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O torcer no bar

Felipe Vinícius de Paula Abrantes

Futebol, bar e cerveja. No imaginário popular estas são três das grandes paixões do brasileiro. Em certa medida, esta crença foi um dos motivos que me levaram a investigar e escrever sobre este tema. De certa forma, em minha história de torcedor do Galo, esta realidade também fez parte da minha vida. Quando tentava e não conseguia ingressos para os jogos no Mineirão via o bar como uma alternativa, um plano B, no qual eu pudesse, mesmo a quilômetros de distância, gritar, cantar e até mesmo “ser ouvido” pelos jogadores e incentivar meu time. Por diversas vezes já me peguei dando instruções para a TV, com a esperança de ser atendido. “Vira o jogo!”, “rápido! aproveita o contra-ataque” e por aí vai…

Em Belo Horizonte, cidade considerada a capital dos bares, observamos muitos deles que transmitem jogos de futebol e, além disso, fazem do futebol um dos principais produtos do “cardápio”. Os bares foram construídos historicamente como lugares relevantes para o encontro e a sociabilidade. Vemos que, é o que ocorre também quando pensamos neste espaço como o destino de vários torcedores. Muitos bares conseguem reunir um grande número de torcedores, mesmo quando a partida transmitida está sendo realizada em Belo Horizonte ou ainda quando há transmissão pela TV “aberta”. Desconfiamos fortemente que um dos principais motivos para a observância deste fenômeno seja o engajamento emocional que segundo Damo (2005), é um dos ingredientes para a formação do pertencimento clubístico. Neste engajamento as pessoas que torcem por um mesmo clube se identificam enquanto iguais e passam então a militar pelo seu clube. É aí que está o ponto chave. Militar pelo seu clube, não passa necessariamente pela presença do apaixonado torcedor nos estádios. E assim, como os torcedores que vão ao estádio, muitos torcedores “de bar” carregam e dão ao torcer uma gama de outros significados para além de um “simples divertimento”.

Além disso, existe também o consumo da bebida alcoólica. Em especial a cerveja, constituindo um fator importante para estes sujeitos. Para eles a sociabilidade que o consumo de bebida, em certa medida favorece, colabora também para que a adoção e a incorporação do habitus do torcedor de bares seja alcançado. Percebemos então que além do torcer por um determinado clube, existem alguns outros signos que são compartilhados. É verdade que um torcedor pode fazer o consumo de uma bebida não-alcoolica, mas dentro daquele ambiente, principalmente quando há o tratamento mais informal dos clientes. O torcedor parece ser visto com um “estranhamento”, talvez para este torcedor seja necessário possuir ainda mais signos em comum para deixar der ter esta “marca”.

Torcedores assistem aos jogos da Copa do Mundo nos bares de Belo Horizonte. Foto: Marcello Casal Jr. – Agência Brasil.

Falando em tratamento informal dos clientes, observamos também os diferentes estilos de bares. Alguns, como já foi dito, possuem um atendimento mais pessoal e informal, outros tem um caráter mais formal e empreendedor. Alguns possuem abertura para um público mais diverso, outros mais tradicionais só “aceitam” homens. Outros ainda não se preocupam com um cardápio variado de petiscos outros participam de concursos gastronômicos. Mesmo com suas diferenças grande parte destes bares veem na exibição dos jogos uma forma de atrair seus clientes e aumentar o faturamento. Um exemplo bastante peculiar em Belo Horizonte é o bar vinculado a rede de rádio Itatiaia. Esta emissora transmite os jogos dos principais clubes de Belo Horizonte e têm uma das maiores audiências do rádio esportivo no estado. O bar foi inaugurado no ano de 2014 e o principal atrativo do estabelecimento são dois telões gigantes em alta definição, várias TV’s e a transmissão simultânea do rádio, sem o delay característico da TV em relação ao rádio.

Esta diversidade de bares se encaixa em uma categoria de Menezes (2009) que entende o bar como um locus propício para o encontro, para a sociabilidade. No entanto existem os bares “pés-limpos”, que possuem uma característica mais higienizada e os bares “pés-sujos” que para a autora mantém uma característica do espaço mais autêntico e propício para a sociabilidade da sociedade carioca, sendo esse o recorte do seu trabalho. Menezes percebe ainda maior importância social dos bares economicamente e esteticamente menos requintados.

Podemos com esta breve descrição dos bares e uma análise ainda que incipiente do que foi observado até o momento, dizer que indícios apontam para uma interessante pesquisa de um campo em Belo Horizonte, que como dito no início do texto, tem nos bares um grande símbolo de lazer e de vivencia cultural do município. Ressaltamos ainda, que pela importância que o futebol e o torcer no futebol exercem no Brasil, é sempre importante e pertinente conhecer e entender mais como se dá esta prática em suas mais diferentes possibilidades, em seus mais diferentes formatos, neste caso no bar.

Bar montado dentro da FIFA Fan Fest de Belo Horizonte durante a Copa do Mundo. Foto: Marco Evangelista – Imprensa MG.

É possível dizer também que o torcer nos bares é múltiplos e diverso, assim como os tipos de bares que são escolhidos pelos torcedores e o grau de envolvimento que possuem com outros torcedores, com os donos dos estabelecimentos e seus funcionários. Mas tudo isso catalisado por um sentimento de pertencimento clubístico e de identidade, por um objetivo e uma vontade de empurrar e incentivar seu clube do coração, mesmo que as ondas da transmissão televisiva não sejam capazes de levar toda essa vibração de volta.

Referência:
DAMO, Arlei Sander. Do Dom à Profissão: Uma etnografia do futebol de espetáculo a partir da formação de jogadores no Brasil e na França. (Tese de Doutorado). Curso de Antropologia Social, Departamento de Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 435 f. 2005.

MENEZES, Leila Medeiros de. Os bares da vida: espaços de sociabilidade e de construção poética. In: Análise e Crítica Literária. Cadernos do CNLF. Rio de Janeiro: CIFEFIL. ano. XII, n. 15. p. 50-59. 2009.