. Dessa forma, um comportamento da várzea deveria ser reproduzido no futebol profissional. Ou ainda: o futebol varzeano era depositário de virtudes ausentes no futebol profissional.

“O que os leitores nos escrevem”, também possibilitava o encontro de outras questões que marcavam o dia-a-dia do torcedor. Um leitor utilizava-se da seção, em abril de 1937, para uma reivindicação: pedia ao Palestra que abrisse uma nova bilheteira no seu estádio, para atender ao público aficionado que chegava ao Parque Antártica (estádio do Palestra) de automóvel. Ou seja, o torcedor buscando ser melhor tratado quando fosse assistir a uma partida de futebol. Demonstra, ainda, a pouca preocupação dos clubes com o conforto dos seus torcedores. Outras queixas eram colocadas: livre ação dos cambistas (talvez a mais grave e recorrente), a falta de transporte, péssimas acomodações dentro dos estádios (principalmente quando o jogo recebia uma grande plateia e havia improvisações para ampliar a capacidade do estádio), entre outras. Enfim, se o torcedor — a alma do espetáculo — sofria com o desrespeito dos organizadores do futebol, ele utilizava-se de um canal existente para reclamar.

Muitas cartas preocupavam-se em apontar algumas das mazelas que faziam parte do futebol. Uma das questões mais discutidas no final dos anos 1930, era a violência que havia tomado conta dos campos esportivos. Nesse sentido, um torcedor escreve com o objetivo de descrever uma partida de futebol de uma liga amadora, em que o árbitro havia sido brutalmente agredido pelos torcedores. Diz a carta de abril de 1937:

“(…) (os torcedores) alegavam ter esse juiz anulado um tento legítimo do Orion, cousa que passou antes de minha chegada. Ao findar da luta com a vitória do Ramenzoni, deu-se a hora ‘H’ do futebol moderno, ou seja, cabia a vez do juiz ser julgado pela ‘torcida’, do lado derrotado, já se vê. Foi aí que assisti, revoltado, a agressão bárbara de uma turma fanática ao indefeso juiz, sem um amigo sem um policial para o defender da sanha dos exaltados (…) Urge que a polícia tome uma providência enérgica contra essa espécie de desordeiros que comparecem aos campos de futebol, oficiais ou não, aplicando-lhes o castigo que merecem e garantindo a integridade física de juízes indefesos. Do leitor assíduo da ‘Gazeta’, Sérgio Luiz Teixeira”.

Essa manifestação, de certa maneira, era mais séria e mexia com alguns problemas graves que envolviam o futebol da época. De um lado, um velho torcedor mostrando todo o seu desprezo pelo futebol que era praticado naquele momento. Esse saudosismo, essa leitura quase mítica do passado, na qual os conflitos foram abstraídos, era presença constante nesse futebol de mudanças bruscas. Esse leitor citava Friedenreich, que significava falar do futebol dos anos 1910 e 1920, os momentos “românticos” do esporte bretão. Porém, nessa época, os conflitos também ocorriam, quando não foram mais sérios. Por outro lado, esse leitor analisava o momento em que o futebol vivia, da mesma forma que os cronistas do Estado de S. Paulo — sadio foi quando este esporte era praticado e dirigido por outras pessoas, movidas por idealismo —, ou seja, antes do profissionalismo.

O ponto central da carta, que motivara a sua escrita, era o fato de um árbitro ter sido brutalmente agredido por torcedores que, no próprio campo, presenciavam a derrota de seu time. O leitor mostra toda a sua indignação frente ao acontecido, analisando o fato apresentado como referencial do futebol moderno, este capaz de produzir inversões de valores; aqui, no caso, a torcida julgando e aplicando a pena ao árbitro faltoso.

A conclusão do leitor Sérgio Luiz Teixeira não deve surpreender. Este fala na necessidade da presença policial e na penalização dos desordeiros, que estavam desgraçando “o nosso já desgraçado futebol”. E por que essa postura não deve surpreender? O missivista, mesmo com uma aparente reflexão pessoal, apenas reproduzia o pensamento que se havia generalizado pela imprensa em geral. Um “futebol desgraçado” sintetiza a leitura que a maioria dos cronistas esportivas fazia. Estes chegavam a divergir quanto à possibilidade desse esporte ser reabilitado, em que uns mostravam-se mais céticos que outros. E com uma convergência: a necessidade de uma presença policial mais efetiva, em todos os lugares onde o futebol era jogado. A ordem e a disciplina deveriam ser respeitadas, principalmente no esporte, o lugar da formação da juventude.

E não era apenas a violência dos torcedores que era objeto de crítica por parte dos leitores da Gazeta. Também os jogadores eram apontados como responsáveis diretos da violência cotidiana nas partidas de futebol. Numa partida entre o São Paulo Futebol Club e o S. P. R., em junho de 1937, os jogadores acabaram-se envolvendo numa batalha campal:

“(…) Se o juiz, sr. Arthur Cidrin, tivesse agido com energia desde o começo, expulsando do campo o jogador Passarine, que foi o primeiro a praticar jogadas violentas, nada teria acontecido, pois os demais jogadores, vendo o castigo do companheiro indisciplinado, controlariam seus nervos, evitando-se assim o fim triste como se escoaram os 2 minutos finais da partida.(…)”.

Se a violência poderia vitimar o árbitro de uma partida, também este poderia provocar outro tipo de violência, em função da sua omissão ou incapacidade em coibir a brutalidade dos jogadores dentro de campo. Mais do que os atletas, o árbitro era o responsável pela anomalia apontada; era considerado o principal artífice da manutenção da disciplina dentro das quatro linhas. O leitor propõe uma outra questão, que é o tratamento que a imprensa esportiva dava a cada grande clube da cidade. Ou seja, trata-se da relação entre o torcedor e a imprensa esportiva. Prossegue o leitor:

“(…) Tenho notado, sr. redator, que em partidas onde tomam parte os grandes clubes, nas quais muitas vezes têm havido sururus, a imprensa esportiva silencia sobre os acontecimentos, onde muitas vezes a polícia intervém para serenar os ânimos dos brigões; no entanto, quando acontece qualquer anormalidade numa partida em que toma parte o S. Paulo F. C., toda a imprensa tem o prazer em explorar os menores incidentes da partida e fazer, em seguida, grandes alardes, verdadeira propaganda, com a vitória de certo esquadrão da Liga, que também muitas vezes promove incidentes em campo, mas para o qual tudo faz passar em brancas nuvens (…)”.

Aqui a crítica recai sobre a imprensa esportiva, acusada de destinar tratamento diferente para cada clube grande de São Paulo, destacando privilégios de alguns, ao contrário do São Paulo Futebol Clube. Essa abordagem do leitor revela a sua leitura crítica, ainda que mediada pela paixão. Mas, de qualquer modo, ele busca algumas contradições na produção da imprensa esportiva.

Por outro lado, quando a imprensa, como também torcedores, começa a clamar pela presença policial nos estádios de futebol, está colocando esse esporte como incapaz de se auto organizar. Assim, o esporte mais popular da cidade e do país necessitava de um tentáculo estatal: a repressão e intimidação pela força policial. Ou, mais uma vez, o medo das multidões; estas precisavam ser acompanhadas de perto. Meses mais tarde, a imposição de uma ordem autoritária, o Estado Novo, tratará muito dessas questões.

Enfim, as cartas dos leitores/torcedores nos permitem, após 80 anos, dimensionar as questões que perpassavam o futebol de São Paulo. Não deixa de surpreender algumas permanências.