137.60

O sucesso por trás dos números: por que o futebol de mulheres não para de bater recordes de audiência?

Daniel Leal

O estagiário não cansa de relembrar a nossa vitória de ontem!

 

 

Quando DaMatta (1982) afirma, há mais de 35 anos, que o nosso esporte mais popular reflete os dilemas da nossa sociedade, vê-se que o sociólogo não era apenas um conhecedor da realidade do país naquele contexto. Mas também um visionário. A afirmação, àquela altura, veio a se referir especificamente ao futebol praticado por homens. Mas hoje podemos ver que a afirmativa se encaixa perfeitamente também para o futebol de mulheres (FM). Afinal, acompanhando as transformações do nosso corpo social, o espaço na mídia e o interesse do público (ou seria o contrário?) ganham cada vez mais abrangência no nosso cotidiano permeado por corpos e vozes do gênero feminino.

A história mostra como custou (e ainda custa!) a luta pela igualdade de gênero no futebol (BARRETO JANUÁRIO, 2019). Sem a criação de uma cultura de cobertura contínua na agenda da mídia (MCCOMBS; SHAW, 1977), o FM foi, historicamente, permeado por contornos de invisibilidade, silenciamento (GOELLNER, 2005; BARRETO JANUÁRIO; VELOSO, 2019) e, ao ganhar publicidade, permanentemente alvo de metáforas associadas às linguagens que se ancoraram em evidências do tipo: “fragilidade, estética, masculinização e resistência” (MOURÃO; MOREL, 2005, p. 75).

Por isso, há de se exaltar cada vitória como um título e cada avanço como uma imensa conquista. O último dia 17 de novembro de 2020 trouxe mais um passo histórico na trajetória de consolidação de crescimento das mulheres no futebol no Brasil. Dois dos maiores clubes do país se enfrentaram pela primeira vez na semifinal do Campeonato Brasileiro. Ainda sem a abrangência da grande mídia , visto antes até aqui de maneira ímpar apenas na última Copa do Mundo, em 2019, coube à fiel audiência assistir ao clássico entre Corinthians x Palmeiras pela rede social Twitter. Para surpresa daqueles que não acompanham a estabilidade de um nicho cada vez mais forte, os noticiários estamparam: Dérbi paulista feminino faz Twitter bater recorde de audiência.

Segundo o UOL Esporte, o jogo vencido pelo Corinthians por 3 a 0 (incluindo um golaço olímpico de Ingryd) chegou a marcar um pico de 34 mil pessoas simultâneas. “Para os padrões do Twitter, uma rede social que não costuma fazer transmissões ao vivo em vídeo e nem é projetada para tal, o índice foi considerado robusto”, destacou a matéria. O mesmo texto informa que somando todos os minutos da transmissão, pelo menos 1,5 milhão de pessoas passaram pelo jogo em todo o Twitter. “O dado é equivalente a 20 Neo Química Arena, local onde aconteceu o jogo, lotadas”, destaca. 

A conta do Brasileirão Feminino na rede social (@BRFeminino) ironizou: “Ninguém assiste ao futebol feminino” – estampando em seguida os números acima de um milhão de espectadores, bastante comemorado por se tratar de uma veiculação exclusivamente em plataforma digital. O jogo, vale destacar, foi narrado por uma mulher: Natalia Lara. A hashtag #BrasileirãoFeminino chegou a ser primeiro lugar nos assuntos mais comentados do Twitter.

 

 

Não se pode dizer que os números expressivos e o crescimento da modalidade são propriamente uma surpresa. Ao lado das pesquisadoras Soraya Barreto Januário e Cecília Almeida Lima, publicamos nesta semana um artigo na revista portuguesa Observatório (OBS*), que aponta uma transformação em curso na relação entre mídia e futebol de mulheres no Brasil. O estudo realizado pelo grupo de pesquisa OBMídia – Observatório de Mídia: Gênero, Democracia e Direitos Humanos, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), indicou um aumento de 533% no aumento das notícias nos sites esportivos brasileiros quando comparadas as Copas do Mundo 2015 e 2019.

Barreto Januário, Lima e Leal (2020) analisaram os cinco dos principais sites de notícias esportivas no Brasil: UOL Esporte, Globo Esporte, ESPN, Torcedores.com e Placar. Para efeitos de comparação quantitativa com estudo realizado por Barreto Januário, Veloso e Cardoso (2016), foram excluídos o site Torcedores e a revista Placar, que não foram contabilizados na pesquisa anterior (sobre a Copa 2015). As pesquisadoras e o pesquisador chegaram, então, a um total de 437 notícias no período da Copa do Mundo 2019 contra 69 do primeiro estudo. Isso representa o crescimento já apontado de 533% na representatividade do Mundial feminino nos sites esportivos brasileiros.

