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O retorno do futebol foi um crime

Phelipe Caldas

O futebol não deveria ter voltado.

Isso é uma certeza que cada vez mais eu tenho.

A Confederação Brasileira de Futebol inventou uma história de que criaria um protocolo “super-seguro” para o retorno dos jogos, mas a verdade é que as pessoas estão morrendo. E a culpa é dos cartolas, é importante ser dito, ao menos quando essas mortes são de pessoas ligadas de alguma forma ao futebol.

Tudo bem, ainda não houve no Brasil casos de atletas mortos por causa da Covid-19. Mas o futebol não é feito apenas por jogadores.

Em 19 de dezembro de 2020, morreu em João Pessoa, na Paraíba, o radialista esportivo Gláucio Lima.

Gláucio Lima no Estádio Almeidão, em 19 de novembro de 2020: menos de um mês depois, estaria morto. Foto: JosemarPhotoPress

Setorista da velha guarda, cobria há mais de duas décadas o cotidiano do Botafogo da Paraíba. Voz conhecida por toda a cidade, respeitada por quem tem o Estádio Almeidão como segunda casa.

No dia 23 de novembro, ele cobriu o jogo entre Botafogo-PB e Remo pela Série C do Campeonato Brasileiro. Poucos dias depois, foi diagnosticado com a doença. O caso acabou se agravando, ele foi internado, entubado, menos de um mês depois estava morto.

Mortes como a de Gláucio não entram nas estatísticas do futebol. Essas, em regra, estão restritas aos jogadores. Mas foi por causa do futebol que profissionais como Gláucio voltaram aos treinos, aos jogos, às entrevistas.

Pessoas que, sem o apoio de clubes ou federações para testes e tratamentos, foram obrigados a retornar ao batente. Entregues à própria sorte, muitos morreram. Muitos morrerão ainda.

Sim, a morte de Gláucio Lima não é um caso isolado.

Dois dias antes de sua morte, já havia morrido Luiz Henrique Ribeiro, o roupeiro da equipe Sub-20 do Vasco da Gama. Era o segundo caso de morte por Covid-19 no clube cruz-maltino.

Outros tantos exemplos podem ser dados.

O presidente da Chapecoense, Paulo Magro; o técnico do São Bernardo, Marcelo Veiga; apenas para ficar nos mais recentes.

Se a CBF prometeu realizar uma bolha para proteger os envolvidos com o retorno do futebol, fracassou desavergonhadamente.

No início da Série C, o Imperatriz do Maranhão viajou para Campina Grande, para jogar com o Treze, com 12 atletas contaminados. O jogo foi adiado, claro. Mas sem dinheiro, sem saber o que fazer com tanta gente doente, os dirigentes do clube maranhense colocaram todos eles dentro de um ônibus para sei lá quantas horas de viagem sofrida de volta para casa.

Sem contar que a suposta bolha não leva em consideração o lado humano, emocional, coletivo do ato de torcer.

Como controlar as torcidas, como imaginar que elas ficarão inertes frente ao arrebatamento? Ao título? Ao fim do jejum histórico?

Só um exemplo rápido, dentre centenas de outros possíveis…

Foto: Arte/JC

Como controlar, como convencer a população de Salgueiro, pequeno município do Sertão de Pernambuco, a ficar em casa depois de o clube homônimo se sagrar campeão pernambucano pela primeira vez em sua história? Na primeira vez em 105 anos que o campeonato estadual foi vencido por um clube de fora do Recife?

Impossível! Ninguém anteviu isso quando decidiu retomar o futebol no país?

E a culpa não são dos torcedores, diga-se. Não se pode colocar tudo na conta deles.

A culpa é principalmente dos dirigentes, que fecharam os olhos e retomaram com o futebol em meio a uma pandemia ainda incontrolável e que hoje está à beira de atingir o terrível número de 200 mil mortes no Brasil.

Definitivamente, o futebol não deveria ter voltado tão cedo.

Mas a cartolagem finge que está tudo bem.


Como citar

CALDAS, Phelipe. O retorno do futebol foi um crime. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 6, 2021.