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O racismo e a xenofobia enraizados no futebol argentino

Copa Além da Copa

Março de 2009: num jogo entre Independiente e Boca Juniors pelo campeonato argentino, a torcida vermelha saca bandeiras de Bolívia e Paraguai marcadas com o número “12” no intervalo da partida. A plenos pulmões, torcedores dizem que “aquele que não pular é da Bolívia e do Paraguai”. A cena, que gerou protestos das federações de futebol dos dois países, traduz a forma de racismo mais comum no futebol argentino.

A insinuação da torcida do Independiente é simples: como o Boca é o clube ligado às camadas mais populares da Argentina, os imigrantes bolivianos e paraguaios são todos torcedores deles. O número 12 é identificado com a torcida xeneize, considerada o 12º jogador da equipe.

Mas por que ser boliviano ou paraguaio deveria ser motivo de vergonha? Essas são as duas maiores comunidades imigrantes na sociedade argentina atual. E são imensamente discriminadas em todo o país. Segundo o Instituto Nacional Contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo, o INADI, órgão estatal que monitora casos de preconceito na Argentina, hoje, o motivo número um para a discriminação é o país de origem.

O futebol é onde esse racismo se manifesta com mais força.

Antes de prosseguirmos, é bom lembrar: este texto complementa o episódio 25 do podcast Copa Além da Copa, que trata sobre os negros no futebol argentino. Clique aqui para ouvir.

Discriminação e racismo

Em 2017, o consulado do Paraguai na Argentina estimava que cerca de 2 milhões de cidadãos do país viviam apenas na província de Buenos Aires.

Já os bolivianos eram cerca de 345 mil em 2010, ano do último grande censo argentino. Mas, entre 2011 e 2017, a Direção Nacional de Migrações argentina estima que em torno de 414 mil bolivianos chegaram ao país. Portanto, não é exagero dizer que, hoje, há algo acima de 1 milhão de pessoas nascidas na Bolívia vivendo em toda a Argentina.

Para quem vê de fora, a discriminação contra as duas comunidades (às vezes chamadas pejorativamente de “boliguaios”, como se fossem a mesma coisa) é caso de xenofobia. Mas não há dúvida de que existe também um forte componente racial aí.

A Argentina é um país que já teve uma grande população descendente de africanos, reduzida drasticamente do século XIX para cá. Assim como no Brasil, a partir do século XIX, houve uma política estatal para promover o embranquecimento do país, que resultou na Argentina se tornando o maior destino de imigrantes italianos em toda a América Latina. Vieram também espanhóis, ucranianos, poloneses, franceses e alemães.

Hoje, a palavra “negro” no país se refere mais às pessoas que têm sangue indígena do que africano. Como Bolívia e Paraguai são duas nações fortemente marcadas por suas raízes indígenas, o tom de pele dos seus cidadãos é mais escuro que o do argentino médio. Portanto, não é difícil ouvir os “boliguaios” sendo chamados de negros por lá.

Boca Juniors, time do povo

A apaixonada torcida do Boca Juniors. Foto: Rafael Alvez/CC BY-NC-SA.

Hoje ponto turístico obrigatório da região sul de Buenos Aires, o humilde bairro de La Boca tem suas origens ligadas aos operários. Localizado próximo ao porto, ele sempre foi moradia de imigrantes recém-chegados.

Aliás, em 1882, durante uma greve por melhores condições de trabalho, operários genoveses chegaram a declarar independência do bairro com relação à Argentina, fundando a República de La Boca. Durou pouco, claro, mas mostra bem o espírito guerreiro dos seus habitantes.

Foi em La Boca que, no início do século XX, enquanto a popularidade do futebol crescia, imigrantes italianos fundaram os dois clubes mais populares de toda a Argentina: o River Plate e o Boca Juniors. Quis o destino que esse clássico de bairro se tornasse o maior do país, com a rivalidade se acirrando ainda mais depois que o River deu as costas à região, mudando-se para uma área mais nobre, enquanto o Boca ficou, junto ao seu estádio clássico e temido, La Bombonera.

No imaginário popular, portanto, o Boca virou o “time do povo”, representante dos mais pobres. E, com isso, a equipe virou também o alvo principal das outras torcidas quando o assunto é racismo.

Das áreas rurais às grandes cidades

Bolivianos e paraguaios buscam um lugar ao sol na Argentina desde o século XIX. As primeiras ondas de imigração eram direcionadas ao trabalho nas lavouras de cana de açúcar, mas com o tempo, passaram também a outras culturas, principalmente do tomate, dos pimentões e das laranjas.

