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O torcer como uma experiência educativa a partir do futebol

Amarildo da Silva Araujo

O futebol mineiro nos dois últimos anos vive a glória das conquistas de títulos nacionais e internacionais. O Clube Atlético Mineiro foi Campeão da Taça Libertadores das Américas 2013, Recopa Sul-Americana 2014 e Copa do Brasil 2014. Nesse período o Cruzeiro Esporte Clube conquistou o Campeonato Brasileiro em 2013 e 2014. Esse êxito levou os dois principais clubes de Minas Gerais a final da Copa do Brasil. A decisão entre esses times tornou-se mais acirrada a rivalidade entre as duas maiores torcidas do Estado. Essa rivalidade ficou tão intensificada que voltou a reabrir a discussão sobre a polêmica da torcida única nos jogos entre Atlético e Cruzeiro. Assim, trazendo o futebol para o centro de uma intervenção pedagógica pretendo apresentar um relato de experiência sobre o torcer desenvolvido em uma escola estadual do ensino médio de Belo Horizonte.

O dia seguinte a classificação das equipes mineiras para a final da Copa do Brasil, a escola foi tomada por um clima de emoção pelos alunos que se manifestavam por meio de gritos, palavras de ordem, cantos, hinos tocados no celular, bonés e a camisa do seu clube abaixo do uniforme da escola, causando uma enorme agitação no cotidiano da mesma, inclusive durante as aulas. No intervalo do recreio a diretora reuniu os professores e nos disse que um grupo de alunos torcedores do Atlético e do Cruzeiro a procurou para pedir se no dia do primeiro jogo da final eles poderiam trazer os uniformes, bandeiras e demais adereços das equipes que torciam.

Ela considerou essa decisão de muita responsabilidade, por isso compartilhou com os professores o pedido referente a entrada dos alunos apenas com a camisa do clube, o que não daria a ela nenhum controle sobre qualquer problema que viesse a acontecer no trajeto para a escola e no retorno para a casa. A reação dos professores foi de negação desse pedido, pois era um risco inclusive dentro da escola. Uma professora chegou a dizer “sou contra, eles estavam quase brigando dentro da sala de aula por causa de futebol”.

Jogo de futebol na escola. Foto: Gabriel Sousa Batista.

Aguardei as falas, que por sinal eram contrarias ao interesse dos alunos e disse que a preocupação dos professores com relação a violência era legitima, dado as notícias veiculadas pela imprensa. Sempre foi um tema do meu interesse trabalhar o torcer com os alunos, uma oportunidade que não aconteceu no período da Copa 2014, devido ao longo recesso no calendário escolar ocorrido durante esse torneio. Expus sobre a importância de se trabalhar o torcer e o espaço que esse tema vem ganhando nas aulas de Educação Física. Além disso, disse que os próprios alunos estavam nos oferecendo essa oportunidade e eu acreditava no desafio de trabalhar o tema, portanto assumi o compromisso de desenvolver um projeto.

Acatei a ideia de uma professora que sugeriu que os alunos entrassem com o uniforme escolar e se trocassem no vestiário para evitar conflitos com as pessoas durante o trajeto. Em seguida fui até as salas e negociei com os alunos que vestissem a camisa na escola e poderiam trazer outros objetos que simbolizassem o seu pertencimento, porém era preciso compreender que há momentos e locais para manifestarmos o nosso pertencimento clubístico, inclusive sobre as manifestações ocorridas durante a aula de outras disciplinas. Comuniquei aos alunos que não estava mais em discussão apenas o uso da camisa, mas também o desenvolvimento de um projeto para estudar a violência no futebol que culminaria na realização de uma partida entre os alunos atleticanos e cruzeirenses no dia do segundo jogo da final da Copa do Brasil.

A escolha desse tema ocorreu em decorrência do interesse dos alunos e dos professores e de como uma parte da imprensa explora esse assunto. Para colocar o projeto em ação foi preciso três aulas. A tarefa foi formar grupos de quatro a cinco alunos e cada grupo deveria apresentar um vídeo de dois a três minutos de livre escolha sobre violência no futebol, que pudesse contemplar imagens, trechos de programas esportivos, entrevista, reportagem, depoimentos e os possíveis apontamentos de soluções, para realizarmos a discussão.

Garotos reproduzem a rivalidade entre Cruzeiro e Atléitico-MG. Foto: Gabriel Sousa Batista.

Os vídeos mostraram que a violência está para além das torcidas e não envolve apenas as torcidas organizadas como é fortemente enfatizado pela mídia, portanto as imagens foram extensivas aos árbitros, jogadores, torcedores, comissão técnica, dirigentes e policiais. Levantamos os locais onde os conflitos são mais incidentes e buscamos explicações na sociologia/antropologia e na psicologia referentes ao torcedor individual e a potencialidade que ele adquire quando encontra a força do coletivo. Refletimos sobre jogadas violentas e a violência entre os jogadores, bem como sobre os óbitos gerados a partir de conflitos entre torcedores.

Além disso, foi destacado o estudo realizado por Luiz Gustavo Nicácio em 2010 “O torcer no futebol como possibilidade de lazer e a educação física escolar”, que contribuiu para afirmar que a temática do torcer nas escolas ainda é trabalhada por um pequeno número de professores de Educação Física, o que me levou a imputar aos alunos mais esclarecimentos e responsabilidade a partir do momento que passaram a construir e ter um conhecimento maior sobre o torcer e a violência, uma vez que são raros os torcedores que tiveram ou têm a oportunidade de estudar esse tema.

Com relação ao dia do primeiro jogo, a maioria dos alunos vestiram a camisa do seu clube na escola e levaram diferentes símbolos de pertencimento do mesmo e manifestaram o torcer nos intervalos, recreio e saída do turno, não estendendo as suas manifestações durante as aulas. Dando uma clara demonstração que haviam percebido onde caberia ou não a discussão/manifestação dentro da escola. Esse comportamento dos estudantes/torcedores recebeu o meu elogio e reafirmei o compromisso de realizar um jogo entre atleticanos e cruzeirenses no dia da final da Copa do Brasil.

Bandeira do Atlético no fundo da quadra. Foto: Gabriel Sousa Batista.

No dia marcado para ocorrer o jogo na escola, os alunos trocaram a camisa do seu clube na escola conforme o combinado e fizeram as suas manifestações. A partida de futsal sofreu uma adaptação no tempo de jogo com duração de trinta minutos cada tempo, para que um maior número de alunos pudesse participar. Dentro do campo, o jogo foi duro e as manifestações das torcidas foram acirradas, mostrando que a rivalidade entre essas equipes pode existir sem ser traduzida em violência, pois os alunos demonstraram a compreensão que o outro optou a pertencer a um clube que não foi escolhido por mim, da mesma forma que optei diferente dele, o que significa, a princípio, que a escolha de pertencer a um clube, não marca a superioridade de um sobre o outro.

Desse modo, procurei mostrar uma intervenção pedagógica que se aproximou da pedagogia de projeto ao construir com os alunos e discutir alguns aspectos da violência atribuída ao torcer no futebol que ocupou o centro desse trabalho educativo.