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O tênis na trajetória de Renée Richards

Wagner Xavier de Camargo

Nos últimos anos, em minhas pesquisas acerca das problemáticas de gênero nos esportes tenho percebido algo, que posso assim sumarizar: a) a história dos esportes ainda tende a ser a “história oficial” dos corpos envolvidos nas arenas esportivas e, nesse sentido, somente há lugar para corpos estritamente masculinos ou femininos; b) qualquer dissonância no binarismo de gênero não é visibilizada ou tende a desaparecer dos registros oficiais; c) é nas modalidades esportivas mais conhecidas e valorizadas pela cultura ocidental onde mais se identifica tal invisibilidade, particularmente em comparação com esportes desconhecidos; e d) nível de performance esportiva também contribui para manter um “caso de exceção” escondido: quanto melhor a performance, mais um corpo tende a ser normalizado.

Pensando nessas problemáticas e decidindo visibilizar parte de meus achados de pesquisa, quero trazer hoje algo da trajetória de uma médica oftalmologista estadunidense, que nos anos 1970 se notabilizou pelo jogo ágil e estiloso no tênis, com fortes saques de direita e impetuosidade nos contra-ataques às adversárias nas (novas) quadras de piso duro.[1] Seu nome é Renée Richards.

Nascida num corpo que não lhe pertencia, em muitos momentos Richards se desesperou tentando entender o que ocorria consigo, e conforme o tempo passava, mais tinha certeza de que algo devia ser diferente. O problema era convencer uma sociedade conservadora que talvez uma cirurgia de redesignação sexual fosse a solução para suas angústias. Afinal, nascer mulher num corpo de homem era transgredir barreiras demais para o momento; querer realizar tal cirurgia, então, seria considerado um despautério, principalmente para um médico rico e bem-sucedido, que desfilava com estonteantes mulheres em carros velozes, que jogava tênis como ninguém e era de família tradicional na Nova Iorque daqueles anos.

Os dilemas de Richards, que persistiam nas inúmeras sessões psiquiátricas, assentavam-se nos questionamentos de como deixar tudo isso para trás e viver a vida que queria, livre das amarras institucionais de uma sociedade de base heterossexista. Recusava-se a assumir o “transtorno mental” que lhe imputavam. Apesar de saber que assumir o status de transexualidade poderia estar no horizonte, também tinha conhecimento de que essa ainda era tratada como doença na classificação do DSM-II (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) da época.

Richards jogava tênis com excelência e, inclusive, participou do Torneio Nacional Estadunidense (o US National Championship) no ano de 1953, ainda como homem. Vinte e quatro anos mais tarde, já com a certeza inabalável de que tornar-se mulher havia sido a melhor coisa de sua vida, voltava às quadras com determinação de quem não queria deixar de fazer nada, muito menos jogar tênis. Ela própria se referiu, em entrevista, que não tinha a intenção de voltar a jogar, mas não poderia deixar de fazê-lo só porque alguns a proibiam. O caso foi judicializado por ela, que acabou ganhando a ação:

Essa não foi minha intenção. Não é tanto a ideia que eu queria ser pioneira e a que rompe barreiras. Foi um motivo muito mais pessoal. Eu passei por uma reviravolta na minha vida e eles estão me dizendo que eu não posso jogar tênis? De repente, eu disse a mim mesmo: Eu posso fazer qualquer coisa que qualquer outra mulher tem o direito de fazer. Como eles ousam? (WEINREB, 2011, s/p.).[2]

O torneio de 1977 (então US Open ou Aberto dos EUA, evento que estava se tornando um dos que hoje conhecemos como Grand Slams) talvez não tenha sido a melhor performance esportiva já desenvolvida por ela, mas foi certamente a melhor de sua vida. Jogando como mulher, Richards sublinha sua (nova) existência, então pública e revelada a milhares de pessoas. Mais do que desempenho como jogadora (apesar de que isso não lhe faltava), ela buscava reconhecimento existencial num espaço esportivo masculinizado e preconceituoso.