O fenômeno de expansão da audiência no futebol de mulheres pode ser notado com mais força nesta última década, especialmente em anos de Copa do Mundo e Olimpíadas – 2015 e 2016, respectivamente, ficaram marcados pelo avanço na luta e engajamento de pautas feministas no país, “especialmente na mídia, num  momento conhecido como uma nova primavera feminista no Brasil” (BARRETO JANUÁRIO, 2019, p.20). Há uma sensível quebra de paradigmas na concepção de que “futebol é coisa de homem” (FRANZINI, 2005, p.325) e, pouco a pouco, a mulher passa a permear o ambiente futebolístico, seja com maior assiduidade no noticiário e emplacando recordes de audiências estrondosos como os ocorridos no último Mundial.

E talvez 2019 tenha sido o ano da virada histórica de chave no futebol de mulheres não apenas no Brasil. Aquela Copa, disputada na França, foi a oitava edição do torneio (o primeiro ocorreu apenas em 1991, enquanto a masculina em 1930). E foi a primeira que a TV Globo, líder em audiência no Brasil, transmitiu-a. O dia 23 de junho de 2019 foi um momento relevante no tocante à audiência para o universo do futebol nacional. Nesse dia, a nossa Seleção foi derrotada na prorrogação pela França em um jogo assistido por mais de 35 milhões de telespectadores, divididos entre as emissoras Globo, Band e SporTV. O número representou um recorde para o futebol de mulheres no país, é bom que se diga, após esforço de inserção da temática pela mídia – afinal, está provado, o tema nunca foi tão abordado nos noticiários.

Com os direitos de transmissão, a maior emissora do país passou a veicular em seus programas jornalísticos televisivos, diariamente, uma série de reportagens sobre o torneio, introduzindo seus telespectadores à temática que se aproximava. Na estreia da Seleção Brasileira contra a Jamaica, o principal narrador da empresa, Galvão Bueno, esteve à frente da transmissão, o que foi cirúrgico à finalidade de passar um recado: o abraço ao futebol de mulheres, naquele momento, era para valer.

Os números expostos pela Fifa, entidade máxima do futebol mundial, denotam que o fenômeno foi muito além das fronteiras brasileiras. No mundo inteiro, um total de 1,12 bilhão de telespectadores sintonizou o torneio pela TV ou em alguma plataforma digital. Isso significa que a média de audiência por partida mais do que dobrou em relação à Copa do Mundo do Canadá, em 2015, quando cada jogo foi visto por aproximadamente 8,39 milhões de pessoas. 

Na Copa 2019, o número foi de 17,27 milhões de espectadores/jogo: um aumento de 30% da audiência. A final entre Estados Unidos e Holanda foi a partida mais vista na história, com audiência média de 82,18 milhões – aumento de 56% na final de 2015 (52,56 milhões).

Não há uma explicação única para justificar o interesse das pessoas em torno do futebol de mulheres, asseguram Barreto Januário, Lima e Leal (2020). Os autores afirmam que, sim, existe um conjunto gradual de mobilização feministas (que passa pela conquista do voto, na década de 1930, pelo direito ao trabalho, pela Lei Maria da Pena, pela luta pela legalização do aborto, por igualdade, liberdade, autonomia etc) a qual o agendamento midiático (MCCOMBS; SHAW, 1977) e os efeitos de uma audiência potente (MESQUITA, 2014) têm se mostrado fundamentais. 

Além disso, Barreto Januário, Lima e Leal (2020) apontam a intensificação e visibilidade da cobertura nos portais segmentados, como é o caso do blog Dibradoras, um canal de notícias protagonizado por mulheres com intensa produção e cobertura do futebol de mulheres, contribuiu para a construção de um público qualificado e para a percepção da grande mídia de que o FM é um objeto noticiável.

Como argumentado por Soraya Barreto Januário e Ana Veloso (2019), vem sendo percebido no Brasil, desde 2015, o que se pode chamar de uma “primavera feminista”, no que tange a temas relacionados ao empoderamento feminino e formas de representação da mulher na mídia, mais preocupada com uma retratação mais fidedigna à mulher contemporânea e suas conquistas.

Acredito que a audiência tem o poder de ser potente (MESQUITA, 2014) e causar o que enxergamos como uma espécie de contra-agendamento – ou seja, o interesse da mídia em oferecer mais cobertura para a Copa do Mundo feminina parte também de uma percepção de que existe uma audiência interessada no assunto. Essa audiência é capaz de se fazer visível a partir do uso de plataformas como as redes sociais digitais. Desse modo, um tema que por décadas havia sido invisibilizado passa, não por acaso, a merecer destaque. 

