09.6

O torcedor passional

Paulo Nascimento

Considero Sérgio Buarque do Holanda um dos mais significativos intelectuais brasileiros de nossa recente história de pensadores que se propuseram a pensar o Brasil, a brasilidade, o jeito de ser do brasileiro. Em uma de suas mais célebres construções, presente em “Raízes do Brasil”, Holanda cunhou o termo “homem cordial” para se referir ao comportamento do brasileiro que, quando comparado ao jeito de ser do europeu ou do anglo-saxão, (principalmente quando se trata do modo de ser destes indivíduos na coisa pública), não raro demonstra ter como peculiaridade uma evocação de práticas personalistas.

Isso, aliado ao nosso histórico patriarcal, rural e colonial, foi como que um “adubo” para a germinação deste novo homem que emergia em um Brasil também novo, da industrialização, das teorias higienistas, da metrópole:

Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será a de cordialidade – daremos ao mundo o “homem cordial”. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar “boas maneiras”, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante.

Já nos anos 50 (pouco mais de uma década depois da primeira publicação de “Raízes…”, que data de 1936), com o futebol já consagrado como principal esporte do país, e com um razoável histórico de participações internacionais do selecionado brasileiro, Nelson Rodrigues, famoso por sua disposição em polemizar as características que, segundo o próprio, eram simultaneamente sobressalentes e ocultadas, cunhou a expressão “síndrome de vira-latas”.

Este termo, por sua vez, ganharia notoriedade por tratar de como este Brasil que emergia no século XX se apresentava ante outras nações, outros povos mais desenvolvidos que o brasileiro: de modo receoso, inibidor, covarde. Rodrigues, ao que me parece, procurou, com seu modo peculiar de enxergar o mundo, detectou uma “excessiva e deprimente humildade” no brasileiro quando confrontado com o estrangeiro; e estas elaborações eram feitas não raro tendo o futebol como objeto de análise.

Pois bem, depois de Sérgio Buarque e de Nelson Rodrigues, vieram os títulos da Copa do Mundo tão desejados pelos brasileiros. Hoje, o futebol, de um modo geral, e a seleção brasileira, sendo mais específico, ocupam um espaço indiscutível como assunto da mais alta importância a ser tratado em nosso país. E de fato o é, em várias instâncias (as cifras milionárias que circulam no universo do futebol profissional espetacularizado , a importância dada à educação física na formação educacional dos jovens, o espaço significativo que o futebol ocupa na mídia ou a mobilização da sociedade brasileira em épocas de Copa do Mundo são apenas alguns dos vários exemplos que podem ser dados). E quero aqui fazer algumas observações sobre impressões que tive nas recentes repercussões que as últimas apresentações da seleção brasileira de futebol geraram. Ao que me parece, a imprensa e a opinião pública brasileiras podem ser caracterizadas por um movimento pendular em que estas gostam de se localizar, partindo velozmente da euforia ao pessimismo exagerados. Relembremos então alguns episódios.

Logo depois da pouco comemorada medalha de bronze nos Jogos Olímpicos, o compromisso seguinte do Brasil foi pelas eliminatórias da Copa do Mundo, contra o Chile. Muita desconfiança por parte dos torcedores, cobranças dos que opinam via imprensa esportiva, e discursos de que a equipe, após o fracasso que se apresentava como eminente, sofreria alterações e sua comissão técnica – a começar, claro, por Dunga. Resultado do jogo: 3 a 0 para o Brasil. Repercussão do dia seguinte: manchetes eufóricas nos jornais (nos mesmos que no dia anterior previam a derrocada da equipe brasileira e preconizavam sobre o que poderia ser feito depois da tragédia). Euforia esta que contagiou as análises para a partida seguinte, e foi mantida até o empate sem gols contra a Bolívia.

Rapidamente, tanto a opinião pública, quanto a imprensa nossa de cada dia, nos deram mais uma demonstração de pouca paciência e se apressaram em classificar como o que supostamente seria falta de “qualidade”, “vergonha”, “empenho”, “amor à camisa”, prova clara de que o futebol “de hoje” não é mais como “o de antes”, e adjetivos equivalentes que fundamentaram suas observações apocalípticas sobre o futebol brasileiro. E o que me chamou a atenção foi este movimento pendular ter se repetido, de modo bastante parecido, na rodada do mês seguinte: vitória do Brasil por incontestáveis 4 a 0 sobre a Venezuela, comemorada euforicamente, seguida de novo empate sem gols contra a Colômbia, tratada mais uma vez sob uma perspectiva de pessimismo quanto ao que se vira e ao por vir.

Creio ser difícil pensar no futebol como uma entidade amorfa e independente de outras forças que atuam na sociedade. Logo, acredito que características facilmente detectáveis na sociedade brasileira, tais como a desigualdade social, a relação que o povo estabelece com os políticos por ele eleitos, ou o espaço que este povo confere aos ritos de ordem religiosa, repercutem, sim, em um dos fenômenos mais populares – quiçá o mais popular – desta sociedade. E por mais batida que possa parecer esta hipótese, acredito, sim, que estas tensões presentes na sociedade, associadas à valoração da seleção brasileira como um campo indelével do que há de melhor em nosso jeito de ser, despertam no torcedor uma perspectiva passional, tal qual a psicanálise aborda o assunto entre os amantes: criar no outro um objeto para contemplar o seu próprio desejo, que no final das contas tem mais a ver com a imaginação daquele que deseja do que com o modo como o outro desejado se apresenta para o mundo, para os outros e para este que o deseja.

Na terra do homem cordial e do complexo de vira-latas, essa tensa relação passional do torcedor brasileiro com sua seleção é evocada. Assim, ao que me parece, esse torcedor passional lida com a inconstância e imprevisibilidade do futebol, que são tão característicos desse esporte, com uma histeria parecida à do namorado ciumento e possessivo, impedindo que sua amada faça outra coisa da vida que não seja corresponder ao desejo dele.

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1 – HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. 4ª ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1963, p. 137.
2 – RODRIGUES, N. A pátria em chuteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
3 – DAMO, A. S. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo & Rothschild Ed., Anpocs, 2007, pp. 42-45.

Bibliografia

DAMO, A. S. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo & Rothschild Ed., Anpocs, 2007.

HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. 4ª ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1963.

RODRIGUES, N. A pátria em chuteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Como citar

NASCIMENTO, Paulo. O torcedor passional. Ludopédio, São Paulo, v. 09, n. 6, 2010.