108.14

O que resta do Oito de Julho

Elcio Loureiro Cornelsen

AC DC ThunderstruckThere was no help, no help from you

Sound of the drums

Beating in my heart

The thunder of guns

Tore me apart

You’ve been

Thunderstruck

(AC/DC)

 

Uma data memorável – 08 de julho de 2014. Há quase dois anos, torcedores brasileiros vivenciariam aquele que, até o momento, seria o dia mais crítico da história do futebol brasileiro. A escolha pelo termo “crítico” e não “trágico” se deve a um fato: para ser “trágico”, no sentido estrito de “tragédia”, faltaria àquela Seleção comandada por Luiz Felipe Scolari a expressividade heróica, quer dizer: técnica, que lhe outorgasse um franco favoritismo, frustrado abruptamente.

Todavia, como se sabe, não foi isso o que ocorreu. Com uma campanha mediana, aos trancos e barrancos, sem convencer o torcedor, a Seleção Brasileira chegou a Belo Horizonte para enfrentar a forte Seleção comandada pelo técnico Joachim Löw, uma “seleção” de fato, que reeditaria nos gramados brasileiros, na prática, aquele que era um dos lemas da Copa de 2006, realizada em casa: “Teamgeist” (“espírito de equipe”), nome dado à bola daquele Mundial.

Felipão durante jogo do Brasil contra a Alemanha semifinal da copa do mundo, 08 de Julho 2014. Bruno Domingos / Mowa Press

Felipão durante jogo do Brasil contra a Alemanha pela semifinal da Copa do Mundo, 08 de Julho 2014. Bruno Domingos/Mowa Press.

Diferindo diametralmente do desempenho da Seleção Brasileira, a equipe alemã havia jogado, até então, um futebol convincente, aliás, num crescendo que se iniciou a partir dos anos 2000, e que conheceria seu ápice justamente em 2014, como fruto de uma política de Estado adotada no início do novo milênio, e que deveria tornar o país em 10 anos uma “potência futebolística” (Fußballmacht).

Não é necessário entrar em detalhes daquela fatídica partida, que entraria para a história sob o desígnio de “Mineiraço” ou, em Alemão, Mineiratzen. Cabe-nos, pois, a seguinte indagação: o que resta do Oito de Julho? Interessante essa substantivação da data, uma data, aliás, de conteúdo superlativo, para alegria de uns, e para a tristeza de outros.

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Manhã de Oito de Julho, confraternização com torcedores alemães na Savassi.

Oito de Julho – jogo 61: esse é o título do documentário media-metragem dirigido pelo jornalista Rivelle Nunes Carlos e realizado pela equipe da Agência i7. A sinopse do filme define bem seu conteúdo:

O que você estava fazendo naquela 3ª feira, quando a seleção brasileira entrava em campo para sofrer a maior derrota da sua história? Essa é a pergunta que permeia o documentário “8 de Julho – Jogo 61”, primeiro filme em caráter documental produzido pela Agência i7. A obra conta a visão de sete personagens que, de alguma forma, estavam envolvidos com a partida na qual a seleção alemã goleou a brasileira, por 7 a 1, no Mineirão.[1]

De caráter memorialístico, o documentário retoma as emoções geradas por aquela partida a partir da vivência de sete “testemunhas”, de vários pontos de vista: da academia, das arquibancadas, das tribunas de imprensa, e de quem atuou como fotógrafo no gramado do Estádio do Mineirão. Trata-se de um registro cinematográfico de extrema sensibilidade, cujos protagonistas procuram reavivar a memória para comporem seus relatos. Feito uma data memorável como a da Queda do Muro de Berlim, em 09 de novembro de 1989, ou como o fatídico 11 de setembro de 2001, o Oito de Julho de 2014 ficou marcado na memória de muita gente, chegando a detalhes, dada a intensidade da vivência.

Nos relatos de quem vivenciou de perto aquela partida, e também daqueles que a vivenciaram diante das telinhas e telões espalhadas pelo país e pelo mundo afora, percebe-se algumas recorrências: para uns, tratou-se de uma verdadeira “tragédia”, uma autêntica “catástrofe” – pensada aqui no seu sentido disfórico; para outros, foi “o jogo do século” (das Jahrhundertspiel) – no sentido eufórico daqueles que triunfaram.

Para além dessa significativa contribuição cinematográfica para a memória do Oito de Julho, há também relatos publicados por jornalistas que procuraram dar conta de suas vivências naquela data. Um testemunho do “Mineiraço” é o do jornalista Gustavo Hofman, atuando pelo canal ESPN, que acompanhou a Seleção Alemã durante o torneio mundial e publicou ainda em 2014 a obra 40 dias com a campeã do mundo: histórias e bastidores da Alemanha no Brasil.

