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O torcedor é o pai da cidadania brasileira?

Gustavo Andrada Bandeira

Todos nós que resolvemos, pelo motivo que tenha sido, estudar os fenômenos mais distintos de nossa sociedade através do esporte mais popular do planeta, com certeza já nos perguntamos (talvez ainda nos perguntemos) se faz sentido todo esse investimento neste campo vinculado àquilo que não seria sério em nossa sociedade. Eu e os colegas da minha geração já tivemos as portas da academia aberta pelos pais, e principalmente pela mãe – Simoni Guedes – desse campo de estudos, mas acredito ser pouco provável que esse questionamento não tenha aparecido.

Nossos artigos, dissertações e teses sempre tiveram um capítulo, uma seção ou ao menos um parágrafo em que precisamos explicar o óbvio, o futebol é um tema relevante na sociedade brasileira e, por esse motivo, merece ser estudado. Para mim, a melhor definição segue sendo a do Arlei Damo:

“(…) o futebol cumpre a mesma função significante do vestuário, especialmente para os brasileiros do gênero masculino. (…). Em um país que a rua é um espaço privilegiado na socialização dos meninos e que o futebol é uma das brincadeiras preferidas, desdenhá-lo equivale a andar nu” (2002, p. 11).

Trabalhando formalmente no campo da Educação, sempre precisei gastar algumas páginas, parágrafos ou, no mínimo, algumas linhas para justificar a relevância de estudar fenômenos educativos através do futebol, no meu caso, de espetáculo: “O futebol é uma prática cultural que faz circular diferentes pedagogias, ensina comportamentos, valores, modos de ser e de estar no mundo, extrapolando, em muito, os jogos de noventa minutos” (BANDEIRA, 2017, p. 31).

Torcida mista em Grenal, Campeonato Brasileiro de 2015, Estádio Beira-Rio, 22 de novembro. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA.

Naquele momento, meu esforço ainda era em tentar justificar a existência de pedagogias, de processos de ensino-aprendizagem em uma prática cultural específica. Se estivesse vinculado a outras disciplinas, talvez isso não fosse necessário, mas na Educação, me parecia (e ainda me parece) que sim. Talvez minha citação anterior hoje, e esse será o objetivo das linhas que seguem, possa apontar (e tendo a acreditar que infelizmente) que, mais do que os processos que ensinam torcedores, a pedagogia do futebol e de seus estádios produz cidadania no Brasil. Não quero me precipitar e identificar a cidadania brasileira ou uma cidadania “à brasileira” através do futebol, mas me parece que nesse turbilhão de emoções que temos vivido no atual cenário político nacional, a ética e a estética do torcedor de futebol possam ser vistas, sim, ao observarmos nossa ação no espaço público.

O protagonismo do juiz ladrão já não vem de hoje e parece que permanece no centro das discussões, mesmo depois de o VAR ter mostrado para os torcedores do juiz (isso, sim, é inédito da nossa política, não aparece no futebol) que ele era, no mínimo, simpatizante de uma das equipes. Isso tanto é verdade que boa parte desses torcedores passou a torcer, quase em sua totalidade, para um candidato só.

Talvez o que seja mais fácil de ser visualizado neste momento nesse diálogo que estou tentando fazer entre o torcedor e o cidadão no contexto brasileiro esteja bastante aproximado à vinculação que fazemos com nossos clubes, que Arlei Damo define como clubismo: “um sistema de representação estruturado, de forma que o indivíduo, ao tornar-se torcedor, é capturado por códigos que orientam seu comportamento e moldam a sensibilidade” (2014b, p. 39). É possível inferir que as percepções ética, estética e moral são atravessadas por essa comunidade de sentimento. Um dos apelos à identidade torcedora aparece em um contexto em que outras identidades estão fragmentadas. Este cenário não autorizaria que o sujeito buscasse uma posição mais radical que o definisse? As pessoas parecem ter dificuldades em aceitar essa identidade fluida, o que acaba autorizando que algumas identidades mais fixas, mesmo aquelas que renunciam a criticidade do pensamento, acabem parecendo atrativas.

