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O sexismo nas transmissões da Copa

Guilherme Eler

O diretor de Sustentabilidade e Diversidade da Fifa, Federico Addiechi, cobrou empresas que fazem a cobertura da Copa do Mundo da Rússia para não focarem em mulheres julgadas atraentes durante suas transmissões.

A prática, conhecida como “babe cam”, consiste na escolha intencional de quais torcedoras serão filmadas na arquibancada, a partir de aspectos físicos e de seu vestuário – o que, segundo a entidade, contribui para potenciais “incidentes sexistas”.

Segundo o Fare, órgão europeu anti-discriminação e racismo no futebol, o sexismo é o maior problema na Copa da Rússia. Foram identificados mais de 30 casos do tipo em jogos do torneio, incluindo, sobretudo, o assédio a jornalistas e repórteres mulheres. O Fare estima que o número real de incidentes entre os que foram ou não foram monitorados seja até dez vezes maior.

“Cobramos isso de empresas com transmissão independente e também de nossos próprio serviço oficial de TV”, disse Federico Addiechi, em entrevista à BBC. A captação, produção e emissão oficial das imagens dos 64 jogos do Mundial cabe a uma mesma empresa, a HBS (Host Broadcast Services). Há, porém, algumas emissoras licenciadas pelo mundo, que podem posicionar câmeras extras e gerar imagens exclusivas.

Perguntado se as orientações poderiam se tornar uma política oficial da Fifa, o diretor afirmou que ainda não há um projeto de campanha definido, mas que a entidade “tomará ações em relação a possíveis problemas” e que teria feito análises individuais de casos em que a postura ficou muito evidente. “Essa é uma das medidas que definitivamente teremos no futuro – é uma evolução normal”, disse, comparando a cobertura do evento na Rússia à feita em 2014, na Copa disputada no Brasil.

“Havia uma época em que essa notória objetificação
das mulheres em eventos esportivos era algo
comum em coberturas de TV. Mas isso não é
mais tolerável. Qualquer pessoa que tenha
assistido recentemente aos playoffs da NHL e NBA
[ligas de hóquei e basquete norte-americanas]
não viu nenhuma cena do tipo. Porém,
tal prática morreu da mesma maneira que
comentários sobre a aparência e as
roupas das mulheres em seu ambiente de
trabalho também morreram. Isso ainda não
acabou por completo.”
Trecho de artigo do jornal canadense
The Globe and Mail, comentando a seletividade
das imagens durante a Copa

Além das emissoras de TV, tal política de escolha ganhou destaque recentemente também em outros veículos. Ao final de junho de 2018, a agência de imagens Getty Images causou polêmica por publicar uma galeria das “Torcedoras mais gostosas da Copa”, que destacava fãs do sexo feminino de diferentes países. “O futebol é conhecido como um esporte lindo. E isso inclui suas fãs. Confira nestas fotos as mais sexy do torneio”, dizia a chamada da publicação.

A galeria foi apagada por conta da repercussão ruim que recebeu das redes sociais. Em comunicado, a Getty Images definiu o conteúdo como “um erro lamentável” e prometeu investigar internamente o caso.

“Eles estão reduzindo as torcedoras mulheres a ‘cheerleaders’ fofas nas arquibancadas. Chamar a atenção dos torcedores com decotes e fantasias fofinhas é algo que vai além dos limites”, comentou Sonja Missio, jornalista canadense que escreve sobre esportes para o jornal britânico The Guardian, sobre casos do tipo na cobertura do mundial da Rússia.

“Jogadores são punidos por tirarem a camisa durante o jogo; enquanto para torcedores do sexo masculino, fazer o mesmo é sinônimo de paixão pelo esporte. Por outro lado, as mulheres são ridicularizadas ou objetificadas por ‘mostrarem mais do que devem’. Há uma função implícita para as torcedoras que não as permite apenas torcerem.”


nexo_jornal_logo-600x152-minEste texto é uma republicação de artigo publicado no site Nexo Jornal.