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O racismo persiste nas arquibancadas: qual o nosso papel nessa luta?

João Manuel Casquinha Malaia Santos

O tema desta semana é delicado. Mas não podemos deixar passar: o racismo na arquibancada. Multiplicam-se os casos de ofensas raciais pelos campos de todo o Brasil e também na América do Sul.

Só em abril de 2018 e pensando somente nas pelejas entre argentinos e brasileiros, foram ao menos cinco casos. Os torcedores do São Paulo sofreram ofensas raciais dos torcedores do Rosário Central. Na semana seguinte, foi a vez dos torcedores do Racing Club em direção aos torcedores do Vasco e dos torcedores do Independiente em direção aos torcedores do Corinthians. Nos últimos dias de abril, torcedores do Palmeiras filmaram um torcedor do Boca, na Bombonera, imitando macaco para eles. E novamente os torcedores do Racing, desta vez em São Januário, jogaram cascas de banana na torcida vascaína.

Conta oficial do São Paulo: Macacos? Até quando?

Conta oficial do São Paulo: Macacos? Até quando?

No jogo do São Paulo, o Twitter oficial do clube postou: “Mais um jogo em que brasileiro é chamado de macaco. Até quando?”. A diretoria do São Paulo afirmou estar estudando a possibilidade de entrar com uma representação contra o Rosário Central na Conmebol, mas até o momento, não sabemos se o clube seguiu adiante. Diante da postagem do clube paulista, não encontrei nada do lado do Rosário Central.

O Racing Club soltou uma pequena nota, por meio de seu site oficial  com o título: “La Academia le disse ‘no’ al racismo y a la discriminación”. Apesar de pequena, na nota há a afirmação de que o clube se compromete a identificar e tomar as medidas correspondentes com aqueles “inadaptados” (algo como “desajustados” em português) que tenham participado deste tipo de atos que vão contra a filosofia do clube. O Vasco da Gama, por meio de sua conta oficial no Twitter, postou o link da conta oficial do Racing com a nota. Junto do link, a frase: “Atos de racismo são sempre condenáveis. Parabéns ao @RacingClub por repudiar a atitude discriminatória de alguns de seus torcedores. A luta pelo respeito e pela igualdade é um dos grandes pilares da nossa história!”.

Mais notas de repúdio: e os casos seguem acontecendo

Mais notas de repúdio: e os casos seguem acontecendo

Já Independiente e Corinthians não soltaram nem ao menos uma nota. Mesmo com um vídeo circulando nas redes sociais de um torcedor argentino imitando um macaco para a torcida corinthiana. Justamente o Corinthians, um clube que em suas redes sociais adotou uma hashtag “DaleFavela” e que usa e abusa da imagem de sua torcida como ligada às classes populares, não publicou uma nota de repúdio sequer. Nos últimos casos, apesar dos registros da ESPN na Bombonera e do jornal O Dia em São Januário, nenhuma nota oficial de nenhum dos quatro clubes envolvidos.

O discurso oficial dos clubes é importante, e por isso seria mais do que necessário que todos se posicionassem. Mas mesmo quando há um posicionamento, este está longe de ser o ideal. No caso da nota do Racing, falta esclarecer algumas coisas. Qual é a filosofia do clube? Quais são as medidas correspondentes? Como serão punidos esses “desajustados”? Alguém já foi identificado? Como saberemos o desenrolar dessa história? São Paulo e Vasco da Gama deveriam, assim como todos os demais clubes, agir com mais firmeza, orientar os torcedores a entrarem com ações na Conmebol, entrar em ações conjuntas com os torcedores, ajudar por meio de suas redes sociais a colher provas e seguir adiante com os casos.

Mas, como todos nós infelizmente sabemos, os casos também se alastram pelos campos de futebol no Brasil. Nos últimos meses, os campos brasileiros também foram pródigos em casos de ofensas raciais. Só no mês de abril, três casos chamaram a atenção da mídia os eventos foram registrados no Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

O primeiro deles, foi o caso do Zagueiro Paulão, do Vasco da Gama. Após uma atuação considerada ruim pela torcida, alguns torcedores do próprio Vasco foram para a internet ofender Paulão. Não foi nas arquibancadas, mas mesmo assim, o clube foi alertado sobre as postagens por meio de denúncia do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Nova nota de repúdio do clube vascaíno.

Posição do Vasco contra seus próprios torcedores após ofensas racistas a Paulão no Twitter.

Posição do Vasco contra seus próprios torcedores após ofensas racistas a Paulão no Twitter.