As províncias nortenhas, como Chaco, Salta e Jujuy, concentram a maior parte desses imigrantes. Elas são próximas às fronteiras e estão entre as mais pobres do país. São locais onde existe uma enorme proporção de bolivianos e de paraguaios, que aproveitam a proximidade de suas casas enquanto trabalham por melhores condições de vida.

Mas hoje, há também uma população considerável de imigrantes na grande Buenos Aires. A situação econômica da América do Sul na segunda metade do século XX, devastada por ditaduras militares e pela influência norte-americana no período da Guerra Fria, fez com que os movimentos migratórios se tornassem cada vez mais fortes. A década de 1980 foi a recordista na ida de bolivianos em direção à Argentina, já que o empobrecimento no país andino era enorme.

Buenos Aires também tem seus redutos de imigrantes. O afastado bairro de Liniers (que você deve conhecer como casa do Vélez Sarsfield) é chamado de “barrio boliviano”, com lojas de produtos típicos, mercados, artesanatos e manifestações culturais tomando as ruas. Considerado um lugar muito perigoso, é um típico reduto periférico de uma metrópole.

Como costuma acontecer contra grandes concentrações de imigrantes, os bolivianos e paraguaios são vistos por muitos argentinos como invasores, como pessoas que chegam para tirar o trabalho dos argentinos. Além do choque de culturas e de costumes, esse é um dos principais motivos para tanto preconceito sendo destilado.

O antropólogo Javier Bundio, da Universidad de Buenos Aires, fez dessa questão seu tema de doutorado. Ele escreveu “La construción del otro en el fútbol: Identidad y alteridad en los cantos de las hinchadas argentinas”. Em seu trabalho, diz que “o futebol forma parte da sociedade. Evidentemente, se o futebol expressa racismo e xenofobia, é porque eles existem na sociedade”.

Uma sociedade em transformação

Marcha conta a xenofobia na Argentina em 2017. Fonte: Wikipédia.

Outro estudioso sobre as manifestações preconceituosas no futebol argentino é o sociólogo Pablo Alabarces. E, para ele, o jeito de agir das barras bravas, como são chamadas as alas mais radicais das torcidas, explica diretamente a sociedade.

Alabarces teoriza que a violência e as manifestações de ódio cresceram nos estádios durante o período da brutal ditadura militar argentina. Isso porque a relação do povo com tais sentimentos e atos mudou durante esses anos. O que não era visto como natural passou a ser uma ação patrocinada pelo próprio governo.

Para ele, as barras bravas são o último reduto de homens com um jeito de agir que cada vez mais não tem espaço na sociedade. Eles veem atos de machismo, racismo, xenofobia e homofobia serem condenados com frequência maior a cada dia e, como resistência, com medo de perderem seu local derradeiro de dominância, reproduzem esses atos dentro do futebol.

Quando a torcida do Independiente chegou ao seu ato mais vil de xenofobia, queimando bandeiras da Bolívia e do Paraguai em um jogo contra o Boca, houve um perdão nacional sob uma promessa de que o clube “puniria seus torcedores com mais rigor”. Porém, esse tipo de manifestação vai, sim, perdendo espaço. A discussão, que antes nem sequer existia, vê hoje na opinião pública um olhar de repúdio maior do que nunca.

Um futebol em transformação

Uma das maiores rivalidades underground da Argentina é entre Chacarita Juniors e Atlanta, equipes de bairros vizinhos de Buenos Aires que sempre rodam pelas divisões inferiores do campeonato do país.

O Atlanta é um clube com raízes judias, o que sempre motivou cantos racistas dos rivais. Em 2012, a Argentina se revoltou com os torcedores do Chacarita entoando “vamos matar judeus e fazer sabão”. Tais frases sempre existiram, tal postura nunca deixou de estar ali. Porém, pela primeira vez, a sociedade realmente abria um olho para o tamanho do absurdo.

Em 2018, o Boca Juniors contratou o goleiro boliviano Carlos Lampe. Nas redes sociais, piadas e xingamentos múltiplos, partindo principalmente de torcedores de River Plate e Independiente, acabaram se proliferando. Mais uma vez, a repercussão foi péssima.

Lampe declarou que o Boca ganhara 11 milhões de torcedores, em referência à população de seu país. A conta oficial xeneize publicou um texto dizendo que “a xenofobia nunca é uma festa, mas um flagelo contra o qual lutamos todos os dias”. Mas o mais notável é que o exemplo foi seguido por alguns dos clubes rivais, como San Lorenzo e Racing, que também se manifestaram com notas de repúdio contra o jeito como o goleiro foi tratado.

Como nos ensina Javier Bundio, enquanto a xenofobia estiver presente na sociedade, ela estará presente nos estádios. Hoje, ao menos, há uma consciência sobre sua existência e uma noção de que deve ser combatida.