O pertencimento clubístico também “articula um sistema que movimenta as emoções a partir da relação pendular entre identidades (nós) e alteridades (eles/outros)” (DAMO, 2014a, p. 50). Fazendo um exercício radical do conceito de clubismo dentro do cenário político, me permito apostar que, se entendermos o conhecimento científico e a saúde pública como opostos ao “nosso” (as aspas é porque não é nosso, mas deles) governo, os cidadãos-torcedores tratarão a ciência e o conhecimento como adversários e nos esportes em geral, e no futebol em específico, vencer é uma obrigação que autoriza, inclusive o uso de subterfúgios, um tanto quanto duvidosos do ponto de vista ético e moral. Nessa lógica, se o nosso gol for marcado com a mão, vale, o gol deles não vale. A discussão sobre perder como em 1982 ou ganhar como em 1994 vale só para a seleção brasileira, nosso clube tem que ganhar. Para mantermos o binarismo e a polaridade, se nosso jogador for ruim, apontaremos para um pior no time deles (mesmo que, no factual, seja melhor do que o nosso), se a nossa torcida cometer uma atrocidade, lembraremos de algum feito duvidoso da torcida rival, mesmo que ele não tenha a mesma dimensão ou, mesmo, nenhuma relação com nada daquilo que está em ação naquele momento.

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, vestidos de verde e amarelo, criticam e agridem enfermeiros que faziam ato a favor do isolamento social e em homenagem a colegas de profissão vítimas da COVID-19. Foto: Divulgação/Sindicato dos Enfermeiros do DF.

O clubismo no futebol é uma forma fundamental de vinculação. As emoções somente podem ser vividas pelos partidários. Evidentemente que jogadas geniais poderão guardar beleza em si, mas na imensa maioria dos anos que acompanhamos nossos times vemos futebol ruim e somente nossa identidade torcedora permite que sigamos juntos. Mas, salvo as raríssimas exceções, sabemos que o futebol é um espaço de lazer e que os jogos duram o tempo que tem. Um dos aprendizados que os torcedores de futebol recebem se dá em relação à constância de suas disputas. Após um jogo ou um campeonato, temos outro jogo e outro campeonato. Uma vitória gloriosa dura apenas o tempo de início de outra partida. O mesmo, felizmente, vale para as derrotas humilhantes. Inclusive, e isso é importante, é necessário saber que existem momentos em que não existe jogo. Não é possível viver o jogo permanentemente. Os torcedores sabem disso, alguns de nossos cidadãos não e continuam em campanha eleitoral. Ao final dos jogos, sentamos com nossos rivais, brincamos, pagamos ou recebemos o nosso vinho, mas a vida segue. Se transportarmos essa lógica para o fazer política (e, aqui, não estou falando de política partidária), abriremos mão de dois elementos fundamentais para a vida na esfera pública que é o diálogo (e falo do diálogo sério, não de monólogos acompanhados) e o pensamento crítico.

Conquanto o fenômeno futebolístico comparta muitos elementos com nosso atual cenário cidadão, os torcedores, talvez, sejam os pais das fake news – e acreditam em várias delas (na rivalidade Grenal chegamos a dizer – nós gremistas – que o André Vieira (?) é maior que o Falcão porque ganhou Libertadores…) – ainda parece cedo para pedir a paternidade da cidadania brasileira, até porque o atual cidadão de bem brasileiro é muito pior que o pior dos torcedores (nenhum torcedor pedirá para que a Federação assuma o seu clube e determine o campeão). Ainda assim, lamentavelmente, parece que o clubismo, em sua pior faceta, ensinou muito para a forma que devemos agir no espaço público além de dividirmos em uma relação que não é de reflexo, mas de complementariedade entre futebol e sociedade, o machismo, racismo, homofobia, elitismo e outras violências.

Talvez seja hora de aprender com as coisas positivas do clubismo como a fidelidade, aceitar a derrota e saber que jogamos contra, mas jogamos com os nossos rivais… Seguimos! Como diria o enorme Pep Mujica e como nós, torcedores de futebol, tão bem sabemos, não existem derrotas definitivas. Nem na política.


Referências

BANDEIRA, Gustavo Andrada. Do Olímpico à Arena: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de estádio. 2017. 342 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, UFRGS, Porto Alegre, 2017.

DAMO, Arlei Sander. Futebol, engajamento e emoção. In: HELAL, Ronaldo. AMARO, Fausto. Esporte e mídia: novas perspectivas. A influência da obra de Hans Ulrich Gumbrecht. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2014a, p. 49-94.

DAMO, Arlei Sander. O espetáculo das identidades e das alteridades – As lutas pelo reconhecimento no espectro do clubismo brasileiro. In: CAMPOS, Flavio de; ALFONSI, Daniela. (Org.). Futebol objeto das ciências humanas. São Paulo: Leya, 2014b, p. 23-55.

DAMO, Arlei Sander. Futebol e identidade social: uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes. Porto Alegre: Editora da Universidade (UFRGS), 2002.

Como citar

BANDEIRA, Gustavo Andrada. O torcedor é o pai da cidadania brasileira?. Ludopédio, São Paulo, v. 131, n. 15, 2020.