Enquanto o documentário de Rivelle Nunes Carlos traz a referência “jogo 61” no subtítulo, ou seja, a 61ª partida da Copa de 2014, a referência cronológica de Hofman é de outra ordem: “Dia 34”. Foi, justamente, o 34º dia em que Hofman acompanhou o selecionado comandado por Joachim Löw. Em sua visão, “[o] que todos vimos naquele dia trágico para o futebol brasileiro foi um reflexo do atraso do nosso futebol. Atraso tático, organizacional, logístico, enfim, tudo. Não, não foi um apagão”.[2] Seu sentimento foi marcado por um misto de revolta e indignação: “[…] entre os 22 e 29, um massacre como eu nunca presenciara antes em um campo de futebol. Fiquei revoltado. […] Eu fiquei indignado com a falta de reação dos jogadores brasileiros e do Felipão”.[3] Para Hofman, os jogadores brasileiros “[e]ram robôs assimilando a superioridade adversária passivelmente (sic)”,[4] “[p]arecia que todos aceitavam aquilo com naturalidade”.[5]

Ao final de seu relato referente ao 34º dia acompanhando a campeã do mundo, Hofman traz um dado curioso que, certamente, se tornou uma espécie de memória sensorial sugestionada por uma canção específica:

Por fim, uma última história sobre esse fatídico dia. Sempre nas vésperas dos jogos e nas horas anteriores ao apito do árbitro, a FIFA testava o som nos estádios. Não sei o motivo, mas a música escolhida era Thunderstruck, do AC/DC. Eu e toda equipe da ESPN ficamos até muito tarde no Mineirão, bem depois do final da partida, e com isso, na hora que fomos embora, percorremos os corredores do estádio completamente vazios com as caixas de som tocando em uma altura ensurdecedora aqueles acordes na voz marcante de Brian Johnson.

Sempre que eu ouvir Thunderstruck invariavelmente vou lembrar do Mundial (sic) e, mais especificamente, daquele 7 a 1.[6]

Enfim, “fulminado por um raio”, “assombrado”, “estupefato”: a canção Thunderstruck, executada às alturas, sem dúvida, tornou-se uma trilha sonora adequada para aquele dia e aquela partida.

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Manhã de Oito de Julho, com um grupo de torcedores alemães de Mannheim, que aguardavam o momento de seguir para o Estádio do Mineirão.

Outra obra de caráter memorialista pelo lado alemão é 7:1 – das Jahrhundertspiel (2015; 7×1 – o jogo do século),[7] do jornalista Christian Eichler, que atuou na Copa de 2014, como correspondente do jornal FAZ – Frankfurter Allgemeine Zeitung. Assim como Gustavo Hofman, Eichler pode vivenciar das tribunas do estádio aquela partida. Seu livro traz, ainda, o seguinte subtítulo: “quando o mito brasileiro se despedaçou e a quarta estrela da Alemanha ascendeu”.[8]

Assim como Rivelle Nunes Carlos e Gustavo Hofman adotaram critérios para marcar, cronologicamente, a partida – “jogo 61” e , respectivamente, “Dia 34”, Christian Eichler também adotou o seu critério: narrar o jogo minuto a minuto. Em termos estruturais, o livro está dividido em “Pré-jogo” (Vorspiel), “1º minuto” a “45º minuto”, “Intervalo” (Pause), “46º minuto” a “90º minuto”, “Acréscimo” (Nachspielzeit) e “Pós-jogo” (Nachspiel), reproduzindo, assim, o tempo decorrente de um jogo de futebol ou, como o próprio autor define, “a biografia de uma partida de futebol” (die Biographie eines Fußballspiels) e “a própria vivência do sete a um” (das Eigenleben des Siebeneins).[9]

O leitor da obra de Eichler tem, pois, a oportunidade de acompanhar o olhar do jornalista antes, durante e depois da partida, em um texto recheado de referências de vários órgãos de imprensa, alemães e internacionais. O “Pré-jogo”, que funciona como um prefácio, se inicia com uma reflexão sobre como designar aquela partida tão singular, que seria rememorada por longo tempo, e que geraria até uma nova palavra no léxico alemão, cuja morfologia é recheada de substantivos compostos:

Na maioria das vezes, a gente precisa de muitas palavras para diferenciar uma partida de futebol de outra. Para esta, entretanto, são suficientes dois números e um “x”: 7 x 1.

Na verdade, basta apenas uma única palavra.

Seteaum.

