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O rico pobre Palmeiras

Lucas Dorta

O rico pobre Palmeiras

No último domingo (20) o Palmeiras empatou em 1 a 1 com o Atlético Paranaense na Arena da Baixada. O resultado deixou a equipe longe do título brasileiro, já que agora a distância para o abençoado Flamengo de Jorge Jesus é de 10 pontos. Com isso, o milionário Verdão pode terminar o ano sem título. Decepcionante? Sim, apesar do futebol pragmático apresentado no felipônico título brasileiro de 2018, a individualidade dos atletas somada a um eficiente sistema defensivo fazia a diferença. Tanto é que houve 33 jogos de invencibilidade na era scolarística entre o fim de 2018 e a primeira metade de 2019, o que dava esperança ao torcedor, já que a equipe também terminou a 1ª fase da Libertadores, obtendo a melhor campanha. Cenário perfeito, até a volta da Copa América, quando as vitórias desapareceram e Felipão foi substituído por Mano Menezes. E o barco continuou afundando. Domingo  aconteceu uma espécie de despedida forçada do ano, mas a grande verdade é que o Palmeiras vem há tempos errando em muita coisa e está se transformando em algo tóxico em um momento que deveria aproveitar para ser mais alegre.

Tem muitas derrotas ocorrendo fora das quatro linhas e acompanhar a equipe é irritante, apesar das altas cifras.

Palmeiras empata com Athletico na Arena da Baixada, e Flamengo abre 10 pontos na liderança do Brasileirão. Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação.

Violência e megalomania

O volante e capitão Bruno Henrique – um dos grandes jogadores da conquista do deca – disse que sua mulher foi agredida por torcedores. Em setembro, o atleta havia sido cobrado enquanto passeava com a sua esposa. Em abril, antes do jogo contra o Junior Barraquilla pela Libertadores, o veículo do time acabou sendo atingido por objetos atirados por pessoas que não vestiam roupas de clube de futebol. O ônibus ficou com danos na lataria e nos vidros.

Casos de violência também envolvem a Mancha Alviverde, principal torcida organizada. Só neste ano já teve ameaça ao gerente de futebol Alexandre Mattos, ao então treinador Luis Felipe Scolari, além de alguns protestos contra a diretoria.

Claro que, infelizmente, esses comportamentos não são específicos desta época, mas o clube parece fazer pouco para mudar a situação e as ações mais duras ficaram em pequenas notas de internet. Esta violência está se tornando rotineira, beirando o insuportável.

O torcedor não violento não tem nada a ver com isso, porém a megalomania e os grandes investimentos fazem surgir uma sensação de que as vitórias têm que chegar a qualquer custo e toda hora, como se fosse obrigação ou caso de vida ou morte. Lógico que tem de ser cobrado melhor futebol e que grandes investimentos trazem grandes responsabilidades, só que chegou num ponto em que não sabemos o limite entre a exigência, a histeria e a megalomania.

Muitas vezes até comemorações perdem um pouco da emoção e espontaneidade, já que parecem obrigatórias e o pensamento já é logo na próxima.

O jogador Bruno Henrique, da SE Palmeiras, disputa bola com o jogador, do Atlhetico Paranaense, durante partida válida pela vigésima sétima rodada, do Campeonato Brasileiro, Série A, na Arena da Baixada. Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação.

Base descartada

É certo que nem todos os atletas da base dão certo no profissional. Mas, para quem em 2018 conseguiu 23 taças – do sub-11 ao sub-20 – e teve 31 jogadores chamados para seleções, é muito esquisito que pouquíssimos jogadores tenham ganho chances no profissional. Nem mesmo nos jogos tranquilos do Campeonato Paulista. Tudo isso em troca de gastos excessivos e inexplicáveis nas contratações ineficientes de jogadores que não mostram potencial e muitas vezes vão embora rápido sem deixar o mínimo de saudades. Alguns garotos rodam outros clubes, mas mesmo quando a equipe profissional está carente em determinada posição eles ganham oportunidade.