Na sequência, em jogo decisivo da série A-2 do Campeonato Paulista, um torcedor do Guarani foi flagrado fazendo ofensas racistas na grade divisória, em direção aos torcedores do XV de Piracicaba. Um torcedor bugrino imitou um macaco e faz o gesto típico de passar o dedo no braço para indicar a cor da pele. A equipe de Campinas também soltou uma nota de repúdio após a viralização das imagens.

Ainda no início do mês de abril, no Estádio General Sampaio, o jogador Marcelo Kênia, do Araguaína, foi alvo de ofensas racistas por parte da torcida do Interporto, pelo Campeonato Tocantinense. O atleta comunicou à polícia, mas de nada adiantou. O Araguaína afirmou que entraria com uma faixa contra o racismo nas próximas partidas.

Todos estes casos foram amplamente divulgados em grandes veículos de comunicação e também no Observatório da Discriminação Racial no Futebol. No entanto, nem todos os casos aparecem nas televisões, nem saem nos jornais, nem aparecem em vídeos da internet. Me refiro aos muitos casos que se deixam passar nos estádios, que acontecem em jogos de menor público e em canchas mais afastadas dos grandes estádios.

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Campanha da CBF lançada em abril de 2014: explícita da discriminação racial. Crédito: CBF.

Aqui em Santa Maria-RS, por exemplo, tenho a oportunidade de acompanhar o Internacional local (o Inter-SM) e sua epopeia pela Divisão de Acesso (a segunda divisão do Campeonato Gaúcho). Felizmente, não presenciei nenhuma ofensa racial, mas apenas fui a três jogos da equipe em casa. No entanto, os relatos de ofensas raciais nos estádios do interior do RS não param de me chegar aos ouvidos.

Primeiro, foram as ofensas sofridas pela torcida do Inter-SM em Pelotas, no jogo contra o Pelotas, que foram descritas por Leonardo Botega numa postagem de um blog local. Em conversas com torcedores que foram a Pelotas, alguns deles relataram que foram ofendidos. Foram chamados de macacos, fizeram o gesto de mostrar a pele e mostraram uma banana. Outros, disseram que em Ijuí aconteceram fatos ainda piores. Neste domingo, em jogo em casa contra o São Gabriel, não pude estar presente ao estádio. Mas um amigo me disse que desta vez foi um torcedor do Inter-SM que gritou ofensas raciais ao atacante do São Gabriel.

Como não há registros, como ninguém filmou, como a polícia não foi chamada para prender estes torcedores em flagrante, estes casos tendem a cair no esquecimento. A única solução é começar a tomar atitudes quando estes atos acontecem. Filmar a pessoa e pedir para que alguém chame imediatamente a polícia. Hoje em dia, todo mundo tem um celular que filma. E em estádio de futebol sempre tem polícia por perto.

CBF inicia nova campanha na primeira rodada do Brasileiro 2018. Iniciativas como esta acontecem desde 2014.

CBF inicia nova campanha na primeira rodada do Brasileiro 2018: arte parece querer ampliar a discussão da discriminação racial para todo o tipo de discriminação. Crédito: CBF.

Meu parceiro Ricardo Pinto dos Santos há tempos estuda e tenta dar olhares mais alargados para o fenômeno do racismo no futebol. Em texto publicado aqui mesmo no Ludopédio, ele afirma que “no Brasil, como sabemos, ‘não reconhecemos’ o racismo porque acreditamos que ele ficou no passado. Ademais, há um esforço brutal em negar as consequências e, fundamentalmente, as responsabilidades sobre ele”.

A realidade só vai mudar se nós estivermos dispostos a muda-la. As notas das direções dos clubes são importantes, mas como se percebe, não surtem efeito. Os casos continuam a se multiplicar. Algumas pessoas podem ter medo de vir a prejudicar o clube com a perda de pontos ao acusar um torcedor de sua própria equipe. Ou pode ter receio de ter que enfrentar problemas futuros quando, dentro do estádio, cruzar os elementos que denunciou. Ou os  amigos dele. Ou aqueles que querem continuar praticando ofensas raciais.

Mas vale lembrar que o futebol é muito mais que um jogo. A arquibancada é uma metáfora da nossa vida. E o momento é o de escolher entre lutar ou calar.

* Gostaria de destacar todo o trabalho feito pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Sem o trabalho valoroso desta turma, muitos dos casos cairiam no esquecimento. Recomendo a todos que acompanhem este belíssimo e necessário trabalho.