Ainda em cem anos, enquanto houver algumas testemunhas oculares dos noventa minutos de Belo Horizonte, ou outros, aos quais elas tenham contato sobre isso –, ainda no século XXII esses dois números bastarão para se saber do que se trata.[10] (tradução própria)

A obra de Christian Eichler é muito interessante, não só pelo enfoque detalhado que dá ao jogo, mas também porque o autor teve a sensibilidade de refletir sobre as implicações que a partida teria enquanto evento memorável. A seguir, temos uma dessas passagens do livro, ainda no “Pré-jogo”:

E enquanto a gente vivenciava [o jogo] e por um longo tempo ainda não assimilava, enquanto a gente via e, em vão, queria apreender o inapreensível, realizar o irrealizável, mesmo naquele instante a gente pressentia, como observador, que seria como aqueles momentos futuros em que dizemos “eu ainda sei onde eu estava”, que, em geral, sem falar na Queda do Muro, quase sempre estão associados a catástrofes mundiais. Assim ocorreu na mesma noite com os brasileiros.[11]

Portanto, no relato de Eichler, a partida ganha contornos de uma “catástrofe”, daquelas que marcam a vida das pessoas para sempre, seja lá onde se encontravam ou mesmo o que estavam fazendo naquele Oito de Julho.

Por fim, outro aspecto do relato de Eichler que chama à atenção é o fato de o autor situar o momento decisivo da partida no placar de 5 x 0, no 29º minuto de jogo, quando Sami Khedira assinalou o 5º gol para a Seleção Alemã, que teria representado um “ponto de cisão” (Schnittpunkt) no desempenho e na história de ambas as seleções:

A gente pode determinar exatamente esse ponto de cisão, é o 29º minuto, no qual Sami Khedira marca o 5º gol. O minuto, no qual a Alemanha, pela primeira vez, substituiu o Brasil no topo da estatística dos gols marcados em Copas do Mundo. 221 x 220 era a estatística naquele momento. Porém, o dia ainda não tinha chegado ao seu fim.[12]

Assim, os relatos memorialistas produzem e alimentam continuamente o mito do “Mineiratzen”, mito aqui entendido como produto do conjunto de narrativas que revestem, a posteriori, o evento de um sentido que se cristaliza, seja ele disfórico ou eufórico. Restam, pois, do Oito de Julho, relatos como esses aqui brevemente abordados, como momento gravado fundo na memória daqueles que vivenciaram intensamente aquele dia e aqueles minutos – o “Jogo 61”, o “Dia 34”, ou o “29º minuto”. E, talvez, a recordação de Gustavo Hofman sobre a canção do AC/DC seja, de fato, uma trilha sonora apropriada: Thunder, thunder, thunder, thunder…


Notas

[1] Disponível em: http://hojeemdia.com.br/esportes/mineir%C3%A3o-ag%C3%AAncia-mineira-lan%C3%A7a-document%C3%A1rio-sobre-o-7a1-no-palco-de-brasil-x-alemanha-1.618234. Acesso em: 06 jun. 2018.

[2] HOFMAN, Gustavo. 40 dias com a campeã do mundo: histórias e bastidores da Alemanha no Brasil. Rio de Janeiro: Via Escrita, 2014, p. 119.

[3] Idem, p. 119.

[4] Idem, p. 120.

[5] Idem, p. 119.

[6] Idem, p. 120.

[7] EICHLER, Christian. 7:1 – das Jahrhundertspiel: als der brasilianische Mythos zerbrach und Deutschlands vierter Stern aufging. München: Droemer, 2015.

[8] No original: als der brasilianische Mythos zerbrach und Deutschlands vierter Stern aufging (tradução própria).

[9] Idem, p. 9.

[10] Idem, p. 5. No original:

Meist braucht man viele Worte, um ein Fußballspiel von anderen zu unterscheiden. Für dieses genügen zwei Zahlen und ein Doppelpunkt: 7:1.

Eigentlich reicht sogar ein einziges Wort.

Siebeneins.

Noch in hundert Jahren, solange ein paar Augenzeugen der neunzig Minuten von Belo Horizonte leben oder andere, denen sie davon erzählt haben – noch im 22. Jahrhundert werde diese beiden Zahlen ausreichen, um zu wissen, worum es geht.

[11] Idem, p. 8. No original:

Und während man es erlebte und noch lange nicht begriff, während man es sah und vergeblich das Unfassbare fassen, das Irreale realisieren wollte – schon währenddessen ahnte man als Betrachter, dass es einer jener ich-weiß-noch-wo-ich-war-Momente war, wie sie sonst, vom Mauerfall abgesehen, fast immer mit tragischen Weltereignissen verbunden sind. So wie am selben Abend bei den Brasilianern.

[12] Idem, p. 6. No original:

Man kann diesen Schnittpunkt exakt terminieren, es ist die 29. Minute, in der Sami Khedira das 5:0 schießt. Die Minute, in der Deutschland in der Torstatistik der Weltmeisterschaften Brasilien erstmals an der Spitze ablöst. 221:220 hieß es in diesem Moment. Doch der Tag war noch lange nicht zu Ende.