Resultado disso? Impressão de falta de planejamento na composição do elenco, questionamentos sobre a credibilidade do clube na contratação e escalação de jogadores, desvalorização e descarte automático de atletas da casa e desconfiança do torcedor em relação à parte administrativa.

Alinhamentos políticos questionáveis

Política e futebol andam juntos. É indiscutível. Isso não significa carta branca para a instituição Palmeiras ser usada como palanque. O esporte deve lutar por causas humanitárias e sociais, o que é diferente de jogador e instituição utilizarem a visibilidade para dar espaço a certas pessoas. Uma coisa é o líder político aparecer como líder de Estado e outra é fazer populismos e palanque com o símbolo do time. O Palmeiras vem dando espaço e se colocando como possível time a ser usado de propaganda de governo, enquanto verdadeiros torcedores ficam de fora por causa da elitização do estádio.

O palmeirense tem muitas ideologias. Grandes ídolos idem. Não é justo dar palco a quem não tem uma imagem tão positiva perante o mundo, até porque na história e no futuro esse alinhamento poderá deixar cicatrizes negativas, dependendo do que ocorrerá no Brasil. A festa do título brasileiro de 2018 perdeu o brilho, já que quem nem era do elenco tentou roubar a cena na entrega da taça, e a discussão sobre o futebol ficou em segundo plano. Conseguiram dividir pessoas em um momento que era para unir todos os palmeirenses num único grito.

“Ah, mas você é um esquerdista, blábláblá”. Não tem nada a ver com discussões ideológicas ou morais. Procure saber diferenciar políticos que vão ao estádio como líder de Estado daqueles que tentam se promover à custa do Palmeiras ou de outros clubes, colocando camisa de diferentes times igual trocam de roupa.

Estilo de jogo

Entre 2015 e 2019 foram três títulos (Copa do Brasil e dois Brasileirões), duas finais de Paulistão perdidas somente nos pênaltis e, neste período, oito treinadores diferentes passaram pelo clube. Estilos diferentes, sem uma definição daquilo que a equipe realmente quer para extrair o melhor do elenco. A aposta no pragmatismo até trouxe resultados no Campeonato Brasileiro de 2018. Em 2015, apesar do mau futebol, a Copa do Brasil foi salva graças às mãos e pés de Fernando Prass, a sorte e também ao caldeirão durante os jogos decisivos no Allianz Park. Mesmo assim a sensação é de que o elenco teve o potencial desperdiçado e poderia conseguir mais, pois algumas derrotas foram marcadas pela falta de ousadia.

O pragmatismo parou de dar resultados e a exigência para um futebol de imposição irá aumentar. De nada adiantará a “ofensividade” financeira se em campo o elenco não se impor contra adversários de menor investimento.

Atualmente o que vemos são jogadores apáticos, que irritam até o público mais paciente. A dificuldade na criação é de dar sono e desesperança em qualquer partida mais complicada.

Afastamento do torcedor

Ingressos caros desproporcionais ao futebol apresentado afastam os torcedores e a tendência é que o público diminua na melancólica reta final de Campeonato Brasileiro 2019. A diretoria deveria aproveitar para fazer promoções e atrair classes mais populares, já que a procura diminuirá. Além disso, o tratamento do torcedor como cliente aumenta a megalomania e a cobrança pelas vitórias a qualquer custo e a todo momento, sem oferecer doses de paciência caso alguém queira tentar fazer diferente dentro ou fora de campo.


O ano está no fim. O Palmeiras deve aproveitar para fazer testes em campo com o objetivo de montar o elenco de 2020. O clube também tem que repensar muitas coisas como uso das categorias de base, maior responsabilidade em contratações caras, aproximação do torcedor e mudanças no modelo de jogo ou na formação do grupo de atletas.