Renée Richards se tornou, oficialmente, a “primeira transexual na história da modalidade”. Ou assim foi registrado pela história oficial do esporte! Em que pese essa “classificação” ser importante para identificar a alteridade e outras identidades sexuais e de gênero no campo esportivo, Richards preferia que ela fosse considerada “uma mulher como outra qualquer” (Entrevista do documentário da ESPN).[3]

Naqueles últimos anos da década de 1970, Richards foi uma das atletas mais noticiadas pela imprensa. Chegou a ser Top20 do Aberto dos EUA, mas jornalistas e críticos esportivos disseram que ela só conseguiu o feito porque era um “homem na pele de mulher” jogando tênis – um argumento preconceituoso ainda em voga nos tempos atuais se nos lembrarmos do que tem acontecido com Tiffany Abreu, no voleibol, aqui no Brasil.

Além do processo judicial que teve de enfrentar, houve boicote de 23 tenistas mulheres quando souberam de seu retorno às quadras na nova condição e, apesar de Richards ser oficialmente reconhecida como mulher pelo Estado de Nova Iorque, foi forçada pela federação da modalidade a fazer um teste de cromossomos, algo em vigor na época. Tais testes foram implantados pelo Comitê Olímpico Internacional (IOC) durante os Jogos Olímpicos do México, em 1968, e queriam identificar a presença do gene SRY, encontrado no cromossomo Y, para tentar provar que alguns homens biológicos estavam “disfarçados” de mulheres para participarem de competições esportivas (CAMARGO; KESSLER, 2017).

Durante todo esse processo, várias pessoas ficaram ao seu lado. Billie Jean King, uma das grandes tenistas de todos os tempos, ofereceu-lhe um contrato de trabalho. E, Martina Navratilova, que despontava já naqueles anos, além do suporte, convidou Richards para ser sua treinadora. Uma filmagem caseira no YouTube destaca a presença de Richards na plateia, “coaching” (dando instruções a) Navratilova.[4]

Richards contou sua história num livro autobiográfico, publicado em fins dos anos 1980. Second Serve: The Renée Richards Story (1983) narra os dramas de uma vida de sofrimentos e expectativas. O livro virou filme, com o mesmo título, dirigido por Anthony Page e lançado em 1986. Hoje em dia encontra-se disponível na internet.[5]

Os últimos anos têm sido importantes para várias conquistas relacionadas a pessoas transexuais e transgêneros em várias esferas da vida, inclusive nos esportes. Além dos direitos conquistados por meio do reconhecimento de seus nomes sociais e do gênero transicionado, tais pessoas acabam se tornando públicas e midiatizadas, muitas vezes de uma forma não muito respeitosa. A sociedade brasileira (e mundial) tem que perceber que elas não chegarão a “um gênero”, o “escolhido”, para resolver seus “problemas”. A nova condição de mulheres ou de homens, conforme o desejado, deve ser respeitada sem outras adversativas.

No entanto, a própria condição de existência desses sujeitos tem-se imposto como determinante. E aqui mora um paradoxo a ser pensado: quanto maior é a visibilidade, mais preconceitos se revelam por parte de uma sociedade que ainda mostra, claramente, não estar preparada para aceitar tais sujeitos da forma como se reconhecem. E se não os aceitam como desejam, obviamente registramos suas histórias e trajetórias de nossos (equivocados) pontos de vista.


Notas

[1] Até nesses anos, ainda se jogava no West Side Tennis Club, em Forest Hill, nas suas quadras de grama.

[2] Tradução minha do trecho original: “That was not my intention. It’s not so much the idea that I wanted to be a pioneer and a standard-bearer. It was a much more selfish reason. I’d gone through such an upheaval in my life, and they’re telling me I can’t play tennis? Suddenly I said to myself, ‘I can do anything any other woman is entitled to do. How dare they?”

[3] Trailer disponível no You Tube (https://www.youtube.com/watch?v=4OBPzN_ajXc).

[4] Filmagem disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=v207hpeQ_-A>.

[5] “Second Serve” (https://www.youtube.com/watch?v=gUuXyBE0_z4).

Referências

WEINREB, Michael. “Renée Richards wants to be left alone”. Grantland.com. Disponível em < http://grantland.com/features/reneacutee-richards-wants-left-alone/>, acesso em 20 abr 2018.

CAMARGO, Wagner Xavier;  KESSLER, Cláudia Samuel. “Além do masculino/feminino: gênero, sexualidade, tecnologia e performance no esporte sob perspectiva crítica”. Horizontes Antropológicos [online]. 2017, vol.23, n.47. pp.191-225. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832017000100191&lng=en&nrm=iso>, acesso em 20 abr 2018.

RICHARDS, Renée; AMES, John. Second Serve: the Renée Richards Story. New York: Stein and Day, 1983.