A atuação de uma audiência que interage ativamente com o produtor da notícia é classificada por Mesquita (2014) como audiência potente. Esse é um ponto que considero fundamental para a abertura da mídia ao futebol de mulheres. De acordo com a pesquisadora, quando nos referimos à audiência potente estamos falando de cidadãs e cidadãos que estabelecem uma relação ativa com os veículos de comunicação, envolvendo-se ou sendo envolvidos nos processos, práticas e nas rotinas jornalísticas para construção social da realidade. Não seria justamente esse o efeito provocado pelo público que assiste ao futebol de mulheres?

Por meio da conectividade e do acesso aos dispositivos tecnológicos, um dos principais aspectos observados neste fenômeno que engrenou nesta década diz respeito à condução da audiência para que seja produzido aquilo que ela quer que seja veiculado. O público pressiona, observando, por exemplo, quando houve omissão de determinado assunto ou até mesmo uma cobertura inapropriada (MESQUITA, 2014).

A passos lentos, mas gradativos, vamos deixando cada vez mais para trás o fatídico Decreto-Lei nº 3.1991 de abril de 1941, em pleno Estado Novo, ditadura do governo Getúlio Vargas, que instituiu o Conselho Nacional de Desportos (CND) e determinava, no artigo 54, que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas”.

À mulher caberia, entre outras obrigações, contribuir de forma decisiva com o fortalecimento da nação e o depuramento da raça gerando filhos saudáveis. Àquela altura, imaginava-se que a prática esportiva atrapalharia a preservação da saúde feminina. O futebol, portanto, só poderia mesmo representar um “desvio de conduta” inadmissível aos olhos do Estado Novo. Apesar da estrutura misógina concebida em nossa sociedade, as mulheres continuam a lutar, desviando da trivialidade de uma sociedade machista e conquistando cada vez mais seu espaço.

A final da competição entre Avaí/Kinderman e Corinthians acontece em 22 de novembro e 6 de dezembro deixa de ser exclusiva do Twitter (@BRFeminino), onde Natália Lara voltará a narrar a decisão. Além dela, outras duas profissionais, subvertendo outra lógica misógina da cultura futebolística em relação às mulheres, também estarão à frente das transmissão na TV Band, com Isabelly Morais, e na ESPN Brasil, com Renata Silveira. Enquanto isso, a Rede Globo, maior emissora do país e atenta ao imenso potencial financeiro envolvido, segue estudando adquirir os direitos do Brasileirão a partir de 2021. Vamos acompanhar e torcer.


Referências

BARRETO JANUÁRIO, S. Mulheres no campo: o ethos da torcedora pernambucana. São Paulo: Fontenele, 2019.

BARRETO JANUÁRIO, S.; VELOSO, A. M. C.; CARDOSO, L. C. F. “Mulher, mídia e esportes: a Copa do Mundo de Futebol Feminino sob a ótica dos portais de notícias pernambucanos“. Eptic online: revista electronica internacional de economia política da informação, da comunicação e da cultura, 18.1, p.168-184, 2016.

BARRETO JANUÁRIO, Soraya; VELOSO, Ana. “Gênero, mídia e futebol: a cobertura midiática genderificada no Brasil”. In: C. LIMA, Cecília; BRAINER, Larissa; BARRETO JANUÁRIO, Soraya (orgs.). Elas e o futebol. João Pessoa: Xeroca!, 2019.

BARRETO JANURÁRIO, S. B.; LIMA, C. A. R.; LEAL, D. “Futebol de mulheres na agenda da mídia: uma análise temática da cobertura da Copa do Mundo de 2019 em sites jornalísticos brasileiros“. Observatorio, 14(4), 42-62, 2020.

DAMATTA, Roberto. “Esporte na sociedade: um ensaio sobre o futebol brasileiro”. In: DAMATTA et al. (org.). Universo do Futebol. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.

FRANZINI, F. “Futebol é “coisa para macho”?: Pequeno esboço para uma história das mulheres no país do futebol“. Revista Brasileira de História, v. 25, n. 50, p. 315-328, 2005.

GOELLNER, S. V. “Mulher e esporte no Brasil: entre incentivos e interdições elas fazem a história“. Pensar a prática. V.8 n.1 revisada. p. 65, 2005.

MCCOMBS, M.; SHAW, D.L. (1977). The emergence of american political issues: the agenda-setting function of the press. Saint Paul: West Publishing Co, 1977.

MESQUITA, G. Interfiro, logo existo: a audiência potente e as novas relações no jornalismo. (Tese de Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE, Brasil, 2014.


Como citar

LEAL, Daniel. O sucesso por trás dos números: por que o futebol de mulheres não para de bater recordes de audiência?. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 